Deficiência Auditiva Histórias dos Leitores

Deficiência auditiva e doutorado no exterior: a história da Bianca

Quando resolvi que mesmo sendo surda eu queria uma carreira de alta nível e ser pesquisadora, eu sabia que haveriam pedras no caminho. Perdi boa parte da audição depois de uma meningite, há quase 10 anos e minha vida virou de norte pra sul depois disso.

Eu quase morri, e percebi que não podia sair dessa vida sem fazer tudo que queria. Acho que essas experiências com doenças graves sempre mudam muito as pessoas, eu mudei totalmente. Escolher fazer mestrado e doutorado faz um peso enorme nas costas de qualquer ser humano, e quando a gente escuta mal, esse peso parece um pouco pior. Eu queria muito, e fui levando como conseguia.

Entrei pro mestrado, consegui meu diploma, brigando com Deus e o mundo e quando eu terminei percebi que queria mais. Eu queria muito mais e estava motivada a conseguir apesar das dificuldades. Resolvi fazer parte do meu doutorado no exterior. Muito choro, muita briga pra conseguir uma bolsa e ufa. Uma hora veio! (Obrigada CAPES!) Foram noites sem dormir. Dias chorando porque eu tinha que fazer um monte de coisas e não sabia se conseguiria. Quando o dia chegou, nem acreditei. Estava anestesiada de felicidade. 

Faz um mês que cheguei em Sacramento na California para fazer minha pesquisa na UCDavis, uma das melhores universidades dos EUA, com certeza. Cheguei com um certo medo, apesar de toda ansiedade para vir logo. O vôo foi ótimo (American Airlines), TODOS os filmes tinham legenda e muitos tinham legenda descritiva. Foi super tranquilo!

Talvez por estar ansiosa demais, nem vi o tempo passar (e olha que foram 40 horas!). Cheguei aqui e vim direto para o local que aluguei. Um apartamento perto do centro, onde todo mundo foi um amor comigo! O proprietário que me alugou aqui topou fazer tudo pessoalmente porque eu e telefone… não rola! (Aí a gente já vê que vai ser bem recebido, eu assinei tudo pessoalmente, depois de ver o apartamento e conversar). Tendo resolvido isso, era hora de encarar o mais complicado! A UCDavis.

O primeiro dia

Meu primeiro dia na universidade foi aquele sufoco: ônibus, me perdi, me achei, precisei pedir ajuda… me estressei! Comecei a pensar: ok, eu falo inglês (sou fluente), mas ouvir vai ser um problema sendo tudo tão barulhento e frenético nessa universidade!

20 mil bicicletas por dia no CAMPUS (já quase fui atropelada umas 100 vezes hahaha), uma loucura de gente pra todo lado, e eu ali, perdidinha! Mas sabem quando tem aquele alívio? Aquele bálsamo? Conheci e conversei com minha orientadora! Um AMOR de pessoa que deixou tudo disponível pra mim e GARANTIU que faria tudo que eu precisasse para aprender. Se precisasse a Universidade comprar algo, QUALQUER assistência, eles iam providenciar.

Eu me senti segura com essa conversa, e acabei relaxando, finalmente. Eu sabia ali que teria uma assistência como nunca tive até agora. Eu pedi só pra sentar na frente e ela falar de frente pra mim (o que TODOS os professores do departamento têm feito)! Conversamos sobre minha pesquisa e bom… fomos pras salas de aula. Gente… não é uma sala. SÃO AUDITÓRIOS! Imagina meu medo. Escutar… ali? 300 alunos na sala? Fiquei apavorada (apesar de ter símbolos de aro magnético e acessibilidade em toda parte por aqui, chega a ser ridículo de tão bom!).

No final, as coisas estão se saindo melhor do que previa. Percebi que muita coisa era medo meu. Só medo! A gente passa uns apertos, mas NUNCA foi me negado nada, além de serem uns amores. (E gente, quem tem boca, vai à Roma. Peçam o que precisam! Eu guardei a vergonha na gaveta há muitos anos!) Eu tenho recebido slides, textos de auxílio, todos os alunos se ajudam…. eu to aproveitando cada segundo! Foi a melhor coisa que eu poderia ter feito por mim… vir pra cá com essa bolsa. 

É bom se sentir acolhida mas melhor que isso É MUITO BOM ME SENTIR CAPAZ. Ninguém aqui me vê ou me viu como diferente, muito pelo contrário, vejo respeito pelo meu currículo e pela minha pesquisa. Todo mundo respeita muito minha pesquisa aqui.

Todos querem conversar sobre meu trabalho. Todos me convidam para tudo! O fato de eu não ouvir tão bem assim é um DETALHE (e eu acho que dei muito mais palco pra minha surdez do que a maior parte das pessoas esta dando aqui). Eu sou normal, como todo mundo no departamento – todos tem seus problemas. O meu, de escutar, dos outros, quem sabe?

Gente, não vejam como uma história de exceção ou superação absurda e muito difícil. Eu sou como todo mundo com surdez. Chorei um monte já, também já me senti incapaz, tive dificuldades, pensei em jogar tudo pro alto… a única coisa as vezes que me movia era aquele instinto de “um dia depois do outro”. Parecia que nunca tinha oportunidades e recompensas, sabe? Chorei, gente. Chorei muito nessa jornada.

Hoje vejo que quando mais a gente mesmo se coloca pra baixo, se acha incapaz, mais o mundo concorda com isso! Mas pra quem muito bate na porta, uma hora vem. Foram anos de investimento em fono, aparelhos, paciência… lutar por uma bolsa de mestrado, brigar por uma de doutorado, brigar por uma vaga no exterior… muitas portas fechadas na minha cara. Perdi a conta de quantas portas fechadas nessa jornada!

E esse é o primeiro fruto precioso que colho desses anos de investimento, mas também é só um PASSO. Eu quero mais.  E como diz minha mãe: “ninguém nasceu juiz”. Corram atrás gente. Pode parecer difícil e distante… mas pra quem quer, vem! 

Se fortalecer, procurar parceiros de jornada, isso tudo importa! O mundo pode ser nosso, basta investimento e MUITA CALMA! Tudo que é nosso, uma hora vem.

Entre para o Grupo Crônicas da Surdez você também!

31 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

5 Comentários

  • Que história emocionante e inspiradora, parabéns pela garra e determinação que com certeza você teve para chegar até aqui, que sempre sirva de inspiração para todos nós!!

  • […] Dei um saldo muito grande minha vida e do nada não sei por quem ou como fui parar numa empresa americana, na qual estou até hoje, que chama-se Unisys Brasil. No primeiro momento foi uma tensão, mas descobriram minhas qualidades e houve uma evolução profissional enorme. Como tinha agora u bom convênio de saúde, comecei novamente a investigar a fundo a minha deficiência auditiva. […]

  • Bianca, que relato maravilhoso e inspirador, tudo é possível neste mundo, com coragem , força e determinação.
    É só o começo de uma jornada de muitas conquistas, parabéns. Sucesso. UM beijo.

  • Que história linda!!!! Bianca, parabéns menina! Estou babando aqui de admiração.
    Sempre podemos mais é a lição que você nos ensina! Muitas bençãos garota! Beijo

Deixe seu comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.