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Como foi o primeiro encontro de leitores do Crônicas da Surdez no Rio de Janeiro

Desde que me mudei para o Rio de Janeiro sentia vontade de fazer um evento com os leitores do site. Só que na correria do dia-a-dia acabei deixando a idéia de lado – especialmente porque 2015 foi bem cruel, para quem não sabe minha mãe passou 5 meses no hospital e passei o ano indo e vindo do sul. Em janeiro, com as coisas mais calmas, decidi que era hora de marcar uma data e deixar de enrolação. E foi assim que dia 5 de março, último sábado, reunimos uma turma de gente linda, elegante e sincera no auditório do prédio no qual fica a Sonora. As fotos são de Mabel Barreto.

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Quase cheguei atrasada, e assim que pus os pés lá já percebi muitos rostos conhecidos. Rapidinho o auditório estava lotado. Quando vi todas aquelas pessoas sentadas esperando começar só conseguia pensar “uau, que coisa mais linda!” Seis anos após começar a escrever o Crônicas da Surdez eu sigo me emocionando com a corrente do bem que ele criou. Em pleno sábado de sol na Cidade Maravilhosa dezenas de deficientes auditivos, pais, familiares, fonoaudiólogas e amigos se reuniram para compartilhar. Aliás, para mim, COMPARTILHAR é a palavra mais poderosa que existe. Cada um de nós tem uma história de vida e vivenciou sentimentos muito únicos, e dividir nossas vivências com os outros cria um caminho de luz para eles do mesmo modo que um dia alguém criou um caminho de luz para nós. Ninguém chega à reabilitação auditiva sozinho, são muitas pessoas envolvidas neste processo e outras tantas que cruzam nosso caminho.

Fiz uma abertura bem rápida e convidei cada um dos presentes a se apresentar a contar um pouquinho de si. Já na primeira pessoa as lágrimas começaram a rolar e ali ganhei o meu primeiro abraço. Ah, se vocês soubessem o que esses abraços e essas lágrimas me causam…sinto uma mistura de dever cumprido com propósito de vida, e uma vontade louca de continuar a ajudar quantas pessoas eu conseguir até o fim dos meus dias. Nós estamos todos separados geograficamente e também em função de nossas rotinas/trabalho/família, mas compartilhamos sentimentos e emoções que só quem não escuta entende. É por isso que acho esses eventos tão importantes! Meu sonho é ter um grupo de apoio a deficientes auditivos e familiares que se encontre uma vez por mês.

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Esses dois me colocaram pra pensar com suas apresentações… Primeiro, a Juliana, leitora das antigas que hoje é uma grande amiga e fez implante coclear na Sonora. A Ju falou de sentimentos sobre os quais eu nunca tinha pensado, falou sobre como é difícil segurar a ansiedade ouvindo relatos de sucesso com o implante coclear enquanto aguarda a ativação do seu. Ouvindo ela falar fiz um teletransporte para 11 de novembro de 2013, aquele dia fatídico no qual tudo mudou para mim. Parece que à medida em que o tempo passa os sentimentos vão assentando no meu coração, mas quando estou com alguém que está prestes a passar por tudo o que eu passei, eles voltam à tona com força. Como é difícil segurar o choro nessas horas.

Segundo, o meu digníssimo Luciano Moreira, que disse que não achou que fosse viver para estar num auditório lotado de surdos falando abertamente sobre a surdez e em busca de reabilitação auditiva. Ele começou falando que, há 20 anos atrás, quando iniciou a carreira na otorrinolaringologia, você jamais veria pessoas com deficiência auditiva fazendo isso que estávamos fazendo – os DA queriam se esconder, não queriam se mostrar e muito menos falar sobre surdez.

Vocês percebem o quão disruptiva é a nossa atitude? Não apenas conosco, mas com o mundo. Essa atitude de ‘sair do armário’, ajudar o próximo, compartilhar e estar aberto a falar para quem quer que seja com naturalidade sobre a deficiência auditiva está mudando completamente o modo como os ouvintes encaram a surdez. Toda vez que você usa seus aparelhos ou implantes com orgulho e sem se preocupar em escondê-los, você está inspirando alguém a se libertar e a fazer exatamente o mesmo. Eu fico arrepiada com isso!

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Duas mamães maravilhosas das quais sou muito fã (Mariana Candal e Bárbara Vieira) contaram sobre a experiência de ser mãe de um bebê com surdez profunda e optar pelo implante coclear. Às vezes penso que se a surdez já é difícil para nós, imagine para as mães que querem proteger seus pimpolhos de tudo e se vêem com um bebezinho que não escuta nas mãos. Fico pensando que na minha época um bebê que nascesse com surdez profunda tinha somente a opção de continuar no silêncio, aprender língua de sinais e/ou partir para a oralização. Hoje nós chegamos num estágio de avanço tecnológico tão monstruoso que podemos dar a um bebê surdo profundo a chance de ouvir e de se desenvolver como um bebê ouvinte. Não há palavras que possam expressar o poder e a beleza do que a tecnologia nos permite ser e fazer.

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No final do nosso encontro sorteei 8 kits enviados pela L’Oreal e L’Oreal Cosmética Ativa (obrigada Monique e Manuela pela força!!). Tive dois periquitos ajudantes muito fofos que sortearam os nossos oito vencedores. Na foto acima, uma das vencedoras, a fonoaudióloga Norma Fidalgo – Norma, obrigada por toooooda a força e ajuda na organização do evento, não sei o que teria sido sem você!

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Ah, os amigos!! Vanessa e sua mamis, que me deram um buquê de rosas brancas lindíssimo, Maíra, José Ismar e Clarissa, que sempre prestigiam tudo o que eu faço aqui no Rio (obrigada, obrigada, obrigada). A Clarissa é bilíngue e foi com a sua intérprete de Libras para o encontro, e foi bacana pois outros surdos sinalizados que estavam presentes puderam acompanhar a intérprete e ter acessibilidade, e quando eles contaram suas histórias de vida nós pudemos acompanhar tudo com a tradução dela. Aliás, falando em acessibilidade, no próximo encontro, além de intérprete de Libras, precisaremos de microfone, boas caixas de som e um telão no qual tenhamos closed caption ao vivo. Fiquei super triste quando percebi que uma senhora foi embora pois não estava entendendo o que era dito. Na verdade é um tremendo desafio fazer um evento no qual todos os surdos aparelhados, implantados e sinalizados consigam acompanhar as palestras sem dificuldade. Mas nós chegaremos lá!! <3

31 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

3 Comentários

  • Também amei o encontro!!!! Tentei realizar encontros em Rio Bonito, com pessoas em condições parecidas, infelizmente não se interessaram.
    Se eventualmente vc conseguir realizar esses encontros… estarei lá se Deus quiser. Bjs

  • Este evento foi incrível! A gente já se emociona lendo os relatos aqui no blog… e mais ainda ouvindo presencialmente cada um contando sua trajetória, com os olhinhos brilhando… e outros suspirando esperança.
    Foi muito difícil estar ali na frente, foi difícil de organizar o pensamento para tentar passar para a plateia minha história pessoal, porque estava no meio de pessoas relatando o quanto o implante coclear trouxe benefícios (aumentando mais ainda a minha ansiedade pré-ativação).
    Foi muito bacana tirar falar um pouco da minha cirurgia e recuperação para outros candidatos, fiquei super feliz quando por ter ouvido várias pessoas me dizendo que ficaram mais seguras comigo ali, que a cirurgia não parecia um bicho de sete cabeças.
    Paula, muito obrigada por fazer parte da minha história, é muito bom dividir cada detalhes com você! Obrigada pelo apoio, carinho e amizade!!

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