Site icon Crônicas da Surdez – Surdos Que Ouvem – por Paula Pfeifer

Carta para a Paula de 1 aninho

Paula Pfeifer bebê no colo da mãe

Querida Paulinha,

Você é apenas um bebezinho e eu sou você daqui a 40 anos.

Escrevo essa carta para contar algumas coisas que você deve saber para enfrentar melhor todos os desafios que virão até que você complete 31 anos.

Você passará três décadas com uma sensação esquisita de que algo está faltando, e um belo dia vai descobrir o que era isso que faltava. Quando esse dia chegar, tudo fará mais sentido. Eu prometo.

Você se perguntará porque precisou passar por tantos momentos tristes e confusos. Ficará um pouco ressentida por causa disso. Mas saiba, bebezinha linda, que se você não tivesse enfrentado de cabeça erguida todos os desafios, nós não teríamos nos tornado uma adulta forte e bacana. E isso faz uma diferença na vida…

Quando crescer, você vai ajudar muitas pessoas a passarem por tudo o que você passou e antecipará o encontro de muitos com aquilo que você demorou trinta anos para encontrar. E isso é muito bonito. Quando tiver 40 anos, você ainda não terá muita noção da grandeza desse trabalho.

Quando você era essa bolota risonha, havia acabado de completar um aninho de vida. Era serelepe, faceira e comunicativa. Você vai crescer e aprender a falar. E lá pelos 5 anos, vai começar a frequentar consultórios médicos pois terá muitas dores de ouvido. As dores serão muito chatas e você vai deitar na cama da vó Tereca encostando um ouvido no travesseiro enquanto o remédio entra no outro ouvido. A mamãe colocará um algodão e pedirá para você ficar quietinha. Obedeça.

Um dia, você vai falar para a mamãe: “Tem um apito no meu ouvido!”. E ela te levará ao médico outra vez.

Farão exames e uma fonoaudióloga dirá que você tem uma perda auditiva, mas a mamãe vai achar que é bobagem e vocês irão para casa como se nada tivesse acontecido. Tente entendê-la, porque as dores da mamãe são imensas.

Quando você tiver uns sete anos, a tia Ia vai começar a perceber que algo está errado e dirá para a mamãe e a vovó: “Eu acho que a Paula não ouve direito!” As duas não levarão muito a sério mas você começará a ficar com a pulga atrás da orelha.

Na escola, você vai encontrar colegas que te deixarão triste. Eles vão te chamar de surda na frente dos outros e você vai se sentir confusa por causa disso. Aproveite até a oitava série, Paulinha, porque depois vai ficar cada vez mais difícil. Continue devorando livros todos os dias e lendo tudo o que for possível.

Quando você chegar no colegial, vai começar a gostar de música e vai perceber que, à medida que o tempo passar, o volume terá que ficar mais e mais alto. Você vai se sentir ansiosa e perdida, mas calma: a resposta para todas as situações que vão lhe ferir o coração e fazer você chorar sozinha à noite no seu travesseiro está próxima.

Quando fizer 16 anos, um médico vai fazer exames nos seus ouvidos outra vez e descobrir que você tem deficiência auditiva bilateral moderadamente severa. Você vai levar um susto e a mamãe vai cair dura no consultório.

Você passará por poucas e boas com seus amigos e namorados, mas isso acontece com todo mundo. Eles vão telefonar para te convidar para sair e você pedirá para alguém mentir que não está em casa, pois você não vai entender mais nada do que as pessoas falam no telefone. Você terá que se despedir do telefone, mas eu prometo que, 15 anos depois, ele voltará a ser seu amigo – e de um jeito muito melhor.

Tente não ficar muito triste por não entender as letras das músicas e por não ouvir mais o barulho do vento norte batendo no portão que fica atrás do quarto da vó.

Guarde bem as vozes do Dudo, da mamãe, da Tereca, da Thais, da Ia. Deixe elas trancadinhas e seguras numa gaveta especial da sua memória auditiva.

Quando chegar a época de escolher uma faculdade, vai ser bem complicado. Esse conselho é idiota, mas tente respirar fundo e ficar calma. Você passará noites em claro apavorada tentando descobrir em qual profissão pode trabalhar sem precisar dos seus ouvidos que não funcionam mais. Sua escolha abrirá as portas para o começo do entendimento da nossa jornada silenciosa.

Na faculdade, você terá uma amiga que será como um anjo da guarda e ela não vai se importar de ouvir as coisas para você. Amigos são assim mesmo, cuidam da gente e nos protegem quando mais precisamos. Aproveite enquanto eles estão por perto!

Um belo dia você vai sair correndo para chorar escondida depois de perceber que não consegue mais ouvir o barulho do aspirador de pó. Isso vai doer muito, bem fundo, e ninguém vai entender o que você está sentindo. Lá em casa todos respeitarão, daquele jeito deles, a sua vontade de não falar sobre esse assunto chato e triste. Tente entendê-los, eles estarão tão tristes quanto você ao vê-la sofrer desse jeito.

Paulinha, preste atenção: teremos muitos anjos no nosso caminho e você precisa aprender a reconhecê-los. Eles te guiarão até a grande virada, que irá acontecer no ano de 2013. Até lá, seja forte, seja verdadeira e generosa com todas as pessoas que puder.

Seu primeiro emprego será difícil e te marcará para sempre. Ele te ensinará como é ser visto como deficiente aos olhos dos outros. Vai machucar e você vai querer desistir. Mas você é uma batalhadora, Paulinha. Suas lágrimas se transformarão em força, e essa força será usada na hora certa.

Será dentro da sua salinha neste lugar que você criará um site porque sentiu vontade de dividir suas ideias com o mundo. Esse site vai crescer e, dois anos depois, você estará se comunicando com centenas de milhares de pessoas todo mês.

Essa experiência lhe dará coragem para sair do casulo e compartilhar todos os seus sentimentos, medos, experiências, tristezas e alegrias como uma pessoa com deficiência auditiva. Você vai criar outro blog só para falar disso. E, quando menos esperar, ele terá reunido uma família de pessoas do bem que estão espalhadas pelo mundo inteiro vivendo as mesmas coisas que você viveu! Da solidão para a multidão: vai ser emocionante.

Virão mais anjos. Uma fonoaudióloga que virará sua amiga – e irá ao seu casamento! – vai plantar uma sementinha poderosa na sua cabeça. Por causa dela, você vai considerar a possibilidade de um dia voltar a ouvir. Do seu jeito, sempre pé no chão, sem grandes esperanças.

Os anos vão passar e essa sementinha vai crescer. E, quando menos esperar, você se tornará um bebê outra vez. Você nasceu em 1981 e nascerá de novo em 2013. Vai ser a coisa mais linda do mundo.

Você vai voltar a ouvir os passarinhos, o barulho do vento, a voz da mamãe, a chuva caindo. Você vai voltar a ouvir a sua voz! E logo depois que isso acontecer, você irá até a Plataforma de Atlântida sozinha, só para ver se o barulho do mar que você tanto amava ainda está lá – e ele vai estar e vai dar um beijo no seu ouvido, enquanto o vento norte te dará um abraço apertado no dia desse reencontro.

Depois disso, Paulinha, você passará o resto da sua vida com um enorme e vívido senso de gratidão. Ganhar de volta algo que você achou que tivesse perdido para sempre é um sentimento inexplicável que poucas pessoas conhecem. E você será uma delas!

Você se tornará uma surda que ouve e o Universo vai te dar um presente ainda maior: você ouvirá a voz do seu filho lhe chamando de mamãe todos os dias. Você ajudará mães de bebezinhos como você, você dará coragem a milhares de pessoas, escreverá livros e viajará pelo mundo inteiro para falar sobre todas essas coisas que você viveu.

A sua vida vai ser um pouco virada do avesso, mas eu te prometo que vai valer a pena precisar ser forte ainda pequenininha. Pelos caminhos mais tortuosos estão escondidos os tesouros mais preciosos. A nossa vida vai dar um filme. Aguenta aí porque, no final, tudo vai ficar bem barulhento.

Um beijo,

Paula”

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