Menu
Crônicas da Surdez / Destaques

A beleza dos sons da cozinha

Só fui entender a beleza dos sons de uma cozinha depois de voltar a ouvir com o implante coclear. Não dava bola para isso quando era mais nova e, na minha fase final com aparelhos auditivos, eu não ouvia mais nada em agudos, portanto perdia todos esses sons. Sabe aquela frase célebre que diz ‘ver a vida com outros olhos‘? No meu caso preciso adaptar para ‘ouvir a vida com outros ouvidos‘, pois é isso que venho fazendo desde o dia 11/11/2013. Presto muito mais atenção a cada som agora, e não só isso, me delicio e aproveito cada som de um modo que só é possível em função de ter passado tanto tempo no silêncio. Quando você perde, você dá valor. Quando você perde e acha que nunca vai recuperar, você dá ainda mais valor. Agora, quando você perde, acha que nunca mais vai recuperar e um belo dia recupera, aí, meus queridos, o papo é outro. Não vira mais questão de dar valor, mas de gratidão e apreciação. Tem sido assim comigo, e não me vejo agindo de outro jeito nunca mais.

Desde que me casei com uma pessoa maravilhosa que ama cozinhar (sobre a qual eu não deveria estar fazendo propaganda, hahaha) comecei a ver a cozinha com outros olhos e a ouvir os sons da cozinha com outros ouvidos. Parece tão banal, mas vocês já observaram o que acontece enquanto alguém cozinha com ouvidos bem atentos?

Quando criança, eu ouvia naturalmente o apito da chaleira avisando que a água estava fervendo. Hoje eu acho lindíssimo o som da água borbulhando e queria que existisse uma palavra para isso – que, se existisse, seria tão bonita quanto a palavra ‘saudade’. E as diferenças que existem entre os sons quando você refoga, frita, ferve, cozinha no vapor ou grelha um alimento? Não conhecia o som de uma coifa pois na minha casa nunca tivemos uma, e quando conheci foi tipo ‘uau’. Ouvintes lendo este post devem me achar uma louca, com certeza. Existe coisa mais linda de viver do que o barulho do ‘tim tim’ que fazemos confraternizando com copos ou taças de cristal? Eu me emociono com isso!! E as bebidas, gente? Poderia passar uma tarde inteira com o ouvido perto de uma taça de espumante me deliciando com o som das borbulhas de gás estourando – esse som chega a ser poético. O barulho das embalagens plásticas é tão irritante quanto o barulho da mastigação de certos alimentos mas, cá entre nós, quem se importa? Numa cozinha, qualquer barulho chato é automaticamente anulado pela imensidão da beleza dos sons das pessoas confraternizando em torno da mesa. Os sons eu já amo, agora só me falta aprender a cozinhar! 🙂

About Author

Moro no Rio de Janeiro e tenho 39 anos. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Sou autora dos Crônicas da Surdez e Novas Crônicas da Surdez.

2 Comments

  • Leonardo Magalhães
    27/05/2021 at 8:11 am

    Certa vez, fui ao mercado com minha esposa e chegamos na seção das taças e com o implante coclear fiz questão de bater levemente em cada taça e realmente cada uma fazia um som diferente, de verdade Paula, cada som é poético quando ouvimos bem.

    Reply
  • Janete
    28/07/2016 at 9:54 am

    Uma das coisas que a surdez (e posteriormente a volta da audição com o implante colclear) nos trouxe foi a sensibilidade. Ser sensível para perceber todos esses sons e ver beleza neles, neste quesito, pelo menos, podemos nos considerar muito superiores aos ditos ouvintes.

    Reply

Leave a Reply

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Marque a sua consulta na Clínica Sonora