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Voz e sotaque de surdo: uma fonoaudióloga explica porque a voz do surdo pode ser diferente

A voz de um(a) surdo(a) pode ter – e em geral, tem – um sotaque um pouco característico. Você já está cansado de ler por aqui que cada caso de surdez é um caso, e não poderia ser diferente quando falamos sobre voz.

É comum ouvirmos perguntas como “De onde você é?” e “De qual país você veio?”. Muitas pessoas, quando conversam com pessoas surdas, acham que estão diante de um estrangeiro. Acontece também de não entenderem o que uma pessoa surda diz e acharem estranho.

Quando os ouvintes se deparam com algo diferente, podem reagir com curiosidade sobre o nosso sotaque e nossa voz de surdo. Na maioria das vezes, sem maldade, demonstrando apenas seu desconhecimento sobre o assunto surdez.

No Grupo Surdos Que Ouvem no Facebook (torne-se membro!), muitas pessoas têm dúvidas sobre as suas vozes e o seu sotaque de surdo. Nós convidamos para uma entrevista a fonoaudióloga Dra. Maysa Ubrig, especialista em voz de surdos pela FMUSP, para nos explicar mais sobre esse assunto.

*Entrevista conduzida por Maria de Menicucci

Como a surdez influencia na qualidade da fala? Eu gostaria que você nos explicasse o que é feedback auditivo.

Maysa Ubrig: A audição é um componente imprescindível para o desenvolvimento e a manutenção da qualidade da voz e da fala. O feedback auditivo é a percepção da nossa própria voz durante o processo de comunicação e ele é também bastante importante para os ajustes na voz que realizamos da infância até a fase adulta.

A surdez prejudica o feedback auditivo e muitos surdos não ouvem a própria voz e apresentam dificuldades no desenvolvimento adequado, “ajustes confortáveis” e no controle da mesma.

De modo geral, o feedback auditivo auxilia nas modificações que realizamos na frequência (“tom”) e intensidade (“volume”) da nossa própria voz; nos oferece informações sobre as condições ambientais que podem afetar a qualidade da produção dos sons, isto é, se devemos articular mais, aumentar ou reduzir a velocidade da fala, de acordo também com o contexto; e por fim, contribui para a produção das referências internas no planejamento motor da fala, isto é, no aprendizado dos sons e como utiliza-los no cotidiano.

Qual é a diferença entre voz e fala?

Maysa Ubrig:  A voz é o som produzido por meio de um fluxo de ar que saí dos pulmões associado a vibração das pregas vocais. Possuímos duas pregas vocais com músculos e mucosa, posicionadas horizontalmente na laringe, estrutura essa que fica no pescoço.

A fala é o som articulado e moldado por estruturas do trato vocal “rosto” como a boca, língua, dentes, nariz, palato mole “campainha” e a faringe, produzindo assim as sílabas e palavras.

A produção da fala e da voz engloba a participação de quatro fases: respiração, fonação (fechamento e vibração das pregas vocais), articulação (produção dos sons de fala) e a ressonância (como o som é ampliado e projetado no espaço / ambiente).

Existe muita diferença na voz entre surdo adulto pré-lingual e pós-lingual?

Maysa Ubrig:  Sim. Há um conceito bastante importante para entendermos as alterações da voz nos surdos. Quando alguém nasce com surdez ou a adquire antes de desenvolver a fala, nós chamamos de surdez pré-lingual.

Neste caso, apresentam vozes com uma pior qualidade, dificultando muitas vezes a compreensão do que é falado por parte do interlocutor (com quem nos comunicamos). Se a surdez for profunda e houver indicação e vontade de usar o implante coclear, as dificuldades na voz e fala são maiores quando o indivíduo é implantado tardiamente, isto é, após os 4 anos de idade ou na fase adulta, pois já passou a fase de desenvolvimento de linguagem e fala, sem feedback auditivo apropriado.

Temos ainda pessoas que desenvolvem a surdez na fase adulta ou quando crianças mais velhas, por exemplo, devido a alguma doença que tenha afetado o ouvido. Nestes casos chamamos de surdez pós-lingual, pois já passaram anteriormente pelo desenvolvimento de linguagem e fala. Mas nessa situação perdem o monitoramento da própria voz também pela falta do feedback auditivo. Ao longo do tempo, com a privação dos sons, a voz pode ser prejudicada, mas ainda sim, tem uma qualidade vocal melhor em relação aos surdos desde pequenos.

Existe um padrão de sotaque de surdo? Ou pode ser variado?

Maysa Ubrig: O padrão da voz muitas vezes é semelhante, mas pode se diferenciar de acordo com algumas questões dependendo do grau da surdez, tempo de privação auditiva anterior ao uso de dispositivo apropriado para cada caso e os ajustes compensatórios de fala desenvolvidos por cada um.

Pode-se observar trocas fonêmicas (dos sons de fala) diferenciadas, uma voz mais fina ou mais grossa do que outra, uma voz mais anasalada ou com falta de nasalidade na produção de alguns sons e assim por diante. Mas há um conceito chamado prosódia, que está relacionado ao ritmo, velocidade, pausas, ênfases e entonação da fala que também chama a atenção na qualidade vocal do surdo, levando a esse conceito de “sotaque”.

O surdo apresenta o que chamamos de alterações no processamento motor da fala, devido à falta de feedback auditivo apropriado, dificuldade na percepção e discriminação auditiva. Muitas vezes a pessoa não utiliza aparelhos de amplificação sonora individual (AASI) ou implante coclear, ou mesmo faz uso de um AASI com acesso restrito aos sons da fala para o grau da surdez, como, por exemplo, na surdez profunda.

Todas essas questões vão impactar na comunicação oral do deficiente auditivo, produzindo a voz e fala com essas “características próprias” que muitos chamam de “sotaque” do surdo.

A alteração da fala pode acontecer em todos os graus de surdez: leve, moderada, severa e profunda?

Maysa Ubrig:  Sim e essa alteração será mais acentuada ou não de acordo com o grau da surdez e a experiência auditiva de cada um.

De modo geral, na surdez leve e/ou moderada ocorrem algumas distorções (o ponto articulatório não é preciso) na produção de alguns fonemas / “sons” como, por exemplo, nos sons fricativos “S”, “X”, “Z”, “J” (sons mais fracos para se perceber auditivamente) e algumas substituições (“trocas”) também.

Na surdez severa e/ou profunda temos ainda maiores dificuldades na fala inclusive na percepção do que é um som com vibração das pregas vocais durante a sua produção (chamamos de “sonoros”), na articulação adequada de fonemas que são produzidos utilizando estruturas mais posteriores da boca, assim como sons do “R”, “k” e “G” por exemplo. Além disso, a inteligibilidade de fala (como nosso ouvinte entende o que falamos) também está mais prejudicada.

Gostaria que você comentasse sobre algumas dúvidas muito comuns no grupo, como essas:

“Estou ficando surdo, vou perder a fala? Vou precisar aprender Libras?”

Maysa Ubrig: Na surdez adquirida de forma abrupta ou progressiva, se o falante apresentar surdez pós-lingual já terá adquirido os “engramas” da fala e voz, isto é, já terá aprendido anteriormente como produzir os fonemas / sons da fala e como colocar sua voz.

Nestes casos perde-se o feedback auditivo, porém o controle da produção de voz e fala pode ser feito por outras pistas cinestésicas (como sentir a voz e os sons de fala por sensações como vibração no pescoço, no rosto e na boca de modo geral).

A partir do momento que o feedback auditivo é restabelecido por meio dos dispositivos disponíveis para cada caso, a pessoa tem possibilidade de voltar a ouvir a sua própria voz e produção de fala.

“Meus filhos estão falando que minha voz está fina e baixa, será que vou ficar muda além de surda?”

Maysa Ubrig: O grau da surdez adquirida, o tempo de privação auditiva e as habilidades individuais de cada um para se monitorar sem a percepção auditiva do som faz diferença também nestes casos. Mudanças na voz podem acontecer ao longo dos anos, ficando mais aguda “fina”, tensa ou mais grave “grossa”, assim como, mais fraca ou com descontrole da intensidade da voz – muito forte “alto”.

Se o indivíduo já for oralizado, não é necessário aprender libras, mas procurar um dispositivo auditivo (AASI ou implantes) apropriado para o seu caso, restabelecerá o feedback auditivo auxiliando na percepção da própria voz novamente!

Em alguns casos, quando o tempo de privação auditiva é muito longo, faz-se necessário fonoterapia para auxiliar no processo de restabelecimento dos ajustes vocais saudáveis e da produção de fala adequada com o novo recurso auditivo.

Todos irão precisar fazer terapia de voz e fala? Ou só o uso do aparelho auditivo pode resolver o problema?

Maysa Ubrig: Com certa frequência observamos algumas características na voz e fala do deficiente auditivo: a voz pode ser fina ou grossa demais para o sexo e a idade;  pode ser hipernasal com a energia do som muito concentrada no nariz ou mesmo hiponasal, com pouca nasalidade, como se o indivíduo estivesse constantemente falando com o nariz entupido; a projeção da voz pode não ser adequada, caracterizando uma voz fraca demais ou então muito forte, quando o indivíduo não consegue controlar a intensidade vocal de uma forma regular; a articulação e a velocidade de fala também podem estar alteradas e verificamos com frequência dificuldades na correta produção dos sons da fala.

Tudo isso, pela falta do feedback auditivo. Mas essas características vão depender de uma série de fatores: do momento da instalação da dificuldade auditiva, do grau da deficiência auditiva e o quanto este indivíduo foi estimulado em relação a percepção dos sons ao longo da vida.

Os dispositivos auditivos (AASI e implante coclear) auxiliam ou restabelecem a percepção auditiva e o acesso aos sons da fala.

No entanto, quando o surdo permaneceu com esse padrão de fala e voz por muito tempo é necessário trabalhar por meio da fonoterapia específica para essas questões, novos ajustes vocais e melhorar o padrão de comunicação de modo geral.

Uma pessoa surda profunda que fizer o implante coclear consegue melhorar a voz e dicção por si mesma?

Maysa Ubrig: Conforme conversamos nas questões anteriores, se a surdez for pré-lingual as dificuldades são maiores e a fonoterapia vai auxiliar o surdo a adquirir novos “engramas” / novas formas, isto é, aprender a monitorar a produção da voz e da fala pela percepção auditiva do som e ajudar na modificação dos mesmos!

O intuito é trabalhar os músculos das pregas vocais e a posição da laringe no pescoço (que pode estar relacionado, por exemplo, a uma voz mais aguda “fina” e com tensão “força”); o direcionamento do fluxo de ar para fora da boca durante a fala (necessário na produção dos sons e o surdo por não ouvir esse escape de ar muitas vezes não o faz de forma apropriada, distorcendo o som); trabalhamos também a diferença de um som com vibração das pregas vocais e sem vibração (no português Brasileiro temos o que chamamos de sons “surdos” e “sonoros” porém com o mesmo ponto de articulação na boca, exemplo: P e B, S e Z e muitos outros pares de fonemas; e a voz com uma melhor ressonância possível para cada caso, usando de forma equilibrada todas as estruturas do rosto na projeção do som. Nestes casos, se a pessoa quiser melhor a qualidade do seu padrão de comunicação, será necessário abordar os conceitos acima com ajuda especializada!

No caso das pessoas com surdez pós-lingual não necessariamente precisarão de terapia de voz ou fala por já possuírem memória auditiva e da produção dos sons. No entanto, se o tempo de privação auditiva for muito longo e o paciente apresentar dificuldades mesmo com o retorno do feedback auditivo a fonoterapia também pode auxiliar neste processo.

As crianças usuárias de implante coclear podem ter voz de qualidade igual a de um ouvinte?

Maysa Ubrig: A qualidade vocal pode ser bastante semelhante a de um ouvinte desde que o implante seja feito de forma precoce. Alguns estudos sugerem que crianças implantadas por volta de 1 ano de idade ou mesmo durante o processo de desenvolvimento de linguagem e fala, podem ter vozes com qualidade muito semelhante a crianças ouvintes ao redor de 8 anos, juntamente com reabilitação auditiva e a estimulação da fala.

Um surdo oralizado pré-lingual adulto usuário de IC consegue eliminar o sotaque de surdo através da terapia de voz e fala?

 Maysa Ubrig: Essa pergunta depende em que momento o implante coclear foi realizado. Se a pessoa teve por exemplo 30 anos de privação auditiva e apresenta surdez profunda, temos visto que é difícil eliminar o “sotaque”, no entanto, também temos observado por meio de re-avaliações objetivas da voz e da fala utilizando alguns recursos como a espectrografia (“foto da voz”) e extração de medidas acústicas de fala, após o protocolo de fonoterapia, que é possível melhorar diversos aspectos (cada caso sendo analisado em particular).

No protocolo de terapia de voz e fala específica para usuários de implante coclear (Ubrig et al., 2018; 2019 e 2020) temos diversos aspectos da comunicação sendo trabalhados: respiração, fonação, ressonância, articulação dos sons de fala e prosódia – todos esses aspectos nós comentamos no início desta entrevista. Quanto antes o surdo tiver acesso a um dispositivo auditivo apropriado para seu caso e realizar reabilitação auditiva e fonoterapia para auxiliar nos novos ajustes vocais, com certeza teremos melhores resultados!

O sotaque de surdo pode ser motivo de vergonha? Qual é o seu conselho para essas pessoas que têm vergonha de sua voz?

Maysa Ubrig: Com absoluta certeza o sotaque do surdo NUNCA deve ser motivo de vergonha! Cada um de nós temos nossas dificuldades e por diversas razões. Quando alguém questiona se a pessoa com surdez é estrangeira (isso é muito relatado nas consultas), sugiro dizer que não, e que sua forma de falar vem da falta de privação auditiva causada pela surdez.

Muitos ouvintes não possuem contato próximo com deficientes auditivos e realmente podem ter essa dúvida. Porém, se essa questão incomodar a pessoa com surdez e ela tiver oportunidade e interesse em melhorar a inteligibilidade de sua fala e o padrão de comunicação global, temos profissionais capacitados para isso! A Fonoaudiologia e a fonoterapia específica para esses casos pode ajudar no aprendizado, considerando-se sempre o limite terapêutico para cada caso.

 

Entrevistada:

  • Dra. Maysa Ubrig
  • Fonoaudióloga desde 2001 pela PUC-SP.
  • Pós-graduação em Audiologia Educacional pela PUC-SP.
  • Pós-graduação em Fonoaudiologia Clínica pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.
  • Especialista em Voz pelo Centro de Estudos da Voz (CEV) e Conselho Federal de Fonoaudiologia (CFFa).
  • Doutorado e Mestrado em Ciências pelo Programa de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina da USP
Sobre

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 38 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

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