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Crônicas da Surdez

O que aprendi com a epidemia do Coronavírus

No final desta semana fará um mês que estamos em isolamento social lá em casa. Essa pandemia tem ensinado muitas coisas para todos nós, e acho que várias delas estão intimamente relacionadas à surdez, em maior ou menor grau. Compartilho o que aprendi e sigo aprendendo nestes dias com vocês.

A importância do uso de aparelhos em casa

Já contei em outro post que passei a primeira semana do isolamento me fazendo de louca para passar bem e usando apenas o implante direito, né? E sigo pagando o preço por isso: meu cérebro deu uma desregulada geral desde então. Muita gente fez e segue fazendo a mesma coisa que eu fiz, mas não usar aparelhos em casa é a pior das decisões.

Nossa casa é o NOSSO ambiente, o mais importante, o que mais deveríamos conhecer. Se nos importamos tanto em ouvir as pessoas no trabalho e no resto da vida social, porque somos tão egoístas com as pessoas próximas e não temos a menor dor na consciência de não dar o melhor de nós em casa para ouvir?

O cérebro não perdoa. Cada dia sem uso ou com “meio” uso de próteses auditivas será cobrado de você depois. A conta é alta e não vale a pena.

As pessoas aos poucos começam a entender o poder das legendas

Sigo pouquíssimas pessoas no Instagram porque tomei a decisão de passar a menor quantidade de tempo possível rolando telas de agora em diante. Mas, dia desses, descobri que algumas celebridades que alcançam zilhões de pessoas, como Luciano Huck, agora legendam 100% seus vídeos.

Já não era sem tempo. Se as pessoas, as marcas e as empresas não legendam, além de não pensarem em acessibilidade, também estão sendo burras do ponto de vista estratégico. Conteúdo de vídeo sem legenda não atinge nem 1/3 da quantidade de pessoas que poderia atingir se tivesse essa preocupação.

Trabalho de formiguinha vale a pena! Há meses venho deixando comentários pedindo legendas em posts do Linkedin – especialmente em posts de gente com muito alcance – e já consegui bons resultados, como Melinda e Bill Gates, Luiza Trajano… Peçam SEMPRE que virem que o conteúdo não tem legendas.

Só janela de Libras é uma piada

Em TODOS os pronunciamentos e programas importantes ao vivo, você verá uma janela de Libras. Mas você não verá legendas. Os meios de comunicação, o poder público e o povo em geral seguem acreditando que todo surdo precisa de língua de sinais. Até quando? Acessibilidade total mandou lembranças – contém ironia.

Estratégia ou morte!

A maior lição desses tempos sombrios, para mim, é sobre deixar o mimimi de lado e agir. Cada um de nós está enfrentando os mais variados desafios, e o que a gente precisa é descobrir as soluções possíveis para cada um. Não podemos mais nos esconder atrás da surdez.

Aliás, repito: é uma época perfeita para sair do armário da surdez de uma vez por todas. O que aprendi ao longos dos anos e que segue muito claro para mim é que as outras pessoas não são sensitivas. Comunique as suas necessidades. Aprenda a se comunicar melhor. Faça a sua parte!

Em vez de só repetir a palavra “empatia”, meu conselho é que você pratique o “estratégia ou morte”. Fiquei muito orgulhosa de ver lá no grupo como as pessoas estão fazendo isso. Seja indo ao mercado com um papelzinho com o seu CPF e a frase “débito, por favor”, seja colocando um bilhete no elevador do prédio dizendo que você tem deficiência auditiva mas está à disposição no que puder ajudar, sejamos suficientemente espertos para nos antecipar às situações.

Só assim a gente consegue vislumbrar uma saída, executar a solução e comunicá-la aos outros. A vida fica bem mais fácil!

Advogar pela causa da acessibilidade

Gosto de ser otimista e pensar que, daqui uns cinco anos, a gente vai rir pensando que em 2020 a falta de legendas e de acessibilidade no caso de #surdosqueouvem ainda existia. Até lá, temos obrigação moral de continuar cobrando, ensinando, mostrando como as pessoas podem nos ajudar e nos incluir.

A pandemia ensinou lições valiosas aos gestores e às empresas com funcionários que têm deficiência auditiva. A gente até consegue se virar e fazer milagre ao vivo, mas em chamadas de vídeo e ligações telefônicas, não. Esse home office generalizado fez com que muita gente enfim conseguisse compreender que a necessidade do colega não era má vontade, era simplesmente deficiência auditiva.

Advogar pela causa da acessibilidade é um trabalho nosso que não terá fim jamais.

Muita coisa a resolver em casa

Hoje li no nosso Grupo no Facebook uma pessoa relatando as dificuldades para se comunicar com o porteiro do prédio. Isso me doeu porque na hora me lembrei de todas as dificuldades que passei com isso antes do implante coclear. Um interfone de vídeo não é realidade para a maioria das pessoas, mas pode ajudar.  Mas a solução mais simples pode ser a mais certeira: adicionar seu porteiro no WhatsApp, avisar da dificuldade auditiva e se comunicar pelo WhatsApp via mensagens escritas.

Não tranco mais a porta do banheiro quando vou tomar banho, ainda mais agora que entro no banho com o meu filho de dois anos. Isso, não dá pra resolver – eu nunca vou ouvir no banho e não tenho a menor intenção de tomar banho com capa à prova d´água, rsrsrs!

Home office com crianças gritando e cachorro latindo – fazendo coro de latidos com todos os outros cães do prédio – é outra questão a ser resolvida, sabe Deus lá quando. No fim, a gente aprende que faz o melhor que pode todos os dias no meio dessa loucura toda!

Sigo ativando as legendas toda vez que alguém as desativa em casa. Sigo respirando fundo com a barulheira, os gritos, os latidos – não sei vocês, mas na minha cabeça a sensação é de que são muito mais altos e irritantes do que talvez sejam.

Mundo desnecessariamente barulhento

Como tudo tem um lado bom, confesso que estou amando as ruas silenciosas e vazias. Minha veia da testa salta de tanta raiva todos os dias quando as pessoas fazem panelaços pois é exatamente no momento em que consegui fazer meu filho dormir e meu trabalho vai por água abaixo.

Vivemos num mundo desnecessariamente barulhento. Todos gritam, tudo é alto, ninguém respeita o espaço sonoro de ninguém. Estamos acostumados ao “som ambiente” que é, na maioria dos casos, um estupro à nossa audição. Restaurantes com música altíssima, academias com música a mais de 100dB, aeroportos com ruído sem fim, ruas que são enlouquecedoras de tanto barulho.

Espero do fundo do meu coração que, após as semanas de isolamento social, as pessoas passem a dar valor ao silêncio. E que também passem a ser intolerantes com ruído e barulho sem valor algum.

Máscaras

Além da complicação na hora de fazer leitura labial, o uso de máscaras é um problema extra para quem usa aparelho auditivo ou implante. Pior ainda se a pessoa usar óculos também, porque não tem orelha que aguente tanta coisa. Enquanto a gente fica P da vida e reclama, tem gente criando máscaras transparentes e acessórios em impressoras 3D para que os elásticos das máscaras não fiquem atrás da orelha.

Ouvir os sons da natureza

Fui caminhar sozinha (e de máscara) pelo calçadão de Copacabana no sábado. Sem a infinidade de carros passando, buzinas, pessoas gritando e falando alto ao celular, acabei podendo prestar atenção nos sons da natureza. E que sons!! O mar estava com ressaca, ondas poderosas e barulhentas. Vento batendo no rosto, passarinhos passando e cantando… Tem tanta coisa que o ruído das cidades nos impede de ouvir. Que a gente seja sábio o bastante para aproveitar todos esses presentes sonoros que estamos recebendo da pandemia.

E sobre mim mesma…

O que aprendi sobre mim mesma é que vinha vivendo no piloto automático há tempo demais. Estava 100% desconectada de mim mesma, correndo o dia inteiro (mas com aquela sensação medonha de não sair do lugar), aproveitando quase nada a melhor época da vida do meu único filho e com aquele semblante vazio de quem dedica 90% do tempo ao trabalho.

Essas semanas de paralisação forçada me fizeram voltar a ouvir o barulho de dentro. E o meu andava gritando pra mim, sem sucesso. Voltei a priorizar o meu tempo com coisas que realmente importam pra mim: ler, escrever, criar coisas novas.

O melhor presente foi ver como meu filho mudou comigo e grudou em mim, e as nossas conversas o dia todo fizeram até a linguagem dele dar um super salto. Parece que acordei. E a sensação de que a vida é ligeira e rapidinho meu tempo aqui acaba voltou com força, me dando mais gás de viver.

E você?

Me conta quais lições tem aprendido nesses dias? Não esqueça: se estiver se sentindo triste, solitário, com medo e confuso, temos um grupo com 14.500 pessoas no Facebook. E lá, você encontra apoio e informação de qualidade, além de fazer muitos amigos novos

Sobre

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 38 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

6 Comentários

  • Gigi
    09/06/2020 at 2:30 am

    Paula.. , quero te parabenizar pela iniciativa, pelo post, pelas palavras de muita sabedoria! Está muito claro, e de suma importância .. você está de Parabéns !!
    Eu Vou compartilhar!!!!
    Sou mãe de uma filha def visual, estava fazendo uma busca para entender o que as pessoas tem aprendido com esse vírus que realmente tem ensinado a humanidade, sim, tem ensinado aqueles que querem aprender…
    Fiz essa busca no Google, e apareceu sua matéria, resolvi entrar e estou encantada com sua garra, conhecimento e iniciativa! Mais uma vez Parabéns!!!
    O que eu tenho aprendido com esse vírus?
    Desde o início tenho dito que esse vírus, veio para mostrar ao mundo que: não importa seu padrão financeiro, sua posição na sociedade, o cargo que vc ocupa, Não importa a cor, raça,, estudo, religião , se vc tem um plano de saúde ou não, se vc mora em uma casa, castelo, ou na rua… Somos Todos Iguais!!!! É engraçado como o vírus não faz separação de pessoas!
    Pessoas morrem no castelo, casa, rua, hospital , etc…
    e no caixão Não se leva nada!
    Todos vão para o mesmo lugar..
    o que as pessoas mais precisam hoje, sempre esteve de graça mas não demos o valor- o que era? Um abraço, um colo, um sorriso, consolar com abraço, chorar junto,
    Aprendemos tantas coisas.!!!!! Aprendemos a valorizar a vida, o tempo, pq o tempo passa rápido,
    O vírus não trouxe só a doença mas, com ela trouxe o medo, insegurança, saudade, separou famílias, filhos, levou sem deixar de
    Despedir..
    O mi-mi- mi .. não nos ajuda em nada, como vc mesmo disse : hora de deixar o mínimi e ir.. fazer, ser, lutar!!! TOP!!! Eu amei!
    Termino por aqui, e que possamos valorizar aqueles que estão ao nosso lado, pois a vida é frágil…

    Responder
  • Debora
    23/04/2020 at 4:25 pm

    Boa tarde . Desenvolvemos uma mascara com leitura labial, que embaça menos e conseguimos conversar com nossos clientes e estamos usando na clinica e disponibilizando para nossos clientes . Realmente é muito difícil a comunicação com mascaras.

    Responder
  • Roselito
    06/04/2020 at 7:28 pm

    Aprendi que, além de todos obstáculos, teria mais dificuldade ainda em fazer LEITURA LABIAL devido ao uso de máscaras então, me juntei á alguns profissionais da saúde , fiz contato com staff da Ashley Lawrence em Kentucky USA e estamos fazendo nossos modelos de máscara com transparência LABIAL para uso de profissionais da saúde como: Fonos , Otorrinos e quem mais precisar para se comunicar , mais facilmente, com deficientes Auditivos da minha cidade.

    Responder
    • Pryscilla Cricio
      04/08/2020 at 3:20 pm

      Olá Roselito,

      Tudo bem?

      Venha para o nosso grupo fechado no Facebook com mais de 15.300 pessoas com deficiência auditiva que usam aparelhos ou implantes. Para se tornar membro, é OBRIGATÓRIO responder às 3 perguntas de entrada.

      https://www.facebook.com/groups/CronicasDaSurdez/

      E para receber avisos sobre nossos eventos e cursos, por favor, clique e responda 4 perguntas (leva 30 segundos):

      https://forms.gle/MVnkNxctr1eahqR5A

      Estamos te esperando!

      Abraços,

      Equipe Surdos Que Ouvem

      Responder

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