Aparelhos Auditivos Destaques

Água X Aparelho Auditivo

Qual a diferença entre aparelhos auditivos ‘resistentes’ e ‘à prova d’água’? Após o post sobre o Aquaris, convidei a fonoaudióloga Mirella Horiuti, do Não Escuto, minha amiga e que cuidou dos meus AASI’s por um bom tempo, para falar mais detalhadamente sobre este assunto. Leiam com atenção!

É fato que suor e umidade sempre foram obstáculos na vida de quem usa aparelho auditivo. Por outro lado, os fabricantes desde 1900 e bolinha estão atrás de alguma solução realmente definitiva! Bom, para começar a falar disso vou voltar um pouco no tempo, sempre lembrando que estamos falando de aparelhos auditivos retroauriculares (aqueles que ficam atrás da orelha).

Primeiro surgiram no mercado aparelhos auditivos com uma película de vedação na parte das caixas. Tudo ótimo… o problema era quando o aparelho precisava ir para a assistência técnica e perdia a vedação original de fábrica. O tempo passou e surgiu o “Nanocoating” que era um tratamento especial nas caixas dos aparelhos que diminuía a permeabilidade de água e óleos. Com isso, a proteção contra umidade e suor melhorou muito. Nessa época trabalhava na fábrica da Siemens em São Paulo e pude ver com meus próprios olhos o número de reparos diminuir cerca de 40%. Muitos aparelhos possuem isso até hoje. Na linha da Siemens/Signia, a maioria já vem com isso de fábrica.

Então, em 2011, começaram a surgir aparelhos à prova d’água e resistentes à água. Antes de falar quem tem o que, vamos para os conceitos.

Todo aparelho auditivo que se diz à prova ou resistente à água DEVE ter uma certificação IPR ou código IP , segundo as normas da IEC ou EN60529. Mas o que é isso? IPR significa INGRESS PROTECTION RATING , que em português podemos traduzir como ÍNDICE DE PROTEÇÃO ou mais ao pé da letra como ÍNDICE DE PROTEÇÃO DE ENTRADA.

Ele classifica o grau de proteção oferecido por um produto contra algo. Esse algo pode ser pó, contato acidental, água e descarga elétrica. O número IP é composto por 2 números: IP XX.

Indicação IP Proteção contra partículas sólidas Proteção contra líquidos
IP Número entre : 0–6 Número entre: 0–9

 

PRIMEIRO NÚMERO  – Proteção contra partículas sólidas

Grau Efetivo contra Descrição
0 Sem proteção de contato ou entrada de objetos
1 >50 mm Qualquer superfície larga do corpo, como  palma da mão , mas sem proteção  no contato direto com  parte do corpo
2 >12.5 mm Dedos ou objetos similares
3 >2.5 mm Ferramentas, fio grosso, etc.
4 >1 mm Fios em geral, parafusos pequenos, etc.
5 Proteção contra pó Entrada de pó parcial permitida mas não pode haver quantidade suficiente para interferir  no funcionamento do produto
6 Proteção efetiva contra pó Sem entrada de pó. Proteção total. O teste deve durar  8 horas

 

SEGUNDO NÚMERO  – Proteção contra líquidos (água)

Grau Proteção contra Efetivo contra Detalhes
0 Nada
1 Gotejamento de água Gotejamento vertical – não pode danificar o produto Duração do teste: 10 minutos
Quantidade de água equivalente a 1 mm de chuva por minuto
2 Gotejamento de água inclinada a 15° Gotejamento vertical e inclinado a 15° – não pode danificar o produto. São 4 posições testadas em dois eixos Duração do teste: 2.5 minutos em cada direção (10 minutos no total)
Quantidade de água equivalente a 3 mm de chuva por minuto
3 Pulverização de água Pulverização de água em qualquer ângulo até  60° do eixo vertical  – não pode danificar o produto

 

 

Duração do teste: 1 minuto por m2 por 5 minutos

 

Volume de água: 10 litros por minuto

Pressão: 50–150 kPa

4 Borrifamento de água Borrifamento de água – não pode danificar o produto Duração do teste: 10 minutos

 

5 Jatos de água Jatos de água saindo de um bocal de 6.3 mm em qualquer direção- não pode danificar o produto

 

Duração do teste: 1 minuto por m2 por 3 minutos

 

Volume de água: 12.5 litros por minuto

 

Pressão: 30 kPa a 3 m

6 Jatos fortes de água Jatos fortes de água saindo de um bocal de 12.5 mm em qualquer direção- não pode danificar o produto Duração do teste: 1 minuto por m2 por 3 minutos

 

Volume de água: 100 litros por minuto

 

Pressão: 100 kPa a 3 m

 

6K Jatos fortes de água com pressão Jatos fortes de água com pressão saindo de um bocal de 6.3 mm em qualquer direção – não pode danificar o produto Duração do teste:  3 minutos

 

Volume de água: 75 litros por minuto

 

Pressão: 1000 kPa a 3 m

 

7 Imersão até 1 metro Imersão até 1 metro sem entrada de água Duração do teste:  30 minutos

 

8 Imersão de 1 metro ou mais Imersão de 1 metro ou mais de forma contínua – não pode danificar o produto

 

Duração do teste:  definido pelo fabricante

Profundidade: em geral até 3m

9K Jatos fortes de água em alta temperatura Jatos fortes de água em alta temperatura –  não pode danificar o produto Duração do teste: 30 segundos em  4 ângulos diferentes ( 2 minutos no total)

Volume de água : 14–16 litros por minute

Pressão: 8–10 MPa (80–100 bar) a  0.10–0.15 m
Temperatura da água:  80 °C

 

E o que temos disponível no mercado?

  • Resistentes à água:  IP67  (como o Iphone 7 e alguns aparelhos auditivos do mercado)
  • À prova d’ água: IP68 (como o Aquaris da Siemens)

Não há dúvida que essas proteções contra pó (IP5x ou IP6x) e água ( IPx7 eIPx8) foram um grande avanço. Mas não podemos esquecer o seguinte:

  • Esses testes foram feitos em laboratórios em condições controladas.
  • Eles não representam o dia-a- dia do usuário em 100%.
  • Os testes não consideram o uso repetido durante anos
  • Não há nenhum aparelho auditivo certificado (por enquanto) que considere o efeito da água salgada e suor.

Quando escolho um resistente ou à prova de água?

Se o paciente sua muito (daqueles que ficam com o cabelinho perto do pescoço sempre molhado) mesmo sem ter uma vida ativa em relação aos esportes, não pestanejo. Sempre indico um aparelho no mínimo resistente à água. Agora, se o paciente quer nadar com aparelho auditivo sem preocupação ou vive num local muito úmido (tipo Manaus) ou já tem algum histórico de suor estragar o aparelho auditivo, tem que ser à prova d´água. Ainda acredito que os aparelhos auditivos devem melhorar muito. Continuo sonhando com o dia no qual os aparelhos auditivos customizados (intras e microcanais) tenham algum tipo de proteção total contra umidade e cera líquida!  🙂

18 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

4 Comentários

  • Na minha vida suo muito, ao ponto de pingar para o chão e o aparelho parar de funcionar! Além disso faço frequentemente atividade física em ambiente muito húmido (espeleologia, por vezes com cursos de água subterrâneos, onde é possível cair).
    Contatei há pouco a casa onde sempre comprei os meus aparelhos, desde há mais de 40 anos e que também representam a Siemens, pedindo informação sobre o Aquaris.
    Qual não foi a minha desilusão, quando me disseram que o seu fabrico foi descontinuado e já não há aparelhos à prova de água no mercado!
    Que desilusão!

  • Adorei essa matéria! Já tive um AASI que durou menos de um ano, morava em lugar quente demais e eu transpiro muito, até hoje. Quando levei ao técnico, me assustei, estava tudo corroído. Só não me recordo a marca dele.

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