Fonoaudiologia

O que o seu fonoaudiólogo gostaria que você soubesse

O fonoaudiólogo é peça fundamental na adaptação aos aparelhos auditivos. Construindo uma relação de confiança e boa comunicação com o profissional que lhe atende, já é meio caminho andado. É ele que vai ajustar as suas próteses da melhor forma, tirar suas dúvidas e garantir que seus AASI estejam lhe dando tudo o que podem.

Alguns fonos trabalham de forma independente, outros, trabalham para grandes marcas. A escolha de qual caminho seguir é sua, e cada uma delas tem suas particularidades. Escolha feita, chega o momento mais vida real de todos: sair para o mundo usando aparelhos auditivos.

Raros são os casos em que o paciente fica 100% feliz e satisfeito no primeiro mês – e aí começa um festival de reclamações com as quais o fonoaudiólogo terá que lidar.

Não custa relembrar: aparelho auditivo não é um ouvido novo (não espere perfeição). Dependendo do grau e tipo da sua perda auditiva, ele vai ajudar menos do que você gostaria. O tempo de privação auditiva e a falta de estímulo contam muito, e quem ouve é o cérebro, ou seja… regular as expectativas e entender que leva tempo e requer esforço e determinação é o mínimo que você pode fazer.

Oriente, não reclame

Imagine a seguinte situação: você faz uma janta sem poder provar a comida. Depois que a pessoa jantou, ela diz que a comida ficou ruim, mas não explica o motivo, se ficou muito doce ou salgada, muito quente ou fria, se foi o tempero, nada…Sem poder sentir o gosto, como você saberia o que melhorar na próxima vez? Fica difícil, não é?

É mais ou menos assim que o fonoaudiólogo se sente quando o paciente simplesmente diz que o ajuste dos aparelhos auditivos está ruim mas não fornece detalhes do que precisa melhorar.

O seu fonoaudiólogo não tem como saber como é a sua percepção auditiva. Somente você sabe, pois cada surdez é única. E é só você que pode ajudá-lo no ajuste dos seus aparelhos auditivos, pois é quem os usa todos os dias, na rua, no trabalho, no carro e em casa.

A responsabilidade é sua de informar o que incomoda e o que está bom ao profissional de fonoaudiologia que lhe atende. Conheça algumas dicas para melhorar sua vida e a do seu fonoaudiólogo: 

Relação de Confiança

Fuja da ideia de um relacionamento puramente comercial. O fonoaudiólogo é um profissional da saúde, assim como um médico, enfermeiro ou fisioterapeuta, e portanto, o investimento inclui as consultas e todo o conhecimento do profissional para análise e acompanhamento do seu caso.

Reabilitação auditiva não é igual vender roupa em loja, é um tratamento, e portanto, quanto melhor for o seu relacionamento com o seu fonoaudiólogo, melhor será para você e sua reabilitação, e ele poderá te ajudar cada vez mais. Tenha respeito e valorize o trabalho do profissional e seu tempo, se não quer ser tratado só como um comprador, não trate o fonoaudiólogo como mero vendedor!

Seu fonoaudiólogo pode até não saber como é usar aparelhos (mas vários são usuários!), mas é um profissional que estudou durante 4 anos na faculdade e depois fez especialização para trabalhar com audiologia. Não adote uma postura como se você soubesse mais do que ele sobre o trabalho dele, porque há inúmeros detalhes, exames e conhecimentos sobre aparelhos auditivos, indicações e adaptações que não se aprende na internet. Procure uma pessoa que lhe inspire confiança! 

Prótese auditiva é tratamento, e não milagre

Tenha em mente que o processo de adaptação é gradativo, são diversas etapas, e com o tempo cada nova fase será vencida. Não tenha pressa, não queira uma adaptação pra ontem! Tudo a seu tempo. Muitas pessoas ficaram por anos sem escutar, sem estímulos nos nervos auditivos, e depois querem recuperar o prejuízo de vários anos em um dia. Não faz sentido, não é?! Tenha paciência e faça uso diário dos aparelhos, veja aqui mais dicas para adaptação.

Próteses auditivas não são ouvidos novos, e muitas vezes a falta de entendimento da fala não é culpa do seu profissional de saúde auditiva e nem de seu aparelho, mas sim de dificuldades auditivas específicas ou tempo para adaptação e o cérebro reaprender a ouvir.

E não suma do consultório, abandonando o tratamento e sem ajustar seus aparelhos periodicamente. 

Comparações, só com você mesmo 

Cada surdez é única! Portanto, não compare aparelhos e resultados. Um aparelho pode ser ótimo para você e ruim para outra pessoa. Não é por que o seu vizinho já fala no celular em um mês de uso, que o aparelho dele é bom e o seu aparelho não presta, porque você não consegue.

Você e sua surdez são um caso, tem um histórico diferente de memória auditiva, de reconhecimento de fala, de estímulos sonoros. Portanto, seu foco deve ser cada dia você vencer o seu limite de ontem, e não o limite dos outros! 

Não pense só na marca

Não tem como escolher qual é a melhor marca, todas elas têm aparelhos desde os mais simples até os mais sofisticados, com ou sem conexão com celular, com diversos recursos. Um aparelho auditivo “top de linha” pode ficar ótimo ou parecer um rádio mal sintonizado, e um aparelho básico pode ser a solução perfeita para quem usa.

O que faz a diferença são os ajustes e acompanhamento do seu fonoaudiólogo, o seu tempo de uso dos AASI e paciência e esforço na adaptação! 

Não adianta buscar só aparelhos super tecnológicos, sem ter um bom profissional para te permitir usufruir de todos esses recursos: é como ter uma Ferrari e não saber dirigir! Se estiver em dúvida entre duas marcas, é melhor pensar no profissional que irá te atender, na garantia, revisão técnica, formas de pagamento e os recursos que os aparelhos podem oferecer, em vez de pensar só na marca em si. Leia sobre como escolher o melhor aparelho para você

Quando você adquire um aparelho auditivo, o serviço está incluso. Portanto, o relacionamento com o profissional faz parte. Esperamos ansiosamente para que a venda do produto seja separada do serviço, como é no exterior. Mas enquanto isso não ocorre, saiba que serão diversos atendimentos durante a vida útil do aparelho auditivo, portanto, ambos só tem a ganhar se trabalharem em cooperação. 

Faça um diário

Sempre falamos isso aqui, e repetimos, faça anotações! Hoje você pode lembrar qual era o som que não conseguiu ouvir bem, mas mês que vem no ajuste, terá esquecido completamente. Observe suas maiores dificuldades fazendo um diário para auxiliar nos ajustes.

Separamos algumas palavras que podem ajudar você a explicar o que você está ouvindo e sentindo com os aparelhos auditivos. Salve e imprima a imagem abaixo para levar na próxima consulta!

 

O cuidado é sua responsabilidade

Não adianta nunca limpar os aparelhos, não fazer revisão técnica, e depois que tiver algum problema querer colocar a culpa no fonoaudiólogo, não é? Os aparelhos são seus e o cuidado, a limpeza e a manutenção podem interferir diretamente nos resultados.

Tem paciente que chega no consultório reclamando que o aparelho está muito baixo, colocando a culpa no fonoaudiólogo e mundo inteiro, e então depois descobre que é porque deixou a saída de som entupir de cera! Seja cuidadoso com seu aparelho, use um desumidificador para tirar o suor e umidade, e aprenda no consultório a como limpá-los em casa. 

Não está satisfeito? 

Busque sempre ajuda caso não esteja satisfeito com seu atendimento. Hoje o serviço de adaptação e os ajustes de aparelhos auditivos não são obrigatoriamente sempre na mesma empresa ou órgão público onde você os adquiriu. É possível consultar com outros profissionais que trabalham com a mesma marca. Caso seu aparelho ainda esteja na garantia, consulte as condições.

Caso tenha feito alguma reclamação que não tenha sido atendida, entre em contato com a marca pelos canais oficiais no site de cada uma. Reclamar dentro de grupos fechados em redes sociais não tem muito poder de resolução, e pior, pode gerar problemas contra você. 

Ame os seus aparelhos auditivos 

Todas essas dicas acima não terão efeito se você não aprender a amar seus aparelhos, e entender que eles são seus aliados no trabalho, na vida social, nos relacionamentos e nos estudos. Nem sempre é fácil no começo, mas aos poucos nós vemos quantos sons, conversas e oportunidades estávamos perdendo por não ouvir!

Não pense em seus AASI com vergonha, pois assim como óculos, servem para nos ajudar a viver melhor, simples assim. Vamos construir uma relação melhor com o fonoaudiólogo?

*Texto escrito em colaboração com a Fonoaudióloga Isabella Rodrigues.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 38 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

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