Acessibilidade Deficiência Auditiva

A preferência nas filas especiais também é dos surdos

Foto: Shutterstock

*Por Antônio Diogo de Salles, advogado

 

“Nós, surdos, temos direito à preferência estabelecida em lei para os deficientes ou há razão para que as pessoas sem deficiência protestem por vindicarmos tal benefício? Em minha experiência de surdo pós lingual o que tenho sentido é que a maioria das pessoas aptas respeita as pessoas com deficiência apenas se esta estiver evidenciada. Ou seja, para a maioria só é deficiente a pessoa que possua limitações físicas de movimento e com dificuldades de visão quando o uso de equipamentos (não são apenas próteses) permite que se identifique a limitação.

Inaceitável este remate!

A melhor definição de deficiência que conheço está na segunda parte do artigo 1º da CONVENÇÃO SOBRE OS DIREITOS DAS PESSOAS COM EFICIÊNCIA . Diz: “Pessoas com deficiência são aquelas que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, os quais, em interação om diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdades de condições com as demais pessoas”.

Logo, são deficientes também aqueles que não tenham evidenciada sua deficiência. À supressão das barreiras que podem obstruir a participação de todos os portadores de deficiência dá-se o nome de acessibilidade termo que, aliás, está bem em voga atualmente.

Acessibilidade, como se extrai do art. 9º da Convenção referida, é a possibilidade de viver de forma independente e participar plenamente de todos os aspectos da vida, tendo assegurado o acesso, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas, ao meio físico, ao transporte, à informação e  omunicação, inclusive aos sistemas e tecnologias da informação e comunicação, bem como a outros serviços e instalações abertos ao público ou de uso público, tanto na zona urbana como na rural, com a identificação e a eliminação de obstáculos e barreiras em edifícios, rodovias, meios de transporte e outras instalações internas e externas, inclusive escolas, residências, instalações médicas e local de trabalho e em informações, comunicações e outros serviços,  nclusive serviços eletrônicos e serviços de emergência.

Confusão

Pois bem, em vários dos diplomas legais destinados a garantir a acessibilidade ou em cartazes indicando a existência desse benefício usa-se a expressão  “preferência” e do entendimento desta vem muita confusão outorgando-se às pessoas sem deficiência o direito de cobrar quem esteja postulando a preferência e não exiba seu aleijão; como os surdos, por exemplo.

O móvel da cobrança é que as pessoas entendem que a preferência significa somente passar na frente dos outros e bem assim que o cartaz que indica o benefício, de regra, estampa somente o desenho do velho, da grávida e do portador de muletas.

Estão equivocados. Preferência se referindo deficiência não é isso e não será a iluminura que dirá quem são osbeneficiários.  A preferência a que aludem as diversas leis é a demonstração de respeito e consideração a uma em relação a outras pessoas para nivelar o tratamento superando a desigualdade.

Aquinhoar desigualmente aos desiguais, na medida em que se desigualam como disse Rui em sua “Oração aos Moços” ou auxiliar para superar as barreiras de modo a agir em condições de igualdade com os demais como vem do diploma internacional citado.

Preferência, portanto, não é passar na frente ou ser atendido antes e sim ser atendido com presteza, educação, compreensão por alguém capacitado a tanto: que leia o que o mudo escreve, que fale claro e devagar para o surdo faça leitura labial, que colha a identificação do maneta, que se incline para o cadeirante oferecendo-lhe meios para escrever, ou que guie e oriente o cego.

A expressão preferência utilizada em tantos estabelecimentos resulta da acessibilidade ou, em outros termos, a materializa. É, portanto, de todos os  deficientes. Logo, à pergunta inicial respondo: sim temos, todos os surdos, direito a essa preferência.”

67 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

22 Comentários

  • Oi Paula, eu também tenho deficiência auditiva, uso aparelho e sempre tive vergonha de usar a fila preferencial. Até porque a minha perda não é tão severa mas mesmo assim denho um pouco de dificuldades de ouvir mesmo com aparelhos. Realmente é meio constrangedor usar a fila sendo que não tenho nenhuma deficiência visível. Deus sabe o que vão pensar se me verem em uma fila preferencial.

  • No Brasil a cada 4 pessoa 1 tem alguma deficiência, ainda que seja um dedo a menos, como o nosso ex-presidente. Se todos pleitearem a fila preferencial por conta de alguma deficiência, provavelmente os que realmente precisam serão prejudicados. A preferência foi instituída para aquelas pessoas que não podem ficar em pé por muito tempo, seja em razão de ser idoso, pessoa com algum problema de locomoção, gestante e a pessoa com criança de colo (não criança no colo), pois crianças não têm paciência de ficar muito tempo esperando. Nem todos os benefícios para deficientes se aplicam a todos, como elevadores especiais para cadeirantes que não podem subir escadas, braile em avisos indicadores e em embalagens para os cegos, e no caso dos surdos, os telefones públicos com teclado. Tal recurso é algo prioritário aos surdos.

    • Acredito que a melhor forma de atender uma pessoa surda ou deficiente auditivo por uma pessoa que sabe falar em sinais e libras para dar dignidade e compreensão conforme suas necessidades

  • ola. gostaria de sanar uma duvida. que pra um leigo como eu não ficou claro. sou usuario de protese auditiva. com perca bilateral. ai vem a minha duvida! tenho preferência em filas? tenho de ter algum documento em mãos? ou apenas a protesr ja o faz por si só?

  • eu queri saber se eu estiver com minha irma que tem deficiencia mental posso ir para fila de prioritario

    muito agradeçida

  • Interessante o texto. Achei oportuno também o comentário do Eduardo.

    Diz o decreto 5296/2004:
    “b) deficiência auditiva: perda bilateral, parcial ou total, de quarenta e um decibéis (dB) ou mais, aferida por audiograma nas freqüências de 500Hz, 1.000Hz, 2.000Hz e 3.000Hz”

    Pelo que entendo desse texto e me corrijam se eu estiver errado, todas as pessoas com deficiencia auditiva que não ouçam sons mais baixos que 41 decibél são enquadradas por essa lei, correto? Ou seja, se a audiometria tiver a sua linha abaixo do 40 db para os dois ouvidos, o Estado faz ai uma separação, através desse Decreto, entre os deficientes auditivos e surdos oralizados ou sinalizados!

    😉

  • Essa questão de só se respeitar a deficiência que “está na cara” é complicada. Uma vez, fui comprar ingressos para mim e para minha companheira. A vendedora telefonou para o chefe dela e falou a seguinte pérola:
    “Tem uma moça aqui que PARECE SER deficiente física e um rapaz que DIZ QUE É deficiente visual, o que eu faço?”
    Conforme a orientação do tal chefe, eu paguei inteira e ela pagou meia. Sem mais comentários……

  • Muito bom o texto, explicativo e esclarecedor. No entanto, eu sempre ressalto o bom senso, ou seja, se eu realmente vou encontrar dificuldades para me comunicar, caso contrário vou normalmente na comum.
    No meu caso específico nunca usei a preferencial, nunca senti essa necessidade, mas sei também que muitos surdos precisam desse atendimento diferenciado.
    Ah! e para aqueles que recebem olhar “torto” nessas horas, deem o sorrisão mais lindo do mundo e continuem na fila. 😉

  • Muitas vezes, eu me coloco na fila das pessoas”deficientes”, propositalmente para poder explicar que temos sim direito a estar nessa fila.
    Como def. auditivos, supomos no mínimo que quem atende deve estar preparado p/ as nossas possíveis dificuldades.
    Parabéns pelo texto.
    Abços
    Carminda

  • Pessoal, eu sempre utilizo a fila preferencial sem problemas. Afinal, é meu direito, porque sou surda oralizada.
    Se questionam, eu retruco,aí o povo fica emudece. É só falar com sabedoria e com educação.
    Beijos a todos.

  • Ótimo o texto, bem explicativo. O problema é que parece que nem os próprios detentores do direito do uso do atendimento preferencial (deficientes, idosos, gestantes) sabem o verdadeiro valor dele. Já presenciei em bancos várias vezes idosos pegando senha para fila preferencial e para fila normal, esperando qual chamasse primeiro pra ele ir. E assim provavelmente fazem os deficientes. Ou seja, parece que o que importa é ser atendido rápido. Que se dane o atendimento diferenciado e bom, desde que me atendam rápido.

  • Você tem muito talento para escrever os textos, parabéns!

    Nesta semana eu fui na fila preferêncial de um supermercado, eu estava tentando entrar na fila com o carrinho e do nada um homem que estava “mancando” tentou entrar na minha frente, mas não deixei, fiz a barreira com o meu corpo e o carrinho. O moço estava fingindo que estava mancando, ele estava andando normal quando passou na fila do caixa do lado. As operadoras dos caixas sempre fazem pergunta do porquê eu estou na fila, aí tenho de falar que sou surda. E elas me tratam super bem, são bem compreensivas e também acham super legal o fato de eu me comunicar com elas por voz e leitura labial.

    • Ah sim, esqueci de dizer mais de outro caso envolvendo a fila especial.

      Eu estava no outro supermercado, o Carrefour, na fila preferencial.

      Eu estava aguardando na fila, no meu lugar, e do nada uma pessoa mais velha tenta furar na minha frente na fila e começou a me encarar. E eu falei: “estou na fila porque sou surda” e esta pessoa respondeu: “eu estou na fila porque sou idosa”.

      Tem gente que é muito grossa e não entende das coisas.

      Também teve outra situação constrangedora no mesmo supermercado, eu tava na fila, e do nada a operadora do caixa me olha de longe e gritou: “Você está grávida??”

      Eu não escutei, nem notei que ela tava falando comigo. A minha mãe que escutou e explicou pro caixa: “ela é surda”. Sinceramente estes indivídos nunca pararam para pensar que existem pessoas como a gente…

  • Ótimo texto.Só vejo o sinal de preferência para surdos em cartazes fora do Brasil ,por que aqui não tem??

    Eu faço uso das filas preferenciais, principalmente em bancos, porque em primeiro lugar eu não domino a leitura labial, e a maioria do atendimento é pelo vidro.Já tentei ir nas filas “normais”, e não conseguia ouvir nem ler os lábios, resultado, gritaria das pessoas atrás de mim nas filas.Isso mais de uma vez.O que me deixou nervosa e angustiada.
    Depois li algo parecido com esse texto, e comecei a ir nas preferencias, e não tive mais problemas os atendentes falam mais devagar.E os outros quando me olham “torto”eu ignoro.E ponto.
    Bjo

  • Excelente texto! Bem informativo. Realmente a fila do banco exclusiva para deficiente sempre foi mal informada e constrangedora. O pior é que na sinalizaçã não consta nenhuma identificação de portador de deficiência auditiva. Parabéns! Abs, Pedro.

  • De fato os deficientes surdos são, teoricamente e perante a lei, tão deficientes como qualquer outro deficiente. Mas existe algo, chamado bom senso, que muitas pessoas desconhecem. Esta discriminação positiva para idosos, gestantes, deficientes e pessoas com crianças de colo tem a ver exclusivamente com o esforço físico acrescido que estes grupos de pessoas têm que fazer para aceder aos vários serviços e que manifestamente não é o caso de quem é surdo. É este tipo de reindivicações absurdas que fazem com que a sociedade em geral não respeite como devia as pessoas portadoras de deficiência.

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