Zumbido no ouvido

O ZUMBIDO pode ser Emocional?

Sim, a sua percepção do zumbido pode ser afetada pelo seu estado emocional. Estresse, ansiedade, noites mal dormidas e atenção constante ao som podem aumentar a percepção e o incômodo do zumbido. Isso não significa que o barulho seja imaginário nem prova que sua origem seja exclusivamente emocional, muito pelo contrário. O zumbido é um sintoma real, frequentemente associado à perda auditiva (90% dos casos de zumbido são sintoma de uma perda auditiva segundo a OMS), mas também a outras condições. O caminho mais seguro é investigar o ouvido e a audição e cuidar da sua resposta emocional ao sintoma.

Eu sou Paula Pfeifer e convivo com zumbido nos dois ouvidos desde os seis anos de idade. Sei o que é ter um som que não pede licença para entrar e também sei como é tentador procurar uma explicação única: “É ansiedade”, “é o ouvido”, “é a minha cabeça”. Quem dera o corpo humano fosse tão obediente às nossas ideias, não?

Você já ouviu alguém dizer que o seu zumbido é emocional? Ou que aquele apito insuportável no ouvido é causado pelo estresse, pela ansiedade ou por algum problema psicológico que você ainda não resolveu? Talvez você tenha procurado um médico por causa do zumbido e saído da consulta com uma recomendação para relaxar, dormir melhor e tentar controlar a ansiedade.

Mas será que o zumbido pode ser realmente emocional? Será que o estresse pode provocar zumbido no ouvido? E, principalmente, será que tratar a ansiedade faz o zumbido desaparecer? A resposta é mais complexa do que parece. E começa com uma informação fundamental: o zumbido é um sintoma real, e não uma invenção da sua cabeça.

O que é o zumbido no ouvido?

O zumbido, também chamado de tinnitus, é a percepção de um som sem que exista uma fonte sonora externa correspondente, ou seja, um som fantasma. Algumas pessoas escutam um apito agudo. Outras percebem chiados, sons de eletricidade, cigarras, motores, assobios ou até uma espécie de panela de pressão funcionando dentro da cabeça. O zumbido pode ser contínuo ou intermitente, aparecer em apenas um ouvido ou nos dois e variar bastante de intensidade.

O que muita gente ainda não sabe é que o zumbido está frequentemente associado à perda auditiva (90% dos casos), inclusive quando a pessoa acredita que ouve normalmente, embora não tenha feito um exame recente de audiometria…

Isso acontece porque nem toda perda auditiva é facilmente percebida no cotidiano. Uma pessoa pode conseguir conversar relativamente bem e, mesmo assim, apresentar alterações auditivas que precisam ser investigadas. Quando o sistema auditivo deixa de enviar determinadas informações sonoras ao cérebro, ocorrem mudanças na atividade das vias auditivas. Essas alterações estão entre os mecanismos envolvidos na percepção do zumbido. É por isso que investigar a audição é uma etapa fundamental para compreender o problema, o passo número 1 de toda investigação de zumbido, que SEMPRE deve começar por uma consulta com um médico otorrino especialista em surdez.

Afinal, o zumbido pode ser emocional?

Fatores emocionais podem desencadear, intensificar ou tornar o zumbido muito mais incômodo. Mas isso não significa que o zumbido tenha origem emocional.

Existe uma diferença gigantesca entre a causa do zumbido e os fatores que aumentam o sofrimento provocado por ele. O estresse, a ansiedade, a depressão, o uso de medicamentos psiquiátricos e a privação de sono podem influenciar a forma como o cérebro percebe e reage ao zumbido.

Imagine duas pessoas que percebem um zumbido semelhante. Uma consegue seguir sua rotina e praticamente não presta atenção naquele som. A outra passa o dia inteiro monitorando o barulho, preocupada com a possibilidade de ele aumentar ou nunca desaparecer, pensando sem parar sobre o assunto. O som percebido pode ser parecido, mas o sofrimento é completamente diferente. Isso acontece porque o cérebro não funciona como um simples microfone que registra sons. Ele também interpreta, seleciona e atribui importância ao que ouvimos.

O zumbido envolve o sistema auditivo, mas a maneira como reagimos a ele também envolve nossas emoções, nossa atenção e nossos mecanismos de alerta.

Por que a ansiedade piora a percepção do zumbido?

Quem convive com zumbido conhece bem essa situação: basta atravessar um período de estresse intenso para ter a impressão de que o barulho aumentou. Em algumas pessoas, essa percepção realmente se intensifica. Em outras, o zumbido pode permanecer relativamente estável, mas passa a ocupar muito mais espaço na atenção.

Quando estamos ansiosos, nosso cérebro tende a ficar mais vigilante a possíveis ameaças. Se o zumbido é interpretado como algo perigoso, intolerável ou incontrolável, ele pode se transformar no centro das atenções. E aí começa um ciclo bastante conhecido:

Você percebe o zumbido ? fica ansioso ? presta mais atenção no zumbido ? sente mais incômodo ? fica ainda mais ansioso.

Quanto mais você monitora o som, mais difícil pode ser ignorá-lo. Isso ajuda a explicar por que algumas pessoas relatam que o zumbido parece piorar justamente quando tentam descobrir se ele continua ali. O problema não é falta de força de vontade. O cérebro pode aprender a associar aquele som a uma ameaça, mantendo um estado de alerta que dificulta a habituação.

Estresse pode causar zumbido do nada?

O estresse intenso pode estar associado ao aparecimento do zumbido em algumas pessoas. A Organização Mundial da Saúde reconhece o estresse e os traumas emocionais entre os fatores relevantes associados ao sintoma.

Entretanto, isso não significa que seja possível atribuir automaticamente um zumbido recente a uma crise emocional.

Imagine alguém que passou por um divórcio, uma demissão, uma situação familiar complicada ou meses de ansiedade intensa e começou a perceber um apito no ouvido. É muito fácil concluir que o zumbido apareceu por causa do sofrimento emocional. Mas existe uma pergunta que precisa ser respondida antes: Como está a audição dessa pessoa?

O surgimento do zumbido durante um período emocionalmente difícil não exclui a possibilidade de perda auditiva, exposição excessiva a ruídos, alterações no ouvido ou outras condições clínicas. Coincidência não é diagnóstico, por isso, ninguém deveria receber a explicação de que seu zumbido é apenas emocional sem uma investigação adequada que SEMPRE começa por um médico otorrino especialista em surdez.

O maior erro: tratar o zumbido como um problema exclusivamente psicológico

Existe uma diferença entre dizer que o estado emocional influencia o zumbido e afirmar que o zumbido é causado exclusivamente pelas emoções. A primeira afirmação tem fundamento científico. A segunda pode levar a conclusões equivocadas e atrasar diagnósticos importantes.

Se alguém apresenta zumbido associado à perda auditiva, por exemplo, controlar a ansiedade pode melhorar muito sua qualidade de vida, mas não substitui a avaliação e o tratamento da surdez. A pessoa pode fazer terapia, meditação, exercícios de respiração e aprender técnicas de relaxamento. Tudo isso pode ser útil. Mas, se existe uma perda auditiva que não foi identificada, uma parte importante do problema continuará sem investigação.

Cuidar da saúde emocional não significa abandonar o cuidado com a saúde auditiva. As duas coisas podem e muitas vezes devem caminhar juntas.

Qual é a relação entre zumbido, perda auditiva e cérebro?

Uma das informações mais importantes sobre o zumbido é que ele não depende apenas do ouvido. O processamento auditivo acontece no cérebro. Quando existe uma redução das informações sonoras que chegam pelas vias auditivas, o sistema nervoso pode passar por alterações em sua atividade.

Essas alterações ajudam a explicar por que o zumbido é tão frequentemente associado à perda auditiva. Pense no seguinte: se o cérebro recebe menos informações dos sons externos, o zumbido pode acabar se destacando mais na percepção.

Em pessoas com perda auditiva, o uso de aparelhos auditivos adequadamente indicados pode ajudar a melhorar a comunicação e, em alguns casos, diminuir a percepção ou o incômodo causado pelo zumbido. Isso não significa que aparelhos auditivos sejam uma cura para o zumbido. LEMBRE: 90% dos casos de zumbido são SINTOMA de surdez neurosensorial, e ela não tem cura.

Da mesma forma, o implante coclear pode reduzir a percepção do zumbido em determinados pacientes com perda auditiva que possuem indicação para essa tecnologia, embora o resultado também não seja garantido ou previsível para ninguém. O ponto central é que não podemos falar seriamente sobre zumbido sem falar sobre audição.

A terapia psicológica pode ajudar quem tem zumbido?

Sim. E muito!

A terapia cognitivo-comportamental, conhecida pela sigla TCC, é uma das abordagens psicológicas mais estudadas para pessoas que sofrem com zumbido persistente. Ela ajuda a identificar pensamentos, comportamentos e reações emocionais que contribuem para manter o sofrimento. Por exemplo, uma pessoa pode acreditar que nunca mais conseguirá dormir, trabalhar, viajar ou aproveitar a vida porque tem zumbido. Esse tipo de pensamento pode alimentar a ansiedade e aumentar a atenção dedicada ao sintoma.

O acompanhamento psicológico pode ajudar a modificar essa relação com o zumbido, reduzir o sofrimento e recuperar a qualidade de vida. Mas existe um detalhe importantíssimo: a terapia não precisa fazer o som fantasma desaparecer para produzir resultados positivos. Muitas pessoas conseguem melhorar significativamente sua relação com o zumbido, mesmo quando continuam percebendo o som.

Isso não é imaginar uma melhora. É uma mudança real na forma como o cérebro reage ao sintoma e no impacto que ele causa na vida cotidiana.

Como saber se o seu zumbido tem relação com a ansiedade?

Não existe um teste caseiro capaz de determinar que um zumbido é exclusivamente emocional. Entretanto, algumas observações podem ajudar você a compreender melhor a influência das emoções:

  • O zumbido parece mais intenso durante períodos de estresse?
  • Você percebe mais o som quando está preocupado ou ansioso?
  • O zumbido incomoda especialmente na hora de dormir?
  • Você passa muito tempo verificando se o barulho aumentou?
  • A preocupação com o zumbido está prejudicando seu sono, sua concentração ou sua vida social?
  • Você percebe alguma melhora quando está envolvido em atividades prazerosas?

Se respondeu sim a várias dessas perguntas, é possível que fatores emocionais e mecanismos de atenção estejam contribuindo para o sofrimento provocado pelo zumbido. Mas atenção: essas respostas não comprovam que o zumbido tenha origem psicológica. Elas apenas mostram que a relação entre zumbido e emoções merece atenção durante a avaliação e o tratamento.

O que fazer quando o zumbido piora com o estresse?

O primeiro passo é não tentar resolver tudo exclusivamente com técnicas de relaxamento. O tratamento precisa considerar tanto as possíveis causas quanto os fatores que tornam o zumbido mais incômodo.

1. Procure um otorrinolaringologista. Uma avaliação médica pode investigar possíveis alterações auditivas e outras condições associadas ao sintoma.

2. Faça uma avaliação auditiva. Mesmo quem acredita ouvir perfeitamente pode apresentar algum grau de perda auditiva.

3. Investigue a necessidade de tratamento auditivo. Quando existe perda auditiva, aparelhos auditivos ou outras intervenções podem fazer parte do cuidado, de acordo com a indicação profissional.

4. Cuide da saúde emocional. Se ansiedade, medo ou sofrimento psicológico estão prejudicando sua vida, procure acompanhamento especializado.

5. Dê atenção ao sono. Noites mal dormidas podem aumentar a irritabilidade, o cansaço e a dificuldade de lidar com o zumbido.

6. Evite monitorar o zumbido o tempo inteiro. Verificar repetidamente se o som aumentou pode fortalecer o ciclo de atenção e preocupação.

7. Não compre promessas de cura milagrosa. Desconfie de suplementos, medicamentos ou métodos que prometem eliminar qualquer zumbido sem investigar suas possíveis causas.

Um cuidado importante: zumbido acompanhado de perda auditiva súbita exige avaliação médica urgente, preferencialmente nas primeiras 24 horas. Sintomas neurológicos súbitos também exigem atendimento imediato. Zumbido pulsátil, que acompanha os batimentos cardíacos, e zumbido persistente em apenas um ouvido também precisam de avaliação específica.

Você não precisa enfrentar o zumbido e a perda auditiva sozinho!

No Clube dos Surdos Que Ouvem, reunimos pessoas que convivem com perda auditiva, zumbido, aparelhos auditivos e implantes cocleares para compartilhar experiências reais, trocar informações e aprender umas com as outras.

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