Nunca fui uma pessoa muito musical, por motivos óbvios. Confesso que sempre achei um pouco esquisita a obsessão das pessoas com a música, já que para mim aquilo não fazia muito sentido. Tive uma fase, na adolescência, de total apego a CD’s: Madonna, Aerosmith, Oasis, trilha sonora de novela, trilha sonora de filmes. Eu evitava me apaixonar por música enquanto ainda estava na surdez severa porque sabia que um dia a surdez profunda chegaria, e tinha medo da dor que viria a sentir quando não ouvisse mais nada. Sentimentos confusos e horrorosos que só a surdez progressiva faz por você! 🙁
2013 foi um ano importante no quesito musical na minha vida. Não me perguntem o motivo, mas foi a época em que mais escutei música. Isso com aparelhos auditivos, via bluetooth, ou então enquanto dirigia, no som do carro. Após o meu implante coclear, demorei um tempo até sentir vontade de voltar a escutar música, e só comecei a gostar disso pra valer quando programamos o meu cabo de áudio para que ele fechasse todos os outros sons e só trouxesse a música. Mas havia duas questões envolvidas: eu só escutava com um ouvido e não escutava do mesmo jeito que antes. De início meu cérebro se comportou um pouco tipo: “Não gata, obrigada, mas NÃO!”
Acontece que eu não desisto fácil. Depois que ganhei um iPhone, comecei a catar no iTunes todas as músicas que gostava e que lembrava de antigamente. E aí bateu uma paixão…Primeiro, porque eu estava ouvindo e entendendo as letras, coisas mais do que inédita para mim; segundo, porque eu estava redescobrindo as músicas e ouvindo instrumentos que antes não conseguia.
Evoluí DEMAIS com o meu primeiro implante coclear, demais mesmo. Fiquei até prepotente a ponto de achar que estava tão bem que não tinha como melhorar o modo como eu ouvia música. Acontece que estava RE-DON-DA-MEN-TE enganada.
Foi só dois meses após a ativação do meu segundo implante coclear que consegui compreender a dimensão de encrenca na qual havia me metido! E digo ‘encrenca’ no bom sentido, porque o que era maravilhoso conseguiu a proeza de ficar ainda melhor. Hoje, não gosto mais de escutar música em mono, só gosto em stereo. E, em determinados momentos, sequer acredito que sou capaz disso, chega a ser surreal. Uma surda profunda ouvindo música, entendendo a letra, sentindo em que lado cada parte da música toca. É muito louco, para dizer o mínimo.
No último mês minha relação com a música ficou mais forte. Passei a me deslocar todos os dias para o centro do Rio de metrô, e como ninguém merece aquela barulheira, uso esse tempo para ouvir música com o PhoneLink (ganhei de presente do pessoal da Audibel) e o app Spotify. Esse momento passou a ser a minha meditação diária. 30 minutos de manhã e 30 minutos no final do dia. Meu corpo pede por esse momento, tanto que, assim que coloco os pés para fora de casa de manhã cedo já estou ativando o bluetooth do celular para começar a ouvir.
A cada dia descubro uma música nova. A cada dia redescubro uma música da minha infância e adolescência. Todos os dias descubro que cantava alguma música errado. Ontem, foi um refrão da música ‘Sozinho’, do Caetano Veloso. Chorei de rir…
Essa opção de se desligar totalmente do ruído da cidade – e da vida – fechando todos os outros sons ao redor e captando apenas a música é algo que só fui compreender muito tarde, aos 35 anos. Quem diria que a essa altura do campeonato a música se tornaria um dos meus maiores prazeres. Quem diria…
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