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Crônicas da Surdez / Deficiência Auditiva / Surdos Que Ouvem

BULLYING E Surdez: Não Faça Piada Da Minha Deficiência

bullying e surdez

Bullying é um assunto complexo e cheio de nuances. Quando envolve surdez, ele invariavelmente carrega junto bastante falta de respeito. Quando temos uma deficiência, demoramos muito tempo até aprender o que é desrespeito, o que é ofensa, o que não é e como devemos nos posicionar em cada situação. Melhor dizendo: muitas pessoas com deficiência sequer conhecem o significado da palavra CAPACITISMO. Eu mesma só fui descobri-la em 2019…

Já ouvi muita piada na vida sobre a minha surdez, e aposto que vocês também. Quem nunca teve que ouvir coisas como “Surdo que nem Fulano (você)”, “O(a) surdinho(a)”, “Tem audição seletiva”, “Só ouve o que quer”, “Desligou o aparelho pra não ouvir isso” que atire a primeira pedra…

As microagressões do capacitismo

Capacitismo é todo tipo de preconceito e discriminação direcionado a pessoas com deficiência. Até pouco tempo, chamávamos simplesmente de bullying, por falta da uma palavra mais adequada. Capacitismo são palavras e atos: a linguagem usada para falar de PCDs e as ideias que, intencionalmente ou não, machucam e agridem as pessoas com deficiência.

As microagressões são pequenas frases e atos repetitivos, quase diários, que as PCDs vivenciam e ouvem – infelizmente, na maioria das vezes, dentro de casa. Os efeitos cumulativos dessas microagressões são os piores possíveis. Se falamos de uma criança com deficiência, por exemplo, eles têm o poder de destruir a confiança e a autoestima desde muito cedo. Embora as microagressões não pareçam uma agressão aos olhos e ouvidos das pessoas sem deficiência, elas nos machucam até mais do que agressões físicas.

Alguns exemplos de microagressões relacionados com a surdez:

  1. Esse aparelho está funcionando?
  2. Ai que saco, estou repetindo isso pela terceira vez!
  3. Só ouve quando te convém…
  4. Vive no mundo da lua
  5. Pára de gritar, todos estão olhando!
  6. Legendas estragam o filme…
  7. Não é nada, esquece.

Ter uma deficiência é algo que foge do nosso controle. Não escolhemos ter uma deficiência. Por isso, comentários depreciativos, piadas e qualquer tipo de discurso cujo objetivo – velado ou escancarado – seja o de colocar uma PCD numa posição de inferioridade devem ser trazidos à luz. Precisamos falar sobre como isso nos agride para que possamos aprender a nos posicionar quando essas situações acontecem. Isso é especialmente importante no caso de pais de crianças com deficiência: reconhecer o capacitismo, estabelecer limites e educar as pessoas próximas e nem tão próximas quando elas reproduzem discursos preconceituosos (seja em forma de ‘piada’ ou não).

As pessoas sem deficiência que não têm contato com PCDs logicamente não saberão nada sobre o tema e ainda vão reproduzir, sem consciência, comportamentos e falas capacitistas. O ponto desse post é um só: como nós podemos nos posicionar e ajudar a educar as pessoas quando nos deparamos com situações de bullying, capacitismo e microagressões? Somos os maiores interessados nessa mudança cultural.

Bullying X Surdez

Sou uma pessoa muito bem resolvida com o assunto surdez, mas é claro que tem um LIMITE. O meu é simples: se você não tem intimidade comigo, se não frequenta a minha casa e não está no meu círculo de amigos, você NÃO TEM direito de fazer QUALQUER tipo de piada sobre a minha surdez. Da mesma forma como eu não tenho direito de fazer piada com o seu cabelo, a cor da sua pele ou qualquer característica sua sobre.

Com a minha família e meus amigos próximos, meu nível de tolerância é bem alto. Se uma amiga me diz “Que inveja de você que pode desligar seus implantes se alguém ronca!” ou algo assim é claro que vou rir junto. Agora, se alguém que vi duas vezes na vida fizer comentários grosseiros ou metidos a engraçadinhos sobre minha deficiência auditiva na minha frente, essa pessoa vai gastar um tempo aprendendo sobre surdez e capacitismo comigo.

Sabe o que é pior sobre o bullying?

As pessoas fazem gracinha sobre a deficiência e na maioria das vezes acham que estão sendo super divertidas e espirituosas ao fazer isso. Não veem nenhuma maldade. Experimente, em 2022, fazer alguma gracinha sobre a cor da pele, o peso ou a orientação sexual e afetiva de alguém. Você possivelmente irá parar na delegacia. Porém, por que isso é tolerado quando é direcionado a pessoas com deficiência?

Há alguns anos alguém com quem tenho intimidade zero deu a entender que eu deveria ir a um local extremamente barulhento e chato ao qual ninguém queria ir porque ‘eu poderia desligar os meus implantes‘ em tom irônico, às gargalhadas. Na hora eu dei um sorriso amarelo por falta de alternativa (estava dentro de um elevador cheio), mas ao chegar em casa não consegui parar de pensar: “quem diabos essa pessoa pensou que era pra me dizer algo assim rindo igual a Satanás?”

Já que para gente sem noção nós precisamos desenhar a ofensa, vamos lá: dizer para alguém que não ouve para ir a um local barulhento porque não vai ouvir nada é o mesmo que mandar um cadeirante para uma fila de cem pessoas porque ele vai ficar sentado e não vai cansar. Alguém avisa…

O que a surdez ensina?

A surdez nos ensina que ou você aprende a rir de si mesmo, ou vai chorar muito. E a minha surdez me ensinou uma lição importante: EU escolho com quem quero rir a respeito das situações tragicômicas que ela me traz.

Não faça piada da minha surdez pelo simples fato de que você não sabe o que é ser surdo. Você não sabe tudo o que eu precisei passar ao longo de 41 anos para conseguir rir da minha situação. Você não sabe quantas vezes eu chorei muito sozinha após ouvir piadas e gracinhas relacionadas à deficiência auditiva. Você não sabe o quanto dói ser sempre a pessoa diferente. A pessoa que não ouve, ou que ouve mal, ou que ouve e não entende, a pessoa cujos ouvidos não são de confiança. Você nada sabe das minhas dores, dos meus traumas e das lágrimas derramadas em função da surdez.

E se você sabe algo sobre a minha trajetória, sobre a estrada percorrida para chegar num patamar de conforto emocional sendo uma pessoa com deficiência, você terá a sensibilidade necessária para não rir, mesmo que com boa intenção, da minha deficiência. Nenhum aspecto dela é divertido para mim. Ela só me impõe desafios diários, constantes e desagradáveis. Guarde as suas gargalhadas para si mesmo.

Nós levamos longos anos até começar a praticar a autoadvocacia, que é importantíssima. Depois que ela se torna uma parte da nossa vida, é impossível deixar de praticá-la.

Um pedido encarecido

Não faça piada da minha surdez, porque não tem graça nenhuma. Obrigada! 🙂

CLUBE DOS SURDOS QUE OUVEM

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About Author

Paula Pfeifer é uma surda que ouve com dois implantes cocleares. Ela é autora dos livros Crônicas da Surdez, Novas Crônicas da Surdez e Saia do Armário da Surdez e lidera a maior comunidade digital do Brasil de pessoas com perda auditiva que são usuárias de próteses auditivas.

11 Comments

  • Juarez Oliveira
    12/05/2020 at 9:51 pm

    Olá Paula, olá todos, todas que compartilham de alguma deficiência.
    Eu sou formado em engenharia mecânica e tenho perda auditiva severa nos dois ouvidos, uso aparelhos.
    Essa questão é sempre percebida em todos ambientes. No profissionalismo também não fica de fora, tenho colegas de trabalho que são muito sérios nesse quesito, porém encontro outros que não perdem a oportunidade de fazerem piadinhas. O caminho que encontrei foi ignorar esse tipo de pessoas, simplesmente, não valem a pena.
    Abraço a todos.
    Juarez Oliveira

    Reply
  • Floraci Pinto Silva
    20/02/2018 at 8:39 pm

    Paula, é confortante o compartilhamento de suas experiências. Me fixei um pouco na parte do texto em que você relata que, ou a pessoa aprende a sorrir da própria surdez ou vai chorar muito, é verdade que a pessoa que ri das suas falhas é um dos sinais de saúde mental. Como eu sou um tanto retraída meu círculo de amizades atualmente se limita a minha família, e essa nunca ri da minha surdez. Quando eu mudei de endereço ficaram as minhas muitas amigas, eu ainda não sofria de deficiência auditiva. Agora eu vejo que não devo ver minha surdez como algo a lamentar, que devo valorizar menos esse meu problema e aprender a rir dele.

    Reply
  • Valéria Costa
    21/02/2017 at 8:42 pm

    Excelente!Me descreveu!

    Reply
  • Zenaide de Faveri Vicente
    21/02/2017 at 7:06 pm

    Me dá licença. Paula, mas este post não posso deixar de compartilhar!!!

    Reply
  • Zenaide de Faveri Vicente
    21/02/2017 at 7:04 pm

    Me dá licença, Paula, mas este post , tenho que compartilhar!!!

    Reply
  • renata
    21/02/2017 at 12:37 pm

    Perdi as contas de quantas pessoas risquei da minha agenda por brincadeiras sem graça. A pessoa nem imagina porque foi riscada. Não precisa. É só nao me dirigir mais a palavra.

    Reply
    • Uma coisa que também pode deixar uma pessoa com deficiência com vontade de ”riscar da agenda” certos contatos não é só a falta de respeito (por brincadeiras sem graça), mas também a falta de empatia e compreensão demonstrados por OUTRA pessoa com deficiência… Tipo, uma pessoa X com deficiência começa a se relacionar com uma pessoa Y, com a mesma deficiência (não importa se é no mesmo grau ou em grau diferente) e aí começa a se comparar com a outra, julgar a outra, cobrar certas posturas da outra… como se não houvesse diversidade entre as pessoas com deficiência – seja pela história de vida, seja pelas oportunidades que a vida deu ou deixou de dar, seja pela estrutura familiar e/ou emocional da pessoa, seja inclusive pela época da vida em que a deficiência se manifestou no indivíduo, seja se o grau da deficiência é estável desde o aparecimento ou se teve variações ao longo da vida da pessoa… Cada pessoa com deficiência, ainda que da mesma categoria, é única – tanto fisicamente quanto psicologicamente… e cada organismo, inclusive, reage de uma maneira aos tratamentos e reabilitações…

      Enfim, minha dica a todos os internautas que estiverem lendo este comentário é esta: não rolou empatia? Não rolou respeito? Tá rolando mais ”cobrança” de uma das partes envolvidas no relacionamento interpessoal do que uma interação saudável e construtiva? Então, que ”vaze” da vida da outra pessoa, hehehe!!! Afinal, o mundo tem bilhões de pessoas… e se uma ou duas não deram certo, tem centenas aí ”esperando” por vocês!!! =D

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  • Sopa de Numeros na Educacao Inclusiva
    21/02/2017 at 12:07 am

    Show de bola! Ja curti e compartilhei no facebook!!! 🙂

    Conforme disse la no Face, eh claro que cada caso eh um caso. TEM GENTE que leva a propria deficiencia na “esportiva” (seja surdez, deficiencia visual ou qualquer outra) e faz piadas da propria condicao, mostrando de forma bem humorada aos amigos, colegas, e ate mesmo para desconhecidos em uma plateia, que sua condicao nao eh um bicho de sete cabecas mas, sim, uma caracteristica fisica… e, assim sendo, de forma saudavel e divertida, os amigos tambem brincam com a pessoa em relacao a isso. MAAAAAS POR OUTRO LADO, existem pessoas mais serias, ou mais sensiveis e emotivas, ou que ja tem um historico “sofrido” em relacao a sua deficiencia, e que por essas e outras razoes particulares nao gostam de brincadeiras sobre sua limitacao -e que o melhor a fazer por elas eh ter compreensao, acolhimento, carinho.
    RESUMINDO:As pessoas sao diferentes e eh importante saber como lidar com cada uma delas. No entanto, algo que deve ser feito com TODAS as pessoas, independente de serem brincalhonas ou nao, eh o RESPEITO. Este vale pra todo mundo… ate mesmo para quem nao tem nenhuma necessidade especial e nem pertenca a alguma minoria, hehe! 🙂

    Parabens pelo texto, Paula!!!

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  • Antônia Carvalho
    20/02/2017 at 11:02 pm

    Perfeito! Vc disse coisas que eu sinto e não tinha ainda me dado conta!
    Posso compartilhar no Face, Paula!?

    Reply
  • sandra serafim de sousa
    20/02/2017 at 10:29 pm

    Como mãe de uma criança surda, relatos como esses doe na alma, meu filho implantou a dois anos, está na fase do desenvolvimento fala, e ouvir ” mudinho”, “parece um bebê falando”. Mas a pior frase quem ouviu foi meu marido ” Você deve ter pecado muito pra Deus te castigar com um filho surdo”. Castigo pelo contrário ele é uma ?ádiva de Deus.
    Temos realmente nos impor, brincadeiras, opiniões, devem ser guardadas pra si, nesse caso o silêncio vale ouro.

    Reply
  • ROSANE Resende
    20/02/2017 at 8:57 pm

    Como sempre Paula arrasou nos post! Há pouco tempo vivenciei uma situação que não consegui engolir até hoje. Esse tempo tem três anos. Uma Irma minha faleceu e eu quiz comprar a parte dela de um imóvel. Tudo acertado entre os filhos, um casal. Na hora de assinar os documentos, uma sobrinha pelo qual sempre estimei muito falou no telefone assim: a surda já chegou. Realmente não ouvi, mas LI NA BOCA DELA. Ela falava e ficava muito sem graça n telefone. Hoje não consigo nem olhar nela, sequer ouvir a voz. É muito difícil superar certos traumas. E Elis Regina deixou esse recado perfeito, certo? Paula, continue arrasando. Bjs.

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