Crônicas da Surdez

SURDEZ a deficiência invisível sob a ótica de uma surda que ouve

Conviver com uma deficiência invisível como a surdez envolve enfrentar uma série de desafios. Quem nunca ouviu “Você nem tem cara de surdo!”, “Nem parece que é surdo, não usa Libras” ou “É muito bonito para ser surdo!”, como se a surdez tivesse que ter uma característica externa que pudesse ser vista e reconhecida por qualquer um. Aliás, a surdez é invisível, mas também é a deficiência mais heterogênea que existe.

IBGE surdez surdos libras

A diversidade da surdez é gigante – e, se você é novato no assunto, tenho dois dados importantes para te passar. Primeiro, há 1,5 bilhão de pessoas com algum grau de surdez no mundo. Segundo, a maioria absoluta das pessoas com algum grau de surdez no Brasil e no mundo NÃO usa língua de sinais.  O capacitismo é tão enraizado no senso comum que as pessoas esperam que o surdo seja um coitadinho. Isso é deprimente.

UPDATE: Vem pro CLUBE dos Surdos Que Ouvem interagir e aprender nos nossos maravilhosos grupos de apoio no WhatsApp e no Facebook.

grupo de surdos que ouvem deficiência auditiva surdez

A Surdez é a deficiência invisível

Um dos maiores desafios da surdez é ser uma deficiência invisível. Nem sempre os aparelhos auditivos ou implantes cocleares conseguem denunciar a nossa deficiência. As pessoas custam a acreditar que somos surdos porque falamos! Acham que surdo é só quem não ouve nada, que surdo não fala, que só usa LIBRAS para se comunicar. ‘Surdo que fala? Só pode ser golpe!’

Alguns até duvidam da surdez e querem provas de que realmente somos surdos. “Ah, usa aparelho auditivo? E com ele, você escuta até aquele mínimo som? Não é possível, só pode estar me enganando!”. 

Leia o post As Injustiças Sofridas por quem tem Deficiência Auditiva.

A deficiência invisível

A surdez, por ser uma deficiência invisível, não é compreendida pela sociedade pelo desconhecimento geral da população sobre surdez. O governo, os vendedores de tecnologias de acessibilidade “para surdos” e as frentes radicais da comunidade surda sinalizante fazem questão de perpetuar o capacitismo com mentiras do tipo: todo surdo usa Libras, todo surdo é mudo, a maioria dos surdos é analfabeta e por aí vai. Eles ignoram os dados oficiais do IBGE e da OMS sobre a surdez no Brasil e no mundo em benefício próprio. E, assim, prejudicam milhões de pessoas, sem a menor dor na consciência.

As pessoas não conseguem imaginar ou mensurar os tipos e níveis de dificuldades pelas quais passamos em nossa comunicação no dia-a-dia. Falar ao telefone, entender a fala humana em ambientes ruidosos, todas as bocas cobertas por máscaras, entender uma simples conversa com várias pessoas, participar de reuniões do trabalho, falta de acesso ao mercado de trabalho e falta de legendas são apenas algumas delas.

Os outros não fazem a mínima ideia da forma como ouvimos com os aparelhos auditivos. Pensam que um aparelho auditivo “cura” a surdez e resolve todos os nossos problemas, o que não poderia estar mais longe da verdade. Não podemos culpar ninguém pela desinformação em relação à surdez, afinal ninguém nasce sabendo e pouco se fala sobre deficiências em 2022.

Precisamos assumir o nosso papel de informar e educar as pessoas. Expor a nossa deficiência invisível e os nossos problemas. Se não sairmos do armário da surdez, como as pessoas aprenderão sobre nós e nossas necesidades de acessibilidade?

Como resolver?

Se você tem deficiência auditiva, precisa começar a se posicionar, fiscalizar e ser um cidadão atuante em tudo o que diz respeito à sua deficiência invisível. Sem fazer isso, nada vai mudar. Esbravejar em redes sociais não adianta nada. Aproveite que o Portal da Transparência hoje é uma realidade e o Gov.Br nos permite entrar em contato com qualquer órgão público brasileiro com direito a número de protocolo. Exerça a sua cidadania. Por exemplo: para reclamar da fila do SUS para receber um aparelho auditivo faça uma denúncia na Ouvidoria do Ministério da Saúde.

Exponha as suas dificuldades quando for preciso e apresente as soluções para cada problema. Se você for mal atendido em algum estabelecimento, tenha paciência com a ignorância da pessoa que lhe atender. Diga calmamente que não entendeu a fala por conta da dificuldade para ouvir, explique como deve falar com você, de frente e sem tapar os lábios, sem falar depressa ou nem devagar demais. Ensine! Não perca as oportunidades de mudar o mundo para as pessoas com deficiência auditiva. Pratique a autoadvocacia.

Por conta da invisibilidade da nossa deficiência, precisamos nos expor para sermos vistos! Precisamos falar de nós para que o mundo nos conheça, contar as nossas histórias, glamourizar e mostrar as nossas próteses auditivas ao invés de escondê-las! Precisamos ter paciência com a ignorância das pessoas e ensiná-las sobre a surdez.

E por último

Sua deficiência invisível será sua eterna companheira durante a vida. Abrace-a e assuma a sua responsabilidade na construção das mudanças, na luta anti-capacitista, na modificação de leis velhas e inúteis, na luta por acessibilidade e no compartilhamento de informações sobre a diversidade da surdez. O que não é visto nunca é lembrado. Portanto, mãos à obra, porque ninguém fará isso por nós além de nós mesmos!

CURSOS SURDOS QUE OUVEM