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Sou surda e amo viajar num grau que é até difícil colocar em palavras. Cada viagem para fora do país me traz sentimentos e descobertas diferentes, e acho que isso está um pouco ligado à sensações do passado que ficaram gravadas em mim. Explico. Até 2013, ao mesmo tempo em que amava viajar, também me sentia muito ansiosa antes e durante uma viagem em função das situações complicadas que precisava enfrentar por causa da deficiência auditiva. Hoje, fico ansiosa esperando entender as coisas, as pessoas e sabendo que vou me virar bem em qualquer situação.

Fui a NY de 29/11 a 5/12 e levei comigo um caderninho para anotar o que fosse acontecendo que estivesse relacionado à audição. Assim que cheguei ao Aeroporto do Galeão, me sentei numa chaise longue e fiquei ouvindo e entendendo os anúncios dos alto-falantes! A acústica da parte nova desse aeroporto está muito, muito boa!

No vôo, descobri um jeito novo de usar o MiniMic. Muito legal! Mas só o cabo de áudio me salva em vôos longos – ele não detona as pilhas/baterias dos implantes e não me deixa na mão quando acaba a sua bateria porque ele não tem bateria, rá! Adoro! Inclusive também usei do seguinte modo: IC direito conectado no MiniMic e MiniMic na lapela do Luciano, que estava no banco ao lado porém virado de frente pra mim, e cabo de áudio no IC esquerdo, ouvindo um filme espanhol sem legendas , e entendendo. Se o cérebro não pifou dessa vez, não pifa mais…

Luciano foi ao banheiro, que era mais lá na frente, e ficou falando gracinhas no MiniMic – achou que o sinal ia cair ao entrar no banheiro e seguiu falando. Quando voltou, repeti tudo o que ele disse e comecei a rir e ele: “Você estava me ouvindo????” Heehehehe!

Meu cérebro entende melhor e mais rápido filmes em espanhol sem legendas – como explicar isso se a minha exposição ao espanhol falado foi tão pouca se comparada ao inglês? Confesso que não entendo, até porque eles falam muito mais rápido.

Me meti a assistir o filme Absolutely Fabulous (daquele seriado britânico antigo com duas amigas alcóolatras muito doidas), áudio em português e legendas em inglês com cabo de áudio + MiniMic do outro lado.  Meu  cérebro ficou tipo MANDA MAISSSSS. Fiquei impressionada com a rapidez com que ele se acostumou e gostou dessa situação auditiva inédita. O cérebro humano não conhece limites, por isso quem tem deficiência auditiva não deve parar nunca de estimulá-lo das mais diferentes maneiras.

O vôo foi noturno, pela manhã, assim que abri o olho o comissário começou a falar comigo. Soltei um: “I’m sorry sir, I need to wear my hearing aids first!“, e ele disse “No problem!”.  Liguei os implantes e, mais tarde, ele voltou para me perguntar se eu tinha gostado do omelete e tive um momento Velha da Praça da Alegria, pois ouvi errado, entendi que ele tinha perguntado se eu queria leite. Espero que tenha sido o sono e a pá virada de ouvir/entender em três línguas (português, inglês e espanhol).

Meu marido está numa fase nova no que diz respeito à minha audição biônica. Agora, ele me força a me virar! Acho isso ótimo, pois inúmeras vezes já me fiz de louca e deixei que ele respondesse ou perguntasse as coisas por mim quando viajamos juntos. Dessa vez senti que ele me jogou pros tubarões! E isso é ótimo, porque me obriga a dar conta do recado. Obrigada, my love!

Ao chegar na imigração americana, fomos separados, Lu foi pra fila responder perguntas (ele adora dizer que eu serei barrada, hahaha) e passei direto. Só que eu estava no esquema MiniMic no IC direito ligado na lapela dele + IC esquerdo pegando o ambiente. Resultado: nos afastamos demais, o sinal caiu, fiquei só com o IC esquerdo que é mais baixo e a oficial chinesa que viu meu passaporte levou uns três HÃN da minha parte. Acontece…

Nessa viagem, aprendi a relaxar quando não entendo algo de primeira. Perfeição não existe quando falamos de deficiência auditiva, seja ela do grau que for, e não adianta se estressar com isso. Houve uma situação na qual fui sozinha a um café e pedi um capuccino, o atendente me perguntou algo muito rápido e pedi pra repetir. Foi então que lembrei de mim em Londres, em 2006, sozinha, sem usar aparelhos auditivos por teimosia, num McDonalds. O funcionário precisou fazer mímima para que eu entendesse a frase “Eat in or take away?” e eu saí da loja me sentindo um lixo por não ter ouvido e entendido – por um lado foi bom porque aquele foi um turning point pra levar a sério a minha necessidade de usar AASI’s. Ainda bem que a gente cresce e amadurece!

Ainda me surpreendo por estar caminhando na rua e ouvir/entender conversas ou pequenas frases isoladas das pessoas em inglês. Para quem achava, aos 31 anos, que jamais voltaria a ouvir uma frase em inglês na vida, é tipo ganhar na Mega Sena acumulada de Reveillon! 🙂

Relembrar é viver: leiam este post de 2011 sobre minhas experiências de viagem naquela época.

Sobre

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 38 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

4 Comentários

  • Simone
    18/12/2016 at 1:16 pm

    Paula, como estão AGORA os aeroportos brasileiros em relação aos cidadãos brasileiros surdos?

    Responder
  • MILENA LIRA FREIRE
    13/12/2016 at 2:46 pm

    Olá Paula, com certeza irei usar isso com meus pacientes. Infelizmente, ainda temos alguns bem resistentes ao uso, mas não irei desistir. Feliz demais por esse seu relato que precisa ser amplamente divulgado.

    Responder
  • Gabriela Coriolano
    11/12/2016 at 10:46 pm

    Paula, com este seu post você me incentivou a investir mais no treinamento. Muito obrigada!

    Responder

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