Crônicas da Surdez Deficiência Auditiva Não categorizado Surdez

Sua SURDEZ é sua responsabilidade: a reflexão fundamental

Embora muitas pessoas com deficiência auditiva fiquem paradas no mesmo lugar durante anos apenas reclamando e não fazendo nada a respeito, a verdade é uma só: nós somos os únicos responsáveis pela nossa surdez.

Não estou dizendo que temos culpa pelo que nos aconteceu. Muitas vezes, temos: os casos de pessoas que não protegeram a audição ao se expor a muito ruído, de pessoas que sabiam que deviam procurar um médico otorrinolaringologista e não o fizeram, de pessoas que sabiam que precisavam de uma cirurgia e não a fizeram, etc.

Estou dizendo que, a partir do momento em que temos o diagnóstico de surdez, o negócio é simples: mãos à obra! 🙂

A sua surdez é sua responsabilidade

Não tem como fugir disso. A gente pode gastar o tempo que quiser se vitimizando, reclamando dos outros, reclamando de Deus e do resto do mundo – e às vezes fazemos isso por anos.

Eu sei muito bem que a surdez é um saco, cansativa e estressante. Mas sempre que penso nisso sou obrigada a lembrar dos tempos em que eu não fazia nada em prol da minha melhora além de reclamar, me sentir uma coitada e projetar nos outros os meus medos e frustrações.

Não queria usar aparelhos auditivos, usava uma semana por ano, botava milhares de defeitos, me dizia ‘não adaptada‘, era birrenta, teimosa, não colaborava, arranjas medos infundados, não ia atrás de informação, não buscava outras opiniões médicas, não buscava uma nova fonoaudióloga, não estimulava meus resíduos auditivos.

Aceitava, resignada e preguiçosa, a deficiência auditiva – e isso é ridículo, pois é um problema corriqueiro tal qual precisar de óculos e ficar em casa de birra sem ir ao oculista!

E assim o tempo passou, minha audição piorou, minha qualidade de vida deteriorou e minha vontade de interagir socialmente foi pro saco.  Sobre o resto (vida profissional, amorosa, etc) nem preciso comentar…

Minha surdez é minha responsabilidade

A minha vida só mudou quando entendi que a minha surdez era minha responsabilidade.

O dia em que me olhei no espelho e encarei o fato de que não aguentava mais ficar parada no mesmo lugar sentindo pena de mim mesma.

E então dei início a um processo que culminou com dois implantes cocleares e o retorno ao mundo dos sons, mas quem me olha hoje talvez não saiba ou não perceba que a estrada até aqui foi bem longa, e começou no dia em que decidi levar a sério o uso constante e intenso de aparelhos auditivos.

Eu não estava confortável no silêncio e a responsabilidade de buscar uma melhora era única e exclusivamente minha, de ninguém mais.

Não poderia sentar e esperar um salvador que fizesse isso por mim. Aliás, ainda bem que levantei a bunda do sofá e fui fazer o que precisava ser feito.

Você tem se esforçado?

Dia desses recebi um email de um amigo que precisa usar aparelhos auditivos e comecei a rir.

Ele disse que fez o teste com um par de AASI por 5 dias e não se adaptou, portanto, vai esquecer o assunto. Fiquei tipo: ‘peraí, 5 dias e já desistiu?‘. Sabe de nada, inocente…

Hoje mesmo recebi um email de uma moça que relatou várias dificuldades no trabalho mas… não sabia qual era o grau da sua perda e sequer usava aparelhos auditivos!

Assim, fica difícil. Como dizem por aí: ‘me ajuda a te ajudar!’

Só podemos reclamar quando nosso esforço é máximo. Usar aparelho auditivo por meia dúzia de horas alguns dias da semana ou quando lembra não é usar aparelho auditivo.

Ter que fazer treinamento auditivo ou fonoterapia e arranjar desculpas para não fazê-lo não vai lhe fazer melhorar magicamente.

Não gostar do som do aparelho auditivo e não voltar na fonoaudióloga para fazer ajustes não vai fazer com o que o som fique bom do dia para a noite. Ter um filho com deficiência auditiva e não estimulá-lo, achando que AASI e IC’s trabalham sozinhos, é de uma irresponsabilidade sem tamanho.

Se você não quer buscar reabilitação auditiva, não quer se esforçar para melhorar, não quer ir atrás do que a tecnologia tem para oferecer, então, por favor, não reclame. Aceite e siga em frente. Não faça os olhos e os ouvidos alheios de penico. Sério!

Também não espere que as outras pessoas sejam condescendentes com isso. Eu sei que a tecnologia ainda não ajuda todos os casos de surdez mas, a grande maioria, ela é sim capaz de ajudar.

Se você quer seguir o caminho da reabilitação, comece sabendo que, em QUALQUER deficiência, a reabilitação é um processo demorado.

A pessoa que se propõe precisa interiorizar a ideia de que é puro esforço pessoal, muito suor, algumas lágrimas e persistir a cada baque. Serão muitos os baques, e talvez a sua utilidade seja a de nos deixar mais fortes e testar nossa capacidade de resistência.

Esqueça a palavra perfeição

Ela não combina com deficiência nenhuma, muito menos com a auditiva. Aparelhos auditivos não são um ouvido novo e não vão lhe devolver a perfeição da audição natural, e isso não é motivo para não usá-los.

Se achar que é, então vá conversar com um power user de AASI ou de implante coclear e descubra o que a tecnologia fez por eles – e por suas vidas pessoais, profissionais, amorosas, financeiras, etc!

Assuma o controle

Logo que comecei a usar aparelhos auditivos a sério, meu corpo todo tentou se livrar daquilo.

Foi preciso muita persistência e muita, mas muita vontade de melhorar e de aprender a gostar deles. Um dia após o outro. Desmoronar e logo em seguida me recompor e seguir caminhando. Não deu mais pra sentar e reclamar sem estar fazendo nada a respeito e sem a consciência tranquila de estar indo até o meu limite todos os dias.

Assumir o controle, além de fazer o que tem que ser feito, é ter a convicção de dar o seu melhor a cada vez. Como alguém pode reclamar ou se declarar ‘não adaptado‘ aos aparelhos sem isso?

O ônus de deixar sua perda auditiva sem tratamento é muito grande!

Até hoje às vezes me pergunto que espírito tinha possuído meu corpo e me paralisado naquela época, porque sinto raiva de não ter tomado as rédeas da minha situação antes. Por birra, por teimosia, por preguiça e por burrice! Nem gosto de lembrar porque sinto raiva do tempo perdido…

Vocês acham que não me canso e não me chateio de até hoje precisar dar aulas para pessoas que me dizem os maiores absurdos ao vivo? Vou desistir por isso? Nunca!

Me ralei toda para chegar até aqui

Minha adaptação ao primeiro implante coclear foi um processo lindo, mas bem doloroso emocionalmente. De repente, me vi com a ferramenta que precisava – a audição – e precisei lidar com todas as minhas escolhas de vida equivocadas, feitas em função da falta da audição.

Não foi mole, quem acompanhou, sabe.

Mas, depois de assumir o 02controle você se recusa a voltar atrás. Graças a Deus!

Espero de coração que você assuma a responsabilidade sobre a sua surdez. A vida é muito curta para ficar trancado numa concha sofrendo em silêncio. Se há chance de melhora, não hesite! 😉

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