Os impactos sociais da surdez são avaliados pela Organização Mundial da Saúde no Relatório Mundial da Audição. Nele, estão descritos inclusive os impactos econômicos da surdez para os países, e é por isso que a OMS se dedica a conscientizar os governos da importância da reabilitação auditiva – os prejuízos são da ordem de bilhões de dólares.
A surdez não tratada traz impactos sociais significativos para a vida daqueles que convivem com a perda auditiva. Tudo começa dentro de casa, com a impaciência das pessoas para repetir 5x cada frase, e termina na falta de acesso ao mercado de trabalho.
Não foram poucas as vezes em que ouvi que ‘surdez nem é um grande problema‘, e é claro que quem pronunciava a frase ouvia e não tinha noção do que estava falando. Sempre tive para mim a idéia de que tirava a minha surdez de letra, e essa visão só mudou quando voltei a ouvir depois de fazer um implante coclear.
Em inúmeras situações eu tratava de me convencer de que estava tudo bem, que a surdez não aparecia, que ela não era notada, não incomodava, que as pessoas não me tratavam diferente por causa dela, que ninguém falava coisas pelas minhas costas e uma porção de outras coisas. Só que eu estava redondamente enganada!
Também passei anos mentindo para mim mesma sobre os impactos que a surdez não tratada causava na minha vida, como se eles fossem de pouca importância. A ficha só caiu com a chegada da surdez profunda, embora hoje eu seja plenamente capaz de perceber que todos esses impactos começaram muitos anos antes disso.
Os prejuízos da surdez não tratada
Em 2022, a maioria absoluta dos casos de surdez é passível de tratamento e reabilitação auditiva. Existe um lobby muito ativo por aí que tenta convencer as pessoas de que ser surdo é uma bênção e, se você ousar tratar a sua perda auditiva, isso significa que você tem sérias questões psicológicas e não se aceita. Tenha muito cuidado com essa pressão: os lobistas não estão interessados em você, na sua indepedência, na sua educação, no seu pleno desenvolvimento ou no seu acesso ao mercado de trabalho. Eles querem apenas garantir que o governo continue soltando todas as verbas possíveis e imagináveis para a falaciosa “educação bilíngue de surdos” ou que as empresas continuem pagando caro por tecnologias de acessibilidade para surdos que ajudam apenas a ínfima minoria desta população.
Negar os impactos sociais e econômicos negativos da surdez não tratada é negar o óbvio. Você até pode – como esses lobistas fazem – negar a realidade, mas não poderá negar as consequências futuras da realidade.
OS IMPACTOS SOCIAIS DA SURDEZ NO DIA-A-DIA
Segurança pessoal
Quem não ouve ou ouve mal fica em apuros quando se trata de ouvir sons importantes como alarmes de incêndio, telefones, campainhas, interfones, alarmes de porta de garagem abrindo, ambulâncias, batidas na porta, etc.
É preciso toda uma adaptação em casa para poder ficar sozinho sem correr perigo. O impacto social da surdez aqui tem ligação com duas palavras: medo e dependência. Sentimos medo de estar sozinhos em algum lugar ou situação sem ouvir e acabamos nos tornando dependentes de outras pessoas nesse sentido. Se você não trata a sua surdez e não busca tecnologias assistivas, esse ciclo nunca se quebra.
Lazer e acesso à cultura
Conseguir encontrar o filme que você quer ver no cinema legendado é quase repeteco de ‘Missão Impossível’, já que no Brasil os dublados são dominantes. Em viagens, é raro encontrar programação legendada nos aviões e ônibus. Os hotéis insistem em atendimento telefônico para tudo. Funcionários de lojas, restaurantes, livrarias e etc não são treinados para atender clientes com deficiência auditiva – a maioria tem aquele comportamento de ‘todo surdo é mudo’. Teatros não dão a mínima para os espectadores surdos e usuários de aparelho auditivo ou implante coclear.
O impacto social da surdez no nosso lazer e acesso à cultura está intimamente ligado à falta de acessibilidade e ao desconhecimento geral da nação sobre surdez.
Dia-a-dia
No dia-a-dia, o bicho pega pra valer. Não sou capaz de listar todas as situações, mas vou tentar lembrar de algumas. Quando vamos ao mercado temos que ficar de olhos vidrados no caixa, caso a pessoa fale conosco enquanto passa as compras – já me aconteceu de pessoas da fila me cutucarem com raiva pois o caixa falava e eu nem tchuns. Quando estamos sentados esperando atendimento em repartição pública, consultório médico e odontológico, bancos, etc o método geralmente é um berro de ‘próximo’ que, na maioria das vezes, deixamos passar. Ao pegar um taxi, se o taxista quiser bater papo ou começar a falar conosco, como é que faz se não dá para ler os lábios da criatura?? E a escravidão do Telefone TDD, que nos obriga ao ‘0800 especial para deficientes auditivos e da fala‘, uma das coisas mais bizarras e inúteis já inventadas neste planeta? E a pandemia, que deixou todas as bocas do planeta cobertas, impossibilitando a leitura labial?
Toda situação da nossa vida diária pode – e vai – envolver algum perrengue causado pela falta de audição. O impacto social da surdez não tratada no nosso dia-a-dia é imensurável, nenhuma palavra seria capaz de descrevê-lo.
Trabalho e vida profissional
O trabalho é o local mais tenso de todos, na minha opinião. Precisamos provar o nosso valor e estar à altura dos colegas. As pessoas esquecem que, neste universo, tudo é comunicação, nosso ponto fraco.
Quem é que quer ser visto como incapaz ou, pior, como o funcionário que tem ‘audição seletiva‘, que ‘se faz de surdo para passar bem‘, que ‘não pode atender o telefone‘ e uma infinidade de gracinhas – para não dizer assédio moral – que somos obrigados a aguentar porque nossos colegas e chefes não têm empatia ou conhecimento sobre as dificuldades de uma pessoa com deficiência auditiva? É muito difícil.
Ouvir instruções e chamados quando não estamos prestando atenção, acompanhar conversas e discussões com várias pessoas falando ao mesmo tempo, participar de reuniões; coisas tão banais para os ouvintes mas que são infinitamente mais difíceis para nós. Isso pode levar e às vezes de fato nos leva a um esgotamento sem precedentes.
O impacto social da surdez no trabalho está ligado ao sofrimento desnecessário que passamos (na maioria das vezes tudo pode ser resolvido se o RH fizer as adaptações necessárias, providenciar a tecnologia assistiva disponível/solicitada e informar todos os funcionários sobre os detalhes da nossa condição) e principalmente ao CAPACITISIMO, que impede o acesso ao mercado de trabalho por medo e desconhecimento.
Educação
Escola e faculdade, dois lugares complicados para se estar quando você tem perda auditiva. Ambiente sem projeto acústico adequado, barulho constante, ruído incessante, professores sem treinamento para lidar com alunos com deficiência auditiva, escolas que não querem aceitar alunos com deficiência, colegas não colaborativos, coordenação despreparada e sem conhecimento sobre acessibilidade…será que preciso dizer mais?
O impacto social da surdez na educação está ligado à desistência de estar na escola/faculdade por parte de um grande número de estudantes com deficiência auditiva. E isso é muito grave. Leia sobre quanto custa a educação de surdos e a reabilitação auditiva no Brasil.
Família e amigos
Passamos a evitar estar com pessoas desconhecidas. Perdemos a vontade de participar de festas, jantares, comemorações. Descarregamos nossa frustração naqueles que convivem conosco a maior parte do tempo. Perdemos a vontade de conversar com as pessoas. Evitamos programas sociais a todo custo. Elegemos um amigo ou membro da família como nosso ‘tradutor’ oficial, colocando um enorme peso nas costas desta pessoa. Evitamos qualquer situação que nos desafie. Nos sentimos inseguros em nossa vida amorosa, achamos que as pessoas que estão conosco apesar de nossa perda auditiva estão nos fazendo um grande favor.
O impacto social da surdez não tratada na nossa vida social íntima está ligado à depressão e ao isolamento forçado, sem falar no esgotamento mental e no cansaço físico de ficar desesperadamente tentando entender o que é dito.
** esse post foi escrito em 2016 em revisado em 2022
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