Não se sabe exatamente o que causou minha surdez. Não demorou muito para meus pais perceberem que eu tinha deficiencia auditiva pois eu não respondia quando era chamada e não me assustava com barulhos. Eu me chamo Eduarda, tenho surdez bilateral e uso dois implantes cocleares. Usei aparelhos auditivos durante 5 anos, na época foi muito útil, consegui ser alfabetizada como uma criança normal. Em 2008 minha audição piorou e o meu otorrino que na época era o Dr. Sady Selaimen da Costa achou que estava na hora de procurar saber se eu era candidata para o Implante Coclear, e então me indicou o Dr. Celso Dalligna no Hospital Moinhos de Vento também em Porto Alegre/RS. Marcamos uma consulta e fomos a Porto Alegre, fiz alguns exames que apontaram que eu era candidata ao IC, decidimos fazer o quanto antes.
Eu tinha 8 anos na primeira cirurgia do implante e estava na 3ª serie do ensino fundamental. Minha cirurgia foi tranquila apesar da ansiedade e do medo de dar errado, mas como fiz o implante no ouvido esquerdo que não tinha memória auditiva não me adaptei ao IC, ou seja, perdi a audição do ouvido esquerdo. Em 2010 decidimos fazer no ouvido direito para ver no que daria. Novamente a cirurgia ocorreu tranquilamente, estava mais tranquila do que a primeira cirurgia porém dessa vez me adaptei rapidamente ao IC, tanto que hoje não sei viver mais sem. Hoje tenho 15 anos, e estou cursando o 1º ano do Ensino Médio. Sou surda oralizada, não uso Libras, apesar de saber algumas coisas e ter muito interesse em aprender. Fiz a ativação com a fonoaudióloga Luciana Cigana uns 15 dias depois. E depois segui fazendo acompanhamento com a minha fono da minha cidade Alegrete/RS, Elaine Rosso Viana. A emoção de voltar a ouvir foi incrível, descobrir sons que nunca havia escutado, foi uma sensação maravilhosa, foi como se eu tivesse nascido de novo.
Não conseguia conter a ansiedade para finalmente escutar. Ouvir minha mãe chamando o meu nome sem a ajuda de leitura labial foi emocionante, e foi automático, estava falando com a fono e quando ouvi minha mãe respondi rapidamente. O barulho da chuva, o barulho da água caindo.. sons que gosto muito e que me fascinaram quando comecei a escuta-los. Quando voltei para a escola, estranhei muito. Desde que entrei na escola, sempre sentei na 1ª carteira para que o professor pudesse ler seus lábios. Conversas em grupo sempre foram tormento, pois não conseguia acompanhar direito. Nos primeiros dias de adaptação de IC, qualquer lugar barulhento que eu ia, sentia uma vontade enorme de tirar os aparelhos e quando tirava, era um alivio.
Nunca gostei de locais muito barulhentos, apesar de gostar de shoppings, o barulho até hoje me incomoda, salões de beleza, mercados.. E também em salas de aulas muito barulhentas. Em casa, a minha comunicação com meus pais melhorou muito, minha mãe sempre usou um tom mais alto, a TV estava sempre em volume altíssimo, músicas em volumes que hoje me pergunto como conseguia entender alguma coisa com o volume daquele jeito, e também comecei a falar com tom de voz adequada.
Quando coloquei o IC, aqueles famosos “hã?” diminuíram muito e consegui ouvir músicas tranquilamente além de acompanhar conversas. Esse ano fui para a Disney, e todo santo dia eu olhava para o IC e falava: “o que seria de mim sem você?” e viajar sozinha foi tranquilo, consegui me comunicar no idioma americano tranquilamente, e com as minhas colegas de quarto também. Apesar de não conseguir escutar alto falantes em aeroportos, e aviões, sempre tinha alguém que me ajudava, e quando não entendia o que era dito, perguntava. Sofri muito preconceito, em cidade pequena as pessoas não possuem conhecimentos e não estão habituadas ao novo e ao diferente e todos os lugares a quais frequentava e frequento ainda, sou a única deficiente auditiva. Mas também encontrei pessoas maravilhosas ao longo da minha vida, que me respeitaram e me fizeram perceber que a deficiência está nos olhos de quem vê. Aprendi a levar a opinião dos outros e as piadinhas como algo insignificante ou simplesmente aprendi a deixar de lado.
Fui criada 100% normal, meus pais sempre foram compreensivos e nunca tentaram esconder a minha surdez, me preparam para os maiores desafios da vida, me criaram da melhor forma possível, nunca deixaram me faltar nada, sempre tive o que mais precisava: amor. E eu sou eternamente grata por tudo o que fizeram por mim e por me ensinarem que a vida é uma caixinha de surpresas, só se da bem quem não se assusta com o que tem dentro. A vida começa quando você descobre o valor que você tem e quando você descobre o que você realmente é e o que realmente importa pra você. Aprendi a não deixar a minha deficiência me definir. Sou deficiente auditiva com muito orgulho, a surdez se tornou parte de mim e foi graças a ela que tornei a pessoa que sou hoje, e aprendi coisas que não teria aprendido sem as dificuldades que passei.
Logo após colocar o implante, eu tinha muita vergonha de usá-lo por ser a única deficiente auditiva da minha escola. Já passei por muitas coisas relacionadas a isso, mas com o tempo fui me acostumando, fui percebendo que aqueles olhares diretamente para mim não significavam coisas ruins, muitas vezes era curiosidade. Imaginem, quando minha bisavó era adolescente não existiam essas modernidades todas e devemos pensar nisso. O aparelho pode ser grande, pode não ser tão bonito, mas ele ajuda a ouvir e isso é um privilégio enorme. Ouvir é tão bom.
Eu aprendi a não me deixar levar por motivos fúteis, porque a vida passa muito rápida e quando você parar para pensar, pode ser tarde demais. Aprendi que a vida é como um carro, você é o piloto e você escolhe por qual caminho vai seguir. Você pode agradecer por ter o luxo de uma escolha e aproveitar o máximo dela ou, você pode escolher se isolar e não se dar ao prazer dessa oportunidade. Você pode escolher entre ser feliz ou não. Eu escolhi ser feliz e se eu puder dar um conselho: aproveitem essa chance, corram atrás, tenham o que é de vocês e não desistam, a vida é uma só e vocês devem ser felizes. “Ouvir é natural do ser humano, mas para quem tem deficiência auditiva, é um presente que a medicina nos dá, através da melhor tecnologia já inventada: O implante coclear.” Agradeço a Graeme Clark, inventor do implante coclear. Você trouxe pessoas do mundo do silêncio para o mundo do som e ajudou pessoas do mundo todo. A minha eterna gratidão a todos os profissionais e pessoas maravilhosas que encontrei ao longo da minha vida. E se eu consegui vocês conseguem também. No final sempre dou risada e nunca perco essa minha mania de ter fé na vida.
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