Aparelhos Auditivos Crônicas da Surdez Deficiência Auditiva Implante Coclear

Voz de surdo

Você já parou para pensar na voz de surdo? No post ‘Saia do armário da surdez‘ recebi um comentário da Ana Raquel que me botou pra pensar. Eis o que ela escreveu: “Amo seus posts de motivação, Paula! Se eu tivesse vergonha da minha surdez, nossa, você iria me botar pra “fora do armário” rapidinho, hehe… Pelo fato de eu já ter uma deficiência física bem evidente, a surdez nunca me incomodou ou causou vergonha, sempre “ostentei” meus AASI. Queria te dar uma sugestão para um futuro post desse tipo: falar sobre a vergonha da “voz de surdo”. Nunca vi alguém comentando sobre isso na internet, mas em minha opinião, a voz também pode ser alvo de constrangimento, além da deficiência auditiva em si mesma.”

Voz de surdo

Acho que já contei pra vocês que nunca parei pra pensar ou prestar atenção na minha própria voz até o dia em que publiquei este vídeo no YouTube. No vídeo, eu estava gravando e fazendo perguntas ao cabeleireiro que foi demonstrar como fazer uma escova anelada. Após a publicação, comecei a receber comentários pavorosos! “Que voz horrível a dessa mulher“, “Parece um travesti com um osso de galinha entalado na garganta falando“, “Que voz chata“, “Que voz estranha“, “Que voz feia” e por aí foi. A cada comentário eu só conseguia pensar: ‘Como assim? Ninguém nunca disse isso sobre a minha voz antes!”

E aí saí atrás dos amigos e família perguntando se, de fato, a minha voz realmente era esse terror feioso que as pessoas disseram que era na internet. Todos negaram. Fiquei com a pulga atrás da orelha, afinal, muitas vezes as pessoas não falam as coisas para não nos magoar. Esse foi meu primeiro contato com minha voz de surdo. Antes disso, nunca tinha pensado no assunto e isso nunca tinha me incomodado. Mas é como se alguém te parasse na rua e apontasse pra uma pinta enorme que você tem no meio da testa aos berros de ‘olha isso!’ – e todos ao redor instantaneamente percebessem a pinta que nunca tinha te incomodado antes.

Comecei a notar que eu falava de um jeito diferente. Na surdez profunda, fazia um esforço físico para falar, já que não ouvia nem 10% da minha voz, mesmo com aparelhos. Hoje percebo que eu ‘puxava’ minha voz com força já que precisava ouvi-la, e mesmo fazendo isso não chegava nem perto de ouvi-la bem e ter controle sobre ela. Fiz algumas sessões de fonoterapia após o maldito vídeo, e elas me ajudaram muito pois aprendi a posição correta da língua na hora de pronunciar várias consoantes (eu adorava falar botando a língua praticamente pra fora ao pronunciar qualquer palavra com L). Fazia os exercícios enquanto dirigia.

Voz de surdo não tem muita suavidade e tem um ‘sotaque’ característico. Voz de surdo é diferente, só isso. E tudo o que é diferente irrita as pessoas que não estão acostumadas. Eu nunca senti vergonha da minha voz porque, pensem bem, conseguir falar e ser entendida pelos ouvintes a esta altura do campeonato (surdez profunda) era ótimo. Só depois da ativação do implante coclear é que fui ouvir a minha própria voz de verdade. E descobri suas nuances, aprendi a controlar o volume, a falar suave, a falar baixinho. Hoje, eu adoro a minha voz! Ela é grave e cheia de sotaque gaúcho e ‘erre’ carregado como manda a tradição dos pampas, rsrsrs.

Tenho um problema para respirar que requer uma correção cirúrgica que ainda não fiz e, por isso, muitas vezes me sinto um pouco fanha falando pois o ar não passa pelas narinas como deveria enquanto pronuncio as palavras. Em vez de focar nisso, penso em todas as amigas que eu não via há meses e anos e que foram ao meu casamento e depois vieram me dizer como a minha voz tinha mudado após o IC. Semana passada encontrei uma dessas amigas por acaso no aeroporto e ela estava com o namorado. Fiquei uns 20 minutos conversando com eles. Horas depois ela me mandou um WhatsApp dizendo que ele nem se deu por conta que eu era ‘a amiga do implante‘ pois, quando ela falou, ele não acreditou.

Voz de surdo faz parte da deficiência auditiva. Fonoterapia ajuda muito e, mesmo com AASI maravilhosos e resultado excelente com um IC, nossas vozes sempre terão um aspecto (mesmo que mínimo) que é diferente das vozes dos ouvintes. E daí, qual o problema? Eu tenho zero vergonha e total orgulho da minha!

Abaixo, reproduzo um depoimento da Ana Raquel:

“Meu nome é Ana Raquel, tenho Neuropatia Auditiva desde o nascimento. Creio que, além de certo sotaque, outro item que permitem às pessoas identificarem a “voz do surdo” seja a pronúncia incorreta de sílabas tônicas de algumas palavras. Principalmente entre os surdos oralizados, dos quais faço parte, pois muitos de nós dependemos da leitura labial para a aquisição de novas palavras oralmente. Assim, é normal que às vezes pronunciemos palavras com ênfase incorreta em uma sílaba, e isso não deveria ser motivo de piada, o que infelizmente já ocorreu comigo. Especialmente quando falo palavras em inglês, idioma com uma fonética diferente de nossa língua, o que dificulta ainda mais o aprendizado da pronúncia correta.

Outra questão que enfrento muito é em relação à altura da voz. Eu tenho pouca noção de quando falo alto ou baixo, e algumas pessoas pensam que quero falar gritando ou sussurrando e fazem ironias do fato. Ou então chamam a minha atenção, achando que falo alto porque quero. De certa forma, até já acostumei com essas situações, mas realmente precisa-se de uma maior conscientização das pessoas sobre as particularidades da “voz do surdo“, porque comentários depreciativos da voz alheia podem sim abalar a nossa autoestima, pois a nossa voz é uma parte de quem somos. A dica que dou para quem passa pela mesma situação é para tentar ignorar esses comentários dos outros, pois a forma como sai a sua voz não depende de você. Existem tantos tipos de vozes no mundo, a “voz de surdo” é apenas uma delas. Bobo é quem não respeita essa diversidade existente, que é a lei da vida!”

Comecei a usar um AASI novo no meu ouvido esquerdo, e fiquei testando minha voz só com ele, depois com ele e o IC, depois sem nada. O Luciano estava junto e comentou que, quando estou sem nenhum deles, ele consegue perceber a diferença na voz com IC/AASI e sem IC/AASI. Não tenho complexo de perfeição e realmente não vejo motivo para que alguém que não ouve bem ou não ouve nada ache que precisa ter uma voz ‘normal’, porque é um esforço colossal e desnecessário, já que ‘normal’ a nossa voz nunca será. Quem tiver oportunidade e indicação, não deixe de fazer fonoterapia, pois ajuda muito e nos faz aprender a corrigir tudo o que fazemos de errado quando falamos. 🙂

Por último, devo dizer que acho deprimente quando vejo algum pai/mãe de surdo debochando da voz de surdo alheia (hoje uma amiga veio me contar que dia desses uma mãe de surdo foi falar mal da minha voz para ela). Se pensam isso da voz dos outros, imagina o que não pensam da voz do próprio filho? Educação e a falta dela começam em casa. Isso não me atinge e não dou bola, mas penso no impacto que esses comentários depreciativos têm em crianças e adolescentes surdos que ainda não estão fortes o suficiente para enfrentar tamanha ignorância.

107 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

17 Comentários

  • Nos, DA vamos convivendo com isso , a verdade é que queiram ou não sempre seremos alvo desses comentários.
    O mundo não é perfeito, e os comentários são espelhos de quem fala…. telhado de vidro!
    Se queremos ser felizes…… jamais dar importancia ao que nos falam pelas costas!

  • Nossa! Esse post é incrível. Descreveu a minha vida. A minha fonoaudiologa me apresentou esse texto logo na minha primeira sessão. Rir e chorei. Sai da sala com o sentimento de leveza. Nós, surdos, somos singular, somos incrível.

  • Eu sei muito bem o que é isso. Já disseram que tenho a voz do tio Patinhas. Voz de caipira. Voz de que tá comendo um bolinho bem gostoso, voz de quem tá com ovo na boca e assim vai. .
    Eu só sei que a cada dia mais procuro forças para superar as adversidades e viver bem. Não dá para ser fraco. Não dá para hipervalorizar a opinião de pessoas assim.
    Precisamos nos valorizar cada dia mais, nossa trajetória, esforço, dedicação e se puder; ficar longe de certas pessoas.

  • Olá.. Eu também falo meio engraçado mas eu não tenho língua presa, eu não gosto muito de conversar com as pessoas pq ngm consegue me entender, todo hora tem que repetir oque eu falei aí fica chato e o pior que eu gosto mtu de falar, eu sempre fico treinando a minha fala, gravando e tal pra ver se melhora mas eu acho que é meu “medo” de falar com as pessoas, eu fico toda hora pensando “sera que quando eu falar vai ficar engraçado ou errado” sei lá… É um confuso danado ?porem to tentando perder esse medo

  • Amei seu post!!
    Perfeito!!
    Às vezes, não me sinto seguro por realizar um implante coclear, pois vejo que é uma cirurgia pesada, tenho muito vontade de escutar como os ouvintes escutem. Sou surdo oralizado desde que nasci, uso aparelho auditivo o tempo todo, porém, ás vezes não consigo perceber as diferenças dos sons de cada tipo, ou mesmo não consigo pegar os detalhes da voz dos outros, principalmente, músicas. Eu comecei a escutar música desde com 14 anos, amo ouvir músicas de vários tipos, forró, pagode, sou fã de Victor e Léo, pois são os texto bonitos(Sou um pouco romântico kk). Com isso, eu não aprendo a música sem ver as letras, pois não consigo puxar as letras, só consigo acompanhando com as letras, e depois de decorar, consigo entender a música sem letras. Ultimamente, estou cada vez mais influenciado com o implante coclear, e quero muito ouvir bem a minha voz, alguns já diziam que a minha voz vem do Rio, outros dizem que sou surdo do Paraguai, e também até recebi um elogio por umas meninas que eu paquerava kk.
    Antes de conhecer melhor o implante, eu tinha contra com o implante por causa da comunidade surda, mas até agora é eu que decido se devo fazer ou não, e também pedi aos surdos que respeitassem em relação ao implante, pois eles se preocupam por perder a nossa própria língua, Libras, mas tenho respeito desde que aprendi a Libras, e sei separar muito bem as coisas. Hoje em dias, não sou mais contra, e fico feliz por saber mais sobre o implante.
    Enfim, parabéns pelo seu post, eu até também assisti você no programa de Fátima, fiquei todo surpreendido no que você falou durante no estúdio. Não sei se devo esperar o novo aparelho que chega até igualar com o implante. Estudo Engenharia Civil, tenho auxílio de um interprete de Libras, tenho 21 anos, uso Libras, como minha primeira língua. OBS: Não escrevo muito bem em português, estou esforçando para melhorar meu texto. Agradeço pela atenção e por compreensão.
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    Lisiane, achei engraçado com a sua fala, “xopa”, eu também falava assim, e todo mundo riu. bjs

  • Perfeito … é exatamente isso,nossa voz é muito feia mesmo,e sinceramente desisti de tentar melhorar.Mas isso esta me tornando totalmente isolada…Haja defesas

  • Paula, super oportuno e claro seu post!
    Ótimas comunicações, com a tua voz. Que é única! Ah, amei o post sobre o Acqua +. Tua explicação foi 10!
    beijinho

  • Pois é….sempre me perguntam se eu sou de outro país..por conta da minha voz…Mas eu, na verdade, nunca percebi muito isso…Só depois de conhecer o blog é que eu percebi o motivo de sempre me perguntarem de onde sou…kkkk
    mas na boa…as pessoas me entendem e nunca parei para pensar na voz horrível…
    Qto à falta de paciência…realmente é muito ruim..principalmente vindo das pessoas mais próximas..Como se a culpa fosse sua em não ouvir…
    A deficiência auditiva acho que é a única que faz com que o próprio deficiente se sinta culpado da sua deficiência…E acredito que a única que causa irritação nas pessoas ao seu redor…
    bjs

  • Bom dia!
    Não tenho deficiência auditiva. Comecei a acompanhar o blog para me ajudar a compreender o mundo do meu namorado surdo (usa 2 ICs).
    Sempre achei que algumas pessoas são intolerantes demais e não têm qualquer paciência para nada, mesmo antes de conhecê-lo. Não sabem compreender que todos são diferentes, com ou sem limitações.
    Já escutei a minha própria voz, gravada. Eu mesma odiei minha voz gravada. Considero-a diferente do que ela é, se escutada ao vivo.
    Com ou sem gravação, isso não resume o que somos. Cada pessoa é bem mais do que isso.
    Tenho lido livros de Chico Xavier e me apeguei a uma de suas diversas lições: “Não exijas de alguém aquilo que esse alguém ainda não pode te dar. Usa a paciência e a tolerância”.
    Minha singela opinião é que, quem deprecia o outro é porque tem uma necessidade de menosprezar para tentar acreditar que ele é melhor. Ledo engano!
    Os outros são intolerantes e impacientes com nossas singularidades. Mas cada singularidade é que torna a vida especial.
    Mas se ficarmos presos a comentários negativos, ficaremos estagnados. Deixe a maledicência para lá e sigamos em frente. Sabe aquela frase popular “entrar por um ouvido e sair pelo outro”? Não há a menor necessidade de guardarmos coisas negativas em nossa mente e no coração.
    Recebi uma frase linda, que seria de autoria de Padre Fabio de Melo: “Só dê ouvidos a quem te ama. Não te preocupes tanto com o que acham de ti. O que te salva não é o que os outros andam achando, mas é o que Deus sabe a teu respeito”.
    Desejo sucesso, alegria, amor no coração e felicidade a todos!
    Abraços

  • Post massa!
    sofro com o mesmo problema de ter a voz diferente.
    O povo acha que é meu sotaque e talz
    Mas acredito que eu tenha a língua presa.
    Vou tentar marcar uma cirurgia para mim essa semana para consertar o freio e depois fazer fonoterapia para conseguir falar melhor.
    Tenho também um problema para respirar, o que deixa minha voz mais fanha. Espero corrigir isso em breve…
    Estudo comunicação social, e pretendo aperfeiçoar minha fala.

  • Amei o post Paula, e mais uma vez me identifiquei pois também já ouvi piadinhas sobre a minha voz tem gente que chega a pergunta de que lugar do Brasil eu sou pra ter essa voz, não me atinge mais de uma coisa eu sei nós surdos somos visto como ETS ou sei lá o que, só atinge meu auto estima quando falo da minha deficiência e a pessoa olha bem pra mi e fala há você é doente ? Sinceramente doente pra mim é pessoas assim ignorantes e preconceituosa.

  • Até chorei… pois descreveu do que vivo e sinto. Ainda mais que estou com dificuldades de voltar para o Mercado de Trabalho por conta do “perfil da minha voz”. Já fui rejeitada pelos recrutadores com esta justificativa ridícula! Pois tenho um Curriculum e uma formação brilhante na minha área.

    =[

  • Esse lance de pronunciar “errado” algumas consoantes, foi o que passei boa parte da minha vida. E até então eu não sabia que era por causa da deficiência auditiva.Passei minha infância toda ouvindo piadas e perguntas do tipo:”Por que tu fala assim?” “Tu tem problema na fala?””Tu tem a língua presa?””A Lisiane falando parece que tem uma batata na boca” e por aí vai…e o pior é que não sabia explicar porque…não entendia o que tinha de errado na minha fala. Até que um dia, tive uma descoberta na minha vida(sozinha), que me ajudou bastante, foi a tal da posição da língua,na hora de pronunciar algumas consoantes,me ajudou muito na correção da dicção de algumas palavras, por exemplo, dinheiro, que eu falava “ginheiro”,tigre, eu falava “xigre”, fora os outros 80% do dicionário que eu pronunciava errado. Uma vez na escola, era pra responder qual era a nossa comida preferida, acho que era na 2ª série,eu bem faceira levantei a mão e respondi xopa (sopa), lembro que tive que repetir umas 5 vezes pra professora e ela não entendeu o que era…até hoje ela não deve saber o que é a tal da xopa,kkkkkk

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