Crônicas da Surdez Deficiência Auditiva

Reflexões sobre a deficiência invisível: surdez

Quem nunca ouviu “Você nem tem cara de surdo!”, “Nem parece que é surdo” ou “É muito bonito (a) para ser surdo!”, como se a surdez tivesse uma cara ou característica externa que possa ser vista pelos outros. Até parece que é proibido um surdo se embelezar, ser bonito, descolado, inteligente ou bem sucedido. Não! Parece que o surdo tem que ser sempre um coitadinho…

Em outras deficiências – como alguém com mobilidade reduzida, um cego com sua bengala, ou mesmo uma pessoa com síndrome de Down – nestas situações a própria deficiência chama a atenção de olhares curiosos e estas pessoas não necessitam anunciar aos outros a sua condição.

Enquanto a deficiência interna, ninguém consegue ver! Não causa curiosidade das pessoas por não ser vista a olho nu! Há quem tenha problema de coração, com marcapasso e ninguém percebe. Há quem tenha diabetes, ninguém percebe. Há quem tenha autismo e ninguém percebe. A surdez é uma deficiência interna, invisível, a qual ninguém consegue ver pois o ouvido fica dentro da cabeça!

Constrangimentos

Quem nunca passou por constrangimento por ter de explicar por estar na fila preferencial? Com todas essas pessoas questionando o porquê de estar ali: “Está grávida? Está acompanhando algum idoso?”

Ao ouvirem as nossas vozes, com sotaque diferente, quase sempre perguntam: “De onde você é? De que país veio? Como assim você é do Brasil?”

Nem sempre os aparelhos auditivos ou implantes cocleares conseguem denunciar a nossa deficiência invisível, devido ao tamanho diminutivo do aparelho ou por causa da cabeleira que o esconde, mesmo que o surdo se esforce para expô-los com penteados estratégicos ou enfeites no aparelho auditivo.

As pessoas custam a acreditar que somos surdos porque… falamos! Na cabeça deles, um surdo não pode falar e deve somente gesticular para se comunicar. Até parece que dá um tilt na cabeça deles ao ver um surdo falar como qualquer pessoa normal. Alguns até duvidam da surdez e querem provas de que realmente são surdos. “Ah, usa aparelho auditivo? E com ele, você escuta até aquele mínimo som? Não é possível, só pode estar me enganando!”

Deficiência invisível

A surdez, por ser uma deficiência invisível, não é compreendida pela sociedade justamente pela falta de informação. As pessoas não conseguem imaginar ou mensurar os tipos e níveis de dificuldades pelas quais passamos em nossa comunicação do dia a dia: falar ao telefone, ouvir alto-falante em ambiente ruidoso, entender uma simples conversa, participar de reuniões do trabalho, etc.

Elas não fazem a mínima ideia da forma como ouvimos com os aparelhos auditivos. É até difícil de explicar a eles como ouvimos, afinal é uma deficiência sensorial que somente quem a vive sabe. Da mesma forma como é difícil para um cego explicar às pessoas como enxerga. A ilustração nunca será fiel à realidade.

Não podemos culpar ninguém pela desinformação em relação à surdez, afinal ninguém nasce sabendo de tudo! Precisamos assumir o nosso papel de informar e educar as pessoas. Expor a nossa surdez e os nossos problemas. Se não sairmos do armário, como as pessoas saberão sobre nós?

Como resolver?

O que podemos fazer? Empoderar os nossos aparelhos auditivos! Mostre-os para as pessoas com muito orgulho pelo bem que fazem a nós, pela qualidade de vida que nos proporciona. Explique que mesmo com tantos benefícios, existe limite. Até onde vai este limite da audição? Explique! Exponha as dificuldades, apresente as soluções para cada problema.

Se acontecer de ser mal atendido em algum estabelecimento, tenha paciência com a ignorância da pessoa que lhe atender. Diga calmamente que não entendeu a fala por conta da dificuldade para ouvir, explique como deve falar com você, com o rosto de frente para você, sem falar depressa, nem devagar demais. Desta forma vamos ensinando as pessoas e assim poderemos mudar o mundo de pouco a pouco.

Por conta da invisibilidade da deficiência, nós precisamos nos expor para sermos vistos! Precisamos falar de nós para que o mundo nos conheça! Precisamos ter paciência com a ignorância das pessoas e ensiná-las sobre a surdez.

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Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

1 Comentário

  • Dia desses encontrei no meu ambiente de trabalho, um cara que perdeu a audição de um dos ouvidos por conta do trabalho. Quando vi ele de AASI, fiquei empolgada, pois onde trabalho, até então, só eu uso AASIs. Toquei o ombro dele e comentei: – Você também uso aparelho?! Eu também! – Ele falou: – Eu estava trabalhando, mas vou fazer uma cirurgia para melhorar. – Ele falou num tom de que ele era surdo por um motivo melhor que o meu…risos… eu sou surda por hereditariedade. Sei que fiquei sem palavras, afinal, o motivo da surdez pra ele, torna alguém um surdo melhor ou pior. Surdo é surdo, como ouvinte é ouvinte. Mas o mundo tá cheio de pessoas ignorantes. Detalhe, eu e ele temos a mesma profissão.

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