Implante Coclear

Eu, Maria, sou usuária de Implante Coclear há cerca de um ano. Quando eu conto às pessoas que uso esta maravilhosa tecnologia auditiva, geralmente as pessoas me olham com um certo estranhamento quando eu mostro o meu IC. Não entendem bulhufas o que é aquilo de que eu falo com tanta alegria: “Hã? O quê? Não entendi! É implante nuclear? Transplante? Ah, implante… coclear? O que é isso?”

Há também um equívoco muito comum entre as pessoas acharem que o Implante Coclear é feito no cérebro. Não! Não é no cérebro! É feito no ouvido! 🙂

Apesar do Implante Coclear existir no Brasil há cerca de 30 anos, ainda é bem desconhecido pela grande parte da população. Explicar às pessoas como é o seu funcionamento não é uma tarefa simples, pois é uma tecnologia complexa!

O Implante Coclear, basicamente, é um ouvido eletrônico, cuja audição é artificial, muito diferente de um aparelho auditivo comum. Esta tecnologia auditiva foi desenvolvida para pessoas que apresentam surdez neurossensorial bilateral de grau severo e/ou profundo, que não conseguem apresentar um ganho com os AASIs (aparelhos auditivos).

Para entendermos melhor o seu funcionamento, primeiramente, temos de entender o que é surdez neurossensorial. A cóclea é uma importante parte do ouvido, tem o formato de um caracol. É ela a responsável pelo processamento do som! Em seu bom funcionamento, a cóclea, quando recebe o som, gera estímulos elétricos por meio das células ciliadas, que são enviados via nervo auditivo até o cérebro.

Quando as células ciliadas da cóclea não funcionam como deveriam, a cóclea não consegue captar direito o som e convertê-los em forma de impulsos elétricos que vão até o cérebro, caracterizando surdez neurossensorial, que é irreversível. Nos casos de surdez grave, a cóclea já está muito deficiente para receber o som amplificado por meio dos aparelhos auditivos. Neste caso, por não captar o som em determinadas frequências, a percepção dele fica distorcida ou torna-se nula.

Eu sou surda profunda bilateral neurossensorial desde que era bebê. Usei os aparelhos auditivos durante a minha infância e nunca consegui discriminar os sons devido ao meu alto grau de surdez. Não adianta amplificar o som com a ajuda do aparelho auditivo, se a cóclea não consegue recebê-lo bem. O som que eu ouvia era muito distorcido e sem forma em um ouvido; no outro ouvido, a audição era nula.

É aí que entra a maravilhosa tecnologia: Implante Coclear, que é inserido cirurgicamente no ouvido. O dispositivo do IC é composto por chip e um fio de eletrodos.

 

O fio de eletrodos é inserido na cóclea. Você reparou que este é o motivo de ser chamado de Implante Coclear? Afinal é feito na cóclea! O chip do IC é colocado embaixo do couro cabeludo, na região atrás da orelha, e fixado no crânio (já te falei que não é no cérebro?).

Na orelha, é pendurado o processador de fala, cuja antena transmissora se fixa na cabeça por meio do imã.

Como funciona o Implante Coclear?

A cóclea deficiente, ao invés de gerar estímulos elétricos sonoros, passa a receber os estímulos elétricos vindos do fio de eletrodos do Implante Coclear, que passam pelo nervo auditivo permitindo a sensação de audição.

1 – Processador de Fala: capta o som do ambiente e codifica-o em sinais de ondas de rádio, que vão até a antena.

2 – Antena: que é fixada na cabeça por meio do imã, transmite as ondas de rádio para o chip interior.

3 – Fio de eletrodos: o chip decodifica os sinais e converte em estímulos elétricos que correm pelo fio dos eletrodos, que vai até a cóclea.

4 – A cóclea recebe os sinais elétricos para cada frequência sonora programada, que correm pelo nervo auditivo. O nervo auditivo é a ponte do som para o cérebro. O cérebro recebe os estímulos sonoros causando a sensação auditiva.

As técnicas cirúrgicas do Implante Coclear avançaram muito nos últimos anos! Hoje, o corte é feito atrás da orelha e é bem pequeno. A cirurgia é considerada pelos médicos muito segura. Quando eu realizei a cirurgia de Implante Coclear em um dos ouvidos, ninguém notou que eu havia operado.

Outro engano comum é as pessoas acharem que logo após a cirurgia de Implante Coclear, já vamos sair ouvindo tudo! Não, ainda não estamos ouvindo! Será necessária uma espera de cerca 30 dias para a ativação do dispositivo, por causa da cicatrização do ouvido. Já vi meus conhecidos implantados contando que os parentes telefonavam para eles no hospital, e os amigos deles já mandavam mensagens de áudio para eles! Ledo engano deles!

Ativação do Implante Coclear

A ativação do Implante Coclear é o momento muito esperado por muitos recém-operados, não só deles, mas também por todos que o rodeiam (amigos, parentes, colegas, etc.). Esperam que a pessoa implantada saia da ativação ouvindo tudo ao seu redor, já conversando ao telefone. Seria muito bom tudo isso se fosse verdade, mas na realidade não é bem assim!

Por ser um ouvido biônico (eletrônico), temos de reaprender a ouvir daquela maneira tão diferente. Sabiam que quem escuta é o cérebro? Geralmente sai-se da ativação sem ouvir muita coisa, podendo ser somente apitos e sons metálicos, ou sons de fala com aspecto de Pato Donald. O aspecto de som metálico acontece porque o cérebro ainda não entendeu o que são aqueles estímulos sonoros tão novos e dá aquele tom estranho.

É muito importante manter a expectativa da ativação bem baixa e guardar a energia para o processo de adaptação ao Implante Coclear e treino auditivo, que será longo. Meu conselho aos babyborgs: não espere muita coisa na ativação para evitar a decepção inicial e permita-se ser surpreendido pelo o que o IC pode proporcionar ao longo do tempo! É cada surpresa sonora maravilhosa!

O dispositivo do IC é ativado por um fonoaudiólogo especialista, por meio do computador. O processador de fala é colocado na orelha, a antena é fixada na cabeça por meio do imã e passa a se comunicar com a outra antena interior, do chip.

O fonoaudiólogo realiza uma programação inicial, com o passar do tempo, vai alterando a programação (no caso, chamamos de Mapeamento), aumentando o estímulo elétrico e refinando a percepção auditiva.

A percepção metálica do som é temporária. Com o tempo, de repente, o cérebro muda o jeito da percepção do som para uma percepção semelhante ao som natural. O cérebro necessita de tempo para assimilar a novidade e se reorganizar, por isso o treinamento auditivo feito com acompanhamento de um fonoaudiólogo especialista é muito importante. O treino auditivo força com que o cérebro aprenda a se organizar e dar forma melhor ao som artificial. Cada pessoa terá um resultado diferente e em tempos diferentes. Neste processo, a paciência é fundamental, pois o resultado não é imediato. Com o tempo + treino auditivo + paciência, a audição com o IC só tende a melhorar.

Cada pessoa terá resultados auditivos diferentes com o IC pois há diversos fatores envolvidos como memória auditiva, tempo de privação sonora, estado da cóclea, entre outros. Por isso é muito importante conversar com a equipe médica especialista em IC sobre as expectativas e possibilidades. Nenhum médico poderá prometer resultados, pois não há garantia de nada. Mas para quem estava na surdez profunda não há nada a perder, não é?

Graças ao IC, eu consigo ouvir o som com mais qualidade, nitidez e forma, o que não conseguia com os AASIs. A cada dia tenho uma nova descoberta sonora que é muito comemorada. O processo é lento e muito gratificante. Alguns implantados conseguem falar ao telefone, outros não. Uns conseguem entender a fala, outros não. Afinal, o que é sucesso? É aquilo que te faz feliz! Sempre digo que o Implante Coclear vai muito além de falar ao telefone. Ouvir o mundo com o IC é uma delícia!

A tecnologia de Implante Coclear torna os surdos que não ouviam nada em #surdosqueouvem !

Seja o primeiro a amar.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

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