Ah, as alegrias e as tristezas da surdez! Minha dinda me enviou pelo WhatsApp uma foto minha aos cinco anos, falando ao telefone. Essa foto inocente me puxou com força de volta ao passado e me fez revisitar sentimentos e sensações que a surdez me causou ao longo da vida.
Lembro direitinho do momento em que essa foto foi tirada. Lembro direitinho do barulho que o telefone discado fazia. Lembro direitinho do barulho do sinal do telefone. E dele tocando. Lembro de pegar o telefone e fingir que estava falando com São Pedro, batendo altos papos imaginários e rindo sozinha. Lembro do toque desse casaco branco fofo na minha pele. Lembro da minha mãe colocando o gorro de lã com pompom na minha cabeça. Lembro da botinha marrom apertada que machucava meu pé.
Lembro de não sentir medo da vida. De não sentir medo das pessoas. De não sentir medo do telefone. De não ter o coração disparado de nervoso quando o telefone tocava.
Voltando a essas memórias, voltei também às memórias dolorosas. Não sei como consegui sufocar por tantos e tantos anos meu desejo de um dia voltar a falar ao telefone. Não sei como consegui fingir por tantos anos que sentia saudade de pegar o telefone para ouvir as vozes das pessoas que eu amava.
Não sei de onde tirei forças para interpretar o papel de mocinha que dizia que estava tudo bem e que não falar ao telefone não importava. Às vezes as circunstâncias da vida nos obrigam a acreditar nas mentiras que contamos a nós mesmos, e elas passam a ser reais. Era assim. Foi o jeito.
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Só que importava. Só que eu queria. Mas não podia. Entre os meus ouvidos e o telefone havia uma parede de vidro inquebrável.
Aprendi a viver com o coração em pedaços, aos trancos e barrancos, um dia de cada vez. Chorando escondida à noite. Enchendo os pulmões de ar com suspiros profundos toda vez que lembrava das coisas que um dia fui capaz de fazer. Mas, sabe o que? Lá no fundo, bem no fundo, naquela caixinha dourada na qual guardamos os segredos indizíveis, sempre mantive uma esperança infantil de que um dia voltaria a fazer todas aquelas coisas que a grande parede de vidro me impedia de fazer.
À medida em que eu crescia, crescia também a parede de vidro que separava meus ouvidos do mundo, e um dia ela ficou mais alta que eu. Não adiantava mais colocar os sapatos de salto da vó para ganhar uns centímetros: a maldita me fazia esticar o pescoço olhando pra cima. Foi então que, tal um cachorrinho pequeno, abaixei as orelhas e segui a minha caminhada, resignada. Fazer o que? Às vezes, a gente perde o jogo.
Algumas pessoas sábias dizem que aquilo que você coloca na mente e sente com todo o seu coração como se fosse possível, como se fosse verdade, um dia acontece. E foi no dia 11/11/2013 que aquela menininha do casaco peludo branco que conversava com São Pedro ao telefone cresceu.
De mísera formiguinha, de repente se tornou gigante, e levou um susto ao notar que tinha ficado mais alta que a parede de vidro.
A cada dia, desde então, a menina foi ficando mais forte, até que conseguiu dar a marretada final na parede e quebrá-la inteira. Ela sorriu e derramou uma lágrima, que não foi de tristeza: foi felicidade ao ouvir todos os caquinhos de vidros estilhaçados no chão.
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