Crônicas da Surdez Facebook C. Leadership Program Surdos Que Ouvem Viajante Biônica

Surdos Que Ouvem: na Califórnia com o Facebook

A experiência de liderar o projeto Surdos Que Ouvem, oportunidade única que só foi possível graças ao Facebook Community Leadership Program, tem sido de grande aprendizado. Não há um dia sequer em que eu não aprenda algo novo ou desenvolva alguma habilidade, mas quando vou aos MeetUps presenciais no quartel-general do Facebook na Califórnia, tudo fica mais intenso.

Para variar, estou numa correria danada, pois voltei no domingo e a semana começou a todo vapor. Vocês têm ideia do trabalho monumental – e invisível – que é executar esse projeto? São muitas pessoas envolvidas, e tudo passa por mim. Eu adoro, especialmente porque adoro um desafio, mas confesso que tem sido esgotante trabalhar da manhã à noite, ter tantas viagens, tantas reuniões (a maioria em inglês) e ainda dar conta da saúde, da casa, do filho pequeno, do casamento, da família, dos amigos… #socorro

Tenho 30 minutos para escrever esse post antes de correr para a próxima reunião, por isso, vou falar sobre os highlights dessa viagem para facilitar!

Treinamento de liderança

Quem ficou dois dias com os Residentes em São Francisco foi a expert Suzanne Rotondo, que cuida de clientes como Fundação Obama, Fundação Clinton, Fundação Chan Zuckerberg e por aí vai. Ela nos ensinou TANTO! Acho que minha maior lição foi a respeito de gerenciamento de equipe e de como o meu humor/personalidade influenciam em tudo o que o time faz. Abriu meus olhos!

Café da manhã com Ime Archibong

Primeira vez em que tive oportunidade de conversar com o Ime Archibong, VP de Partnerships no Facebook. Dei a ele um boneco super herói Surdos Que Ouvem (feito especialmente para ele) e comentei como é difícil ser sempre a pessoa que causa desconforto, mas acredito que é o desconforto que conduz à mudanças significativas na nossa sociedade. Desconforto, no caso, pois quando estou numa reunião peço para que as pessoas falem mais devagar (gente do mundo inteiro falando em inglês sempre em ambientes com ruído, socorro!), reclamo da falta de legendas, às vezes preciso pedir para que repitam, etc.

Encontro com Marne Levine

Quando me avisaram que uma pessoa muito importante no Facebook queria me conhecer, não dei muita bola. Era a Marne Levine, VP de Global Policy. Quando soube que teria cinco minutos com ela após sua fala de abertura do MeetUp, fiquei nervosa pensando em tudo o que gostaria de falar. Eis que, no meio do papo, a Marne me mostra as orelhas e diz: “também sou uma surda que ouve!”. Comecei a chorar ali mesmo. E os cinco minutos se tornaram quarenta! 🙂

Falamos longamente sobre os desafios da surdez, sobre como é importante que alguém num cargo de alta complexidade e visibilidade fale sobre isso, sobre a falta de acessibilidade para surdos que ouvem, sobre empatia na família, e uma série de outras questões! Para minha mais absoluta surpresa, a Marne publicou uma série de fotos nossas falando sobre como nosso encontro foi enriquecedor para ela, mostrando o Surdos Que Ouvem e falando abertamente sobre a sua perda de audição e porque demorou 30 anos para buscar reabilitação auditiva.

Ela não sabia o que era um implante coclear, mostrei os meus e expliquei. E aí veio um insight: que desafio! Se uma pessoa nessa posição não sabe sobre o IC, o que dizer das pessoas menos favorecidas, sem escolaridade, etc. É um desafio gigantesco levar essa mensagem a quem precisa ser impactado por ela. Temos que impactar surdos em busca de tratamento, mas ainda mais que isso, precisamos impactar os ouvintes!

Revendo os Residentes

A Melanie Kahl e o time do Facebook organizaram um Resident Retreat inesquecível para nós – somos 5, cada um representando um continente. De aulas de yoga até acompanhar o pôr-do-sol, de treinamento de liderança até jantares com 115 líderes de 46 países, tivemos uma série de compromissos e aprendizados que nos ajudarão demais daqui para a frente. A energia dessa turma é sensacional, e todos nós estamos enfrentando, em maior ou menor grau, os mesmos desafios. Éramos 5 pessoas sem experiência em gerenciamento de projetos desse nível, com esse aporte financeiro, com um time grande – mas sempre tivemos a energia necessária para nos dedicar às nossas causas e tentar melhorar o mundo  e a comunidade que nos cerca. Com as ferramentas e o conhecimento certos, podemos ir muito além. Que oportunidade!!!

O que significou para mim?

Um dia, um colega fellow disse em frente a todos: “Vocês entendem o número de pessoas que estamos representando aqui?“. Não consegui mais parar de pensar nisso! São 460 milhões de pessoas com deficiência auditiva hoje no mundo. Foi por isso que, na hora do encerramento do MeetUp, pedi a palavra e dei um feedback em alto e bom som a respeito da falta de acessibilidade para deficientes auditivos (não havia legendas). Estou lendo um livro incrível, chamado “Dare to Lead“, que diz que devemos ouvir o outro com a mesma paixão que queremos ser ouvidos. Ali, me senti ouvida. Depois disso, a própria Marne Levine escreveu no Instagram que não tenho medo de dar feedback – acho que liderança é isso, ter a coragem e a vulnerabilidade necessárias para pontuar o que não está bom, pois só assim podemos avançar no caminho certo.

O FCLP significa para mim uma oportunidade de vida, em todos os sentidos. Poder dar à causa da reabilitação auditiva toda a visibilidade que estamos conseguindo dar, poder ajudar a mudar a cultura de acessibilidade, poder levar informação de qualidade a quem precisa sobre surdez, poder iluminar essa jornada solitária e poder ajudar milhares de pessoas a sair do armário é algo que, quando paro pra pensar, só consigo chorar. É uma grande missão. É uma responsabilidade gigante. Mas estou fazendo o melhor que consigo, com todo o meu coração.

Por último

Não sei se já contei, mas a execução do nosso projeto foi estendida até maio de 2020, pois é de alta complexidade e demanda muito tempo para que o trabalho fique bem feito. Ainda temos 3 grandes eventos, um curso online, 20 eventos menores, toda a campanha para lançar e pôr na mídia, treinamento de liderança para a nossa comunidade… o dia precisa de 48 horas.

Obrigada a cada um de vocês que está contribuindo nessa jornada de inúmeras formas, pois isso tudo só é possível graças à nossa comunidade de Surdos Que Ouvem. Sem ela, nada disso faria sentido. Um milhão de vezes OBRIGADA!

Entre no site Surdos Que Ouvem – que acaba de ser remodelado – e conheça mais sobre o projeto e envie sua história!

Seja o primeiro a amar.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

Deixe seu comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.