Deficiência Auditiva Histórias dos Leitores

Surdez e arte: a história da Priscila

Tudo começou quando eu tinha 17 anos. Até lá, nunca havia percebido que tinha perda auditiva.  Naquele ano, o médico me falou que eu tinha um colesteatoma no ouvido direito. Ele já havia perfurado o meu tímpano e corroído parte dos meus ossinhos do ouvido. Algo deu errado na cirugia, ninguém sabe ao certo o que, coisa de menos de 1% de chance de acontecer, e saí da cirugia com perda total de audição no meu ouvido direito. E foi aí que começou a minha vida com deficiente auditiva.

Surdez

Sempre fui muito artística, me metia em tudo que tinha a ver com as artes: pintura, escultura, fotografia, cinema, teatro, desenho e por aí a fora.

Com 20 anos, decidi ir para os EUA estudar cinema na Califórnia. Sem perceber, passei a fazer escolhas baseadas no que conseguia ou não conseguia ouvir. Por exemplo, depois de muitos anos fui perceber que só tinha amigos que gostam de falar bem alto, aqueles cuja voz tem presença quando entram numa sala, sabe? Gente que fala baixinho me deixava suando frio. Eu não tinha informação, nunca ninguém havia me falado que eu poderia me beneficiar de aparelho auditivo e eu simplesmente me virava como podia.

Aos 24 anos descobri que o tal do Colesteatoma estava invadindo o meu ouvido esquerdo e, com uma nova cirugia, descobri que ele já havia corroído tQotalmente todos os ossinhos do ouvido esquerdo. uando removido, passei a ouvir muito mais baixo. Me lembro de ir chorando poucos dias após minha cirugia ao hospital para pedir pela primeira vez um aparelho auditivo emprestado. Queria usar até comprar o meu, porque tinha um casamento para ir e eu não conseguia me comunicar com ninguém.

Comprei meu primeiro aparelho para o ouvido esquerdo (o direito não tinha mais o que fazer), mas comecei a ficar com muito medo de me colocar em situações em que teria que ouvir várias pessoas ao mesmo tempo. Fui evitando todas elas a qualquer custo. Me tornei mais introspectiva, na minha e não soube mais que carreira seguir. Tive meu primeiro filho, o Lucas,  quando estava ainda terminando a faculdade e 3 anos depois, tive o Jason.

O nascimento do Jason marcou minha vida de forma inesperada. Ele não passou no teste auditivo quando nasceu, pois havia nascido profundamente surdo. Eu me vi em terreno totalmente novo. Não encontramos ligações genéticas entre a surdez dele e minha perda auditiva. Na mesma época, meu casamento desmoronou. Eu virei mãe solteira de dois meninos pequenos e sem trabalho.

Passei então a pegar pequenos trabalhos de designer em casa e participei na pré-escolinha do Jason como ajudante de professora. Eu queria aprender tudo que podia para ajudá-lo a se comunicar com o mundo. Logo de cara, a gente recebeu muita informação para ele. Com isso fui me educando sobre o mundo surdo e da deficiência auditiva.

Aprendi linguagem de sinais, aprendi a tecnologia. Conheci outras famílias com histórias incríveis. Fiz grandes amigos. Esse era o único mundo que o Jason conhecia e ele levava sua vida com uma tranquila naturalidade. Fui então descobrindo o quanto que eu havia reprimido em mim mesma. Quantas coisas havia evitado, o quanto tudo poderia ter sido diferente se eu tivesse recebido informação da mesma forma que meu filho recebeu: assim que a perda auditiva foi detectada.

Foram anos empurrando a minha carreira com a barriga, sem dar muita atenção a ela pois simplesmente eu não tinha tempo e nem motivação para isso. Meus filhos sempre estiveram em primeiro lugar. E como os anos passam rápido, não?

Em 2015, Jason fez 10 anos e o Lucas, 13. Eu estava morando junto com meu namorado Goyo e sua filha Alexandra de 12 há 5 anos. Jason estava implantado há 6 anos com o implante coclear e estava indo super bem na escola. Eu havia mudado do aparelho auditivo e passei a usar o BAHA e estava me adaptando muito melhor.

Arte

Mas mesmo com tudo isso, sem saber bem o porque fui sentindo uma apatia, e ao mesmo tempo uma sensação de que tinha algo maior pra ser feito na minha vida, mas não sabia nem como começar. Olhava para os meus materiais de artes cheios de pó e teias de aranha. O que fazer? Resolvi me inscrever numa aula de crossfit (justo eu!, a menina artística que fugia da aula de educação física!).

Essa aula foi me deixando mais forte, com mais energia, mais empolgação e uma luzinha começou a crescer dentro de mim. Mudei minha alimentação e passei a meditar. Comecei a ouvir podcasts que me inspiravam e com isso meu desejo de fazer minhas artes foi crescendo, crescendo, crescendo. No começo de 2016, declarei pra família que eu iria ser uma artista profissional. Desse jeito mesmo! Como quem acorda e decide!

E olha só como essa vida é: passando nem um mês que eu havia feito essa decisão, vários problemas familiares começaram a surgir e como se isso não bastasse, eu fui diagnosticada com 5 miomas sintomáticos no útero. Meu mundo havia desabado! Me senti uma vítima, um fracasso total. Jamais conseguiria seguir meu sonho de tomar minha carreira artística.

Com 40 anos de idade, procurei terapia pela primeira vez na vida. Entre uma sessão e outra, fui aprendendo a ver os “presentes” dentro dos meus “problemas” e o quanto eu havia ignorado meus próprios desejos por tantos anos. Descobri que meus miomas vieram para que eu finalmente tomasse essa atitude de fazer essa investigação interna e começar pela primeira vez em muitos anos, à fazer aquilo que é melhor pra mim.

My Luckyears

Fiz uma meditação durante uma das minhas sessões de terapia e recebi uma mensagem de ”Trust and Let Go”. Sem saber ao certo o que isso realmente significava pra mim, a terapeuta sugeriu que eu me abrisse à ideia de jogar isso pra escrita ou pra minha arte. Foi aí que realmente nasceu o My Luckyears.

Uma mistura de lucky ears (orelhas de sorte) e Lucky years (anos de sorte), uma maneira de unir a minha história, à minha perda auditiva e à minha arte. Fiz um projeto nele que durou 12 semanas, que eu chamei de Weekly Letting Go. A cada semana eu fazia um trabalho artístico do começo ao fim, sem dar muita relevância ao material usado, o processo em si ou o resultado. A única regra era que eu teria que terminar por completo dentro de uma semana. Não interessava se eu havia gostado ou não do trabalho final.

Minhas artes foram aparecendo de várias formas, quanto mais eu criava, mais idéias eu tinha. Um turbilhão de coisas embutidas foram saído de dentro de mim. Tenho compartilhado meus trabalhos nas redes sociais e no meu website e recebi vários feedbacks incríveis. Consegui um estúdio de artes pela primeira vez na minha vida.

Ainda tenho muito a crescer. Sonho em poder incentivar as pessoas a aceitarem e assumirem quem elas são sem medo de se assumirem. Se estamos nesse mundo, já é sinal suficiente de que somos alguém especial. Não existe nenhuma outra Priscila assim exatamente como eu, com a minha estória, meu dna, no ano em que eu vivi. Assim como não existe outro você. Acho isso incrível!

Se você está nesse mundo é porque você é especial e único e você tem uma experiência e perspectiva que somente você pode oferecer, seja ele qual for, e cabe a você entrar em sintonia com essa sua essência. Eu ainda não sei ao certo o alcance do meu trabalho. Isso só o tempo irá me dizer. Mas eu sei ele que é maior do que eu e por isso, jamais voltarei atrás. Cada passo que eu dou, aprendo novas coisas, influencio novas pessoas, faço novas conexões. A vida é muito mais sobre o arco-íris do que sobre o pote de ouro no final dele.

O desenho acima fiz para a Paula e seu filho Lucas. Ela amou! 🙂
33 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

2 Comentários

  • Olá
    Gostaria de sugerir o incentivo às pessoas surdas, no sentido de escreverem seus sentimentos

    em ralação à aprendizagem e ao ensino. Coisas como: 01-A tecnologia precisa dirigir o foco ao surdo, sempre que for aplicada a esse público. 02- Os alunos, aprendizes, treinandos não deveria ser cobrados, imediatamente, sobre o entendemento do que acabaram de ler. 03- Cada escola ou cada professor de surdo deve contar com equipe de apoio para solução de problemas ao longo da aula, ou pelo menos ter acesso à registrar para posterior averiguação, coisas como melhorar os trabalhos para ganhar tempo e aplicar mais tempo na produção dos resultados do conhecimento.

    Esses pontos tem sido muito discutico em nosso grupo de trabalho, e já constatamos que ainda há ausência de mergulho de profissionais como Assistente Social, Fonoaudiologo, Professores especialistas em algumas áreas. E por que o mergulho nos temas ou na concentração desses? Porque nem tudo que pensamos ser o melhor para nossos alunos é o melhor individualmente e a consequencia no coletivo não se acelera.

    Claro, colocar-se no lugar do outro é bem mais produtivo no sentido de se buscar melhorias no que desejamos e começamos a desenvolver.

    Grato por este espaço.
    Darcy

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