Aparelhos Auditivos Crônicas da Surdez Deficiência Auditiva

Vergonha de usar aparelho auditivo: pare agora!

Tenho recebido uma penca de mensagens de leitores falando sobre a vergonha de usar aparelho auditivo. Minha primeira reação é sempre querer dar um sacode ‘daqueles’, mas aí lembro que já fui essa pessoa há alguns anos e que cada um tem seu tempo para colocar um ponto final nesta besteira.

Sim, é uma besteira, perdoem a sinceridade. Uma pessoa sentir vergonha de usar uma tecnologia de ponta que permite que ela escute melhor não faz muito sentido. É puro bloqueio emocional, e bloqueios emocionais só têm uma serventia: serem quebrados. 🙂

Uma das partes tragicômicas da surdez é a energia que muitas pessoas gastam na tentativa de esconder seus aparelhos auditivos a todo custo. Cabelo estrategicamente puxado pra frente e tal. Que mico! Mas, ainda pior do que isso, são as pessoas que precisam usar aparelho auditivo e passam anos em estado de negação, como se por um passe de mágica tudo fosse ficar bem…

Encare o medo de frente

Quando temos deficiência auditiva, as coisas só melhoram quando decidimos encarar os nossos medos e demônios. É claro que a surdez assusta, pois ela é um sentido que tem muito a ver com proteção e tudo a ver com comunicação. Quem é que quer se sentir desprotegido por não ouvir ou se sentir mal por não conseguir se comunicar facilmente com outras pessoas?

Sua audição não vai melhorar por milagre, lamento informar. Ela só irá melhorar com cirurgia (nos casos em que isso é possível), com tecnologia (ASSI ou IC) ou com esforço pessoal (fazendo uso da tecnologia). Sentado no sofá chorando, reclamando e culpando Deus e todo mundo pelo fato de não escutar, você não vai melhorar. Todos nós passamos por essa fase reclamona e de braços cruzados, mas alguns de nós exageram na dose.

Como?

Em primeiro lugar, vem o pessoal do time da negação eterna. Aqueles que já tiveram seu diagnóstico fechado há mais de 3 anos e que, desde então, usam algumas desculpas como bengalas. As clássicas? “Eu só escuto mas não entendo, não sou surdo“, “Ainda escuto 30%!“, “Tenho medo de cirurgia“, “Não quero que me tratem diferente se souberem que sou surdo“. Meu amigo, todo mundo que convive com você já sabe disso, tá?

O pessoal da negação eterna também adora uma desculpa que só um desavisado engoliria: “Não consegui me adaptar aos aparelhos auditivos“. Se você investigar mais a fundo vai descobrir que eles não fizeram ESFORÇO, e por esforço leia-se usar os AASI o dia inteiro, durante vários meses, fazendo visitas de ajuste à fonoaudióloga e treinamento auditivo.

É fácil falar que você não se adaptou a algo que usou por um par de horas meia dúzia de vezes, né?

Tipo…que tal assumir a responsabilidade pela própria vida e encarar a deficiência auditiva de modo prático e objetivo, deixando o emocional de lado? Garanto que vai funcionar bem mais! A adaptação aos aparelhos auditivos só é rápida e tranquila para alguns poucos sortudos, para todo o resto, é um trabalho longo, estressante e cansativo. Mas recompensador!!

Tudo o que não é estimulado atrofia (aposto que já ouviu sua avó falando isso), inclusive as suas vias auditivas! Pense nisso ao guardar seus aparelhos no fundo de uma gaveta e decidir que o problema não lhe diz respeito! 😉

Atrás do pessoal da negação eterna vem o time das eternas vítimas. Tudo é desculpa para não sair de casa, não sair da concha, não encarar o mundo real, não levantar a bunda do sofá, não dar as caras na fono, não usar aparelho. O ápice, para mim, é quando recebo mensagens de pessoas com deficiência auditiva moderada querendo saber como se aposentar por invalidez!!!! Usar aparelho auditivo e dar jeito de trabalhar, pra que né?

Temos também o time dos eternos insatisfeitos. Eles até tentaram, se esforçaram, usaram mais seus aparelhos auditivos. Acontece que, para essa turma, nada está bom porque nada será como antes. Aparelho auditivo não é ouvido novo. Comprar o aparelho mais caro da loja não é garantia de ouvir como você achou que fosse ouvir. A ciência ainda não descobriu como barrar a deficiência auditiva progressiva, então às vezes as coisas pioram mesmo.

Aceita que dói menos!

Adoro aquela frase da Valesca Popozuda: “aceita que dói menos!”. Ela resume muito bem a surdez. Se você alterar a sua atitude mental e começar a encarar a surdez como um desafio a ser abraçado, muita coisa pode mudar, começando com o seu relacionamento consigo mesmo. Gente que se aceita não sente vergonha de nada e nem de ninguém.

Só existe UM motivo para sentir vergonha de usar AASI

Você não se aceita. E, sendo assim, sente vergonha de si mesmo.

Todas as pessoas que hoje usam aparelhos auditivos sem stress e aproveitam cada minuto dessa experiência da melhor forma um dia já sentiram algum grau de vergonha. De si mesmos, da deficiência auditiva, dos aparelhos. Não passe essa bola para os outros. Não diga que tem vergonha de usar porque as pessoas vão te tratar diferente: a grande maioria das pessoas não está nem aí para o fato de usarmos um AASI. Não diga que eles não ajudam: assuma que você ainda não consegue se olhar no espelho e se aceitar do jeito que é. Não diga que não quer que ninguém veja: tire a venda dos seus próprios olhos!

Não projete nos outros a vergonha que você sente de si mesmo. Vença esse bloqueio emocional! Juro que não é difícil. Quando eu decidi sair do armário da surdez, a minha vida inteira mudou, começando pelo fato de me sentir 100kg mais leve ao parar de tentar esconder algo que todos ao meu redor percebiam. Você pode mentir pra si mesmo e dizer que ninguém nota. Mas eu te digo: as pessoas notam nossos “hãn”, nossa voz diferente (a sua também é!), nosso jeito ‘desatento’. E dái? Surdez não é deficiência de caráter. É apenas uma deficiência sensorial!

Como a gente muda e amadurece com o passar do tempo, hoje me encontro na fase do orgulho. Me orgulho demais desses pedaços de tecnologia que me permitem ouvir o mundo. Pensando bem, como eu poderia sentir vergonha deles?? Devo aos meus implantes cocleares grande parte da minha alegria de viver e sanidade mental.

Só existe um jeito de vencer a vergonha

Usando os seus aparelhos auditivos e tratando-os como seus melhores amigos, pois é isso que eles são. Convide as pessoas a aprenderem um pouco sobre você através deles, sem convidar. Aparelhos auditivos são ímãs de dois tipos de pessoas: as genuinamente curiosas e do bem e as enfadonhas preconceituosas do mal. Daquelas que fazem parte do segundo grupo, queremos distância – e agradecemos aos aparelhos por nos mostrarem tão rapidamente quem são.

Minhas experiências de vida têm me jogado na cara mostrado o quanto devemos dar uma chance àquelas que fazem parte do primeiro grupo. Um olhar de curiosidade pode ser uma tímida tentativa de aproximação. Já pensaram nisso?? Temos mania de achar que só porque alguém olhou por mais de 5 segundos para as nossas orelhas, esse alguém é maldoso, vai debochar de nós e por aí vai…Isso não passa de infantilidade da nossa parte. Não queremos ser julgados, mas julgamos antecipadamente. 😉

Meu diagnóstico de surdez moderadamente severa aos 16 anos me paralisou por completo. Vivi em estado de negação e vergonha até os meus vinte tantos anos, fugindo do uso dos aparelhos auditivos, fugindo da busca por informação e fugindo de ter que me esforçar nessa questão. Era muito mais fácil viver dentro de uma zona de conforto entediante, com as mesmas pessoas me ajudando, lendo eternamente os mesmos lábios.

Alguns anos após começar a minha vida profissional, minha ficha caiu. Ninguém entendia de modo racional o meu comportamento. Senti vergonha da minha atitude o dia em que um ex-colega comentou comigo que não entendia como eu não tinha me adaptado aos AASI se até a tia dele de 90 anos tinha conseguido. Foi então que decidi me mexer.

Tinha duas alternativas: não fazer nada ou fazer alguma coisa. Percorri um caminho difícil que me levou à surdez bilateral profunda em muito pouco tempo, e posso dizer com propriedade: você também só tem duas alternativas. MEXA-SE! Ajude o seu cérebro a se apaixonar pelos seus aparelhos auditivos do jeito mais efetivo e simples de todos: usando-os!

A melhor dica da vida

Venha para o Grupo Crônicas da Surdez no Facebook!

Somos mais de 8.000 pessoas com deficiência auditiva trocando experiências todos os dias, encorajando uns aos outros e melhorando sempre. Você vai amar, tenho certeza! 🙂

47 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

6 Comentários

  • Meu filho usa o.aparelho há quase três anos e até agora não tivemos problemas. Nos aceitamos numa boa a perda auditiva dele. U

  • É muito dificil,tenho um bloqueio enorme em relação aos meus aparelhos,não consigo usar ele(vergonha,medo,receio,incomoda).Usei ele pelo SUS já fiz vários moldes,sempre estou ligado ao facebook,ao site do Cronicas mais não consigo me aceitar,mais cada dia esta mais doloroso e difícil,a surdez aumentando e sempre quando saio ou ate no ambiente de trabalho não estou me comunicando….Fico perdida na maioria das vezes…..

    • Lucimara sou mãe de.um.filho com.perde auditiva no começo tive medo mas logo pensei tenho que procurar fazer o melhor pra ele
      E o aparelho e algo como óculos as pessoas usam pq precisam e o aparelho auditivo tb.

      • Meu filho foi recentemente diagnosticado com perda auditiva bilateral, é tudo muito novo pra mim. Vc sabe me dizer ou alguém, se a perda auditiva sempre eh progressiva ou ela estaciona?? Será que ele vai deixar de ouvir ?? Me desculpem qualquer coisa só quero ajudar meu filho da melhor forma.

  • Interessante suas crônicas , fale mais do implante ósseo . Tem muita gente que desconhece a técnica . Tb tenho perda auditiva bilateral e foi complicado encontrar a tecnologia mais adequada para suprir minhas dificuldades no cotidiano . Sou Advogada e Pedagoga e nas minhas profissões preciso adequar me da melhor forma possível para exerce la como sempre fiz .

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