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7 coisas que você não sabe sobre a LIBRAS (língua brasileira de sinais)

A Língua Brasileira de Sinais, também conhecida como Libras, talvez seja aquilo que mais faz os ouvintes se lembrarem dos surdos. Quando o presidente fala na TV, lá está a intérprete de Libras fazendo sinais e expressões faciais que traduzem a fala dele.

Porém, é preciso perguntar: até que ponto a Libras realmente faz parte da vida dos surdos do Brasil?

E quando falamos em ‘surdos do Brasil’, precisamos ter noção que essa palavra engloba todas os cidadãos brasileiros com algum grau de surdez (leve, moderado, severo ou profundo), sejam elas surdas oralizadas, sinalizadas ou bilíngues.

Elencamos sete coisas que muito possivelmente você não sabe sobre a língua de sinais brasileira com o objetivo de desmitificar o assunto e chamar atenção para a diversidade que existe na deficiência auditiva.

  1. Libras não é português em gestos

A Língua Brasileira de Sinais é uma língua autônoma. Ele pertence à “Família Francesa” das línguas de sinais, mas isso não quer dizer também que seja igual à Língua Francesa de Sinais. Cada país tem a sua língua de sinais própria.

Aliás, nós, brasileiros, falamos português, e sabemos que o português de Portugal é um pouco diferente do nosso, especialmente na fala. A Língua Brasileira de Sinais também é diferente de sua correspondente portuguesa, que se chama “Língua Gestual Portuguesa”.

  1. Libras não é “a segunda língua oficial do Brasil”

Algumas pessoas dizem que ela é “a segunda língua oficial do Brasil” porque o governo reconheceu-a como meio de expressão. Porém, a Constituição do Brasil não foi emendada: no Artigo XIII, a única língua mencionada como “língua oficial” do país é o português.

O “reconhecimento oficial” da Libras significa que ela pode ser usada em circunstâncias oficiais: por exemplo, uma pessoa que só domine a Libras pode solicitar um intérprete para fazer uma prova de concurso público, assim como ter mais tempo de prova. 

Além disso, a Libras NÃO substitui a modalidade escrita da língua portuguesa – basta ler o Parágrafo Único da própria Lei que trata dissoEste post, escrito por uma intérprete de Libras, explica em detalhes o assunto.

  1. É certo dizer que a Libras é a “língua natural dos surdos”?

Mais uma vez: a palavra “surdos” engloba uma imensa diversidade. Não existe um “tipo” único de surdo nem no Brasil, nem no resto do mundo. Toda vez que você lê ou ouve a palavra “surdos” precisa estar ciente desta diversidade. Afirmar qualquer coisa como “todo surdo usa isso, todo surdo faz aquilo” possui o mesmo grau de irresponsabilidade e equívoco de afirmar algo como “todo negro faz isso, toda mulher faz aquilo“.

Pensou “surdos”, lembrou que existem surdos que ouvem, surdos que não ouvem, surdos que usam Libras, surdos que não usam Libras, surdos que usam tecnologias auditivas e também usam Libras… é diversidade que não acaba mais! 🙂

Dito isso, vamos lá: a língua natural de uma criança é aquela usada pela família na qual ela está inserida. A competência da família em determinada língua é fundamental para a fluência da criança e para aquisição das mais altas habilidades linguísticas e cognitivas. Quanto maior a fluência da família numa determinada língua, melhor ela consegue passar isso para a criança.

Isso significa que a língua de sinais é a língua natural de um bebê ou criança surda caso ele seja filho de pais surdos usuários desta língua. Quando um bebê nasce surdo numa família de ouvintes, a língua de sinais não será sua primeira língua, pelos motivos explicados acima.

Caso este bebê não consiga acesso precoce aos sons (por decisão da família de não optar pela reabilitação ou quando ela não é capaz de ajudar) tanto a criança quanto a família deverão aprender uma língua que não seja transmitida pela forma auditiva, ou seja, a Libras. Este bebê vai precisar tanto que a família aprenda e se torne fluente na Libras quanto de contato com a comunidade surda usuária desta língua.

Resumindo: a Libras pode ser a língua natural de alguns surdos, mas não é, nunca foi e jamais será a língua natural de todos os surdos. Lembrando mais uma vez que a surdez tem graus: leve, moderado, severo e profundo.

  1. Nem todo surdo usa Libras

Nem todo surdo nasce surdo. As pessoas podem perder a audição, aos poucos ou subitamente, em qualquer momento da vida. Elas podem apenas uma parte da audição. Podem falar português perfeitamente. E, é claro, podem optar pela reabilitação auditiva.

Um surdo que tenha perdido a audição depois de adquirir o português pode optar por aparelhos auditivos ou por implantes cocleares,  ou não usar nada disso e ainda assim também não usar Libras. Essa é a realidade de milhões de pessoas no mundo inteiro – segundo a Organização Mundial de Saúde, são 466 milhões de pessoas com algum grau de surdez incapacitante ao redor do planeta. Todo ano, a OMS faz uma extensa campanha de conscientização para alertar sobre os prejuízos da perda auditiva não tratada.

A reabilitação auditiva não impede ninguém de aprender Libras, caso queira ou precise. As pessoas que acreditam que todo surdo usa Libras são aquelas que não possuem informações adequadas sobre a diversidade da surdez.

  1. Nem todo surdo pertence à cultura surda

Algumas circunstâncias favoreceram o surgimento de uma “cultura surda” e de uma “identidade surda”. Antigamente, sem ajuda da tecnologia e dos recursos de acessibilidade, era fácil que os surdos ficassem apartados da sociedade. Alguns passaram até mesmo a considerar a fala e a escuta “anormais” e a repudiar os surdos que não usavam língua de sinais e optavam pela oralização e pelas posteriores tecnologias auditivas.

Não questionamos o direito a uma cultura surda ou a uma identidade surda, muito pelo contrário. Somos fervorosos defensores das escolhas individuais de cada um. Apenas temos a obrigação de lembrar que a palavra “surdo”, assim, fica com dois sentidos: o primeiro indica uma pessoa que tem algum grau de surdez, e o segundo indica uma pessoa que se identifica com uma certa cultura.

Nem todas as pessoas que têm deficiência auditiva se identificam com a “cultura surda”. Como não há estatísticas oficiais, e como há um grande mercado de aparelhos auditivos (cada capital e cidade brasileira possui incontáveis lojas de aparelhos auditivos), talvez não seja arriscado dizer que a maior parte das pessoas com dificuldades para ouvir não só não usa Libras como também não se identifica com a “cultura surda”.

  1. Do que acessibilidade precisam os surdos que não usam Libras?

Muitos surdos que optaram pela reabilitação auditiva terão resultados excelentes, mas ainda assim precisarão de ferramentas de acessibilidade.

Um intérprete de Libras em vídeos ou Lives não tem serventia alguma para a maioria dos surdos que usam aparelhos auditivos e implantes cocleares, uma vez que não usam esta língua. O recurso de acessibilidade necessário para estas pessoas são as LEGENDAS.  Os surdos que não usam Libras e não se beneficiam da reabilitação auditiva também precisam de legendas!

Outro recurso de acessibilidade para surdos que ouvem, ainda pouco conhecido no Brasil, mas extensamente usado no exterior, é o ARO MAGNÉTICO. O aro magnético ajuda muito no entendimento da fala humana em locais com muito ruído quando a pessoa usa aparelho auditivo ou implante coclear.

Já a janela de Libras é necessária para os surdos que usam Libras.

Resumindo: apenas a janela de Libras não torna um vídeo ou live “acessível a surdos”. Sem legendas, boa parte das pessoas surdas fica excluída, sem acessibilidade. E Libras NÃO substitui o português escrito.

  1. Libras obrigatória para todos?

Existe um Projeto de Lei em análise no Senado que ignora a diversidade da surdez, colocando no mesmo saco todas as pessoas surdas e fazendo a opinião pública acreditar que as necessidades de acessibilidade e de comunicação de todos os surdos se resumem a língua de sinais. Conforme já explicamos aqui: a surdez tem graus, nem todo surdo usa libras e a libras é a língua natural de ALGUNS surdos, não de todos.

Este PL  quer tornar obrigatório o ensino de Libras a todos os estudantes, tenham eles deficiência auditiva ou não.

Que fique bem claro: não temos nada contra o aprendizado de Libras para aqueles que escolheram esse caminho ou que não têm outra opção. Isso é simples de entender e requer um nível básico de interpretação de texto.

Porém, o lobby que tenta fazer a opinião pública acreditar que esse é o único caminho, ignorando os milhões de surdos que ouvem e que são oralizados, precisa ser combatido através de INFORMAÇÃO DE QUALIDADE. Este é o objetivo deste post e de campanhas de conscientização que promovemos.

A diversidade da surdez não pode ser ignorada. Como cidadãos brasileiros surdos, precisamos ter acesso igualitário à construção de políticas públicas e uso de verbas federais, estaduais e municipais no que diz respeito à acessibilidade e educação para pessoas com deficiência auditiva.

Acesse a página da Associação Nacional de Surdos Oralizados – ANASO – e informe-se a fundo sobre este assunto.

Sobre

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 38 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

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