Aparelhos Auditivos

Como melhorar o DESEMPENHO do seu Aparelho Auditivo: 5 passos

Se o seu aparelho auditivo aumenta o volume, mas você continua sem entender a fala com clareza, o problema pode estar na regulagem, na capacidade do aparelho de amplificar as frequências importantes, no domo ou molde usado, no seu índice de reconhecimento de palavras ou na forma como o seu cérebro processa os sons por causa da perda auditiva. Aparelho auditivo não é apenas um “aumentador de volume”: para funcionar bem, ele precisa devolver acesso à informação sonora que a perda auditiva tirou – e isso precisa ser verificado através de um exame chamado mapeamento de fala.

Se você usa aparelho auditivo ou está prestes a comprar o primeiro, entre para o Clube dos Surdos Que Ouvem e assista à minha série de aulas sobre aparelhos auditivos para aprender a comprar com segurança. Ali eu ensino como comparar tecnologia, o que perguntar à fonoaudióloga, quais verificações importam e como evitar gastar milhares de reais num aparelho que não entrega o que você precisa. Informação, na indústria de aparelhos auditivos, vale muito dinheiro, e é por isso que você navega num mar de falta de transparência até chegar aqui.

“Eu escuto, mas não entendo”

Essa frase é um clássico da perda auditiva. O erro é achar que ouvir melhor significa simplesmente ouvir mais alto.

A fala humana contém sons em várias frequências. De forma simplificada, as vogais ajudam na sensação de volume. Muitas consoantes – como S, F, CH e K – estão em frequências mais altas e fornecem pistas fundamentais para diferenciar palavras.

Por isso você pode ouvir que alguém está falando e, ainda assim, não entender. O cérebro recebe pedaços da palavra e tenta completar o resto. Às vezes acerta, e às vezes cria uma fanfic sonora inteira.

Muitas perdas auditivas atingem primeiro ou com mais força justamente as frequências agudas, especialmente em perdas relacionadas à idade, exposição ao ruído e algumas causas genéticas.

1. Os agudos podem estar sendo pouco amplificados

Quando um aparelho auditivo é programado pela primeira vez, o software do fabricante oferece uma configuração inicial, o famoso first fit. Isso deveria ser ponto de partida, não ponto final, mas infelizmente esse é o padrão em boa parte dos lugares que vendem aparelhos auditivos. Saiba que encontrar um Fonoaudiólogo realmente experiente em seleção e adaptação de próteses auditivas não é tarefa fácil – peça indicações de confiança nos grupos do nosso CLUBE Surdos Que Ouvem.

Em muitos casos, a programação inicial entrega menos amplificação nas frequências agudas para tornar o som mais confortável. Um cérebro que passou anos sem receber determinados sons pode estranhar quando eles reaparecem.

Existe, porém, uma diferença enorme entre fazer uma adaptação progressiva e deixar os agudos permanentemente abaixo do necessário porque o paciente disse no primeiro dia que “estava confortável”. Confortável não é sinônimo de bem regulado. Se pistas importantes da fala continuam inaudíveis, você pode passar anos dizendo que o aparelho “aumenta tudo”, mas não melhora a compreensão.

É aí que entra o mapeamento de fala. Em vez de terminar a regulagem perguntando apenas “está bom assim?”, a fonoaudióloga mede o que o aparelho realmente entrega dentro do seu conduto auditivo e compara com os alvos prescritos para a sua perda. Também é importante verificar diferentes intensidades de fala: fraca, média e forte.

É a diferença entre “acho que está bom” e “vamos medir pra ver se está mesmo bom”.

2. Nem todo aparelho consegue entregar o ganho necessário

A propaganda pode dizer que um aparelho trabalha numa faixa enorme de frequências. Mas o que interessa é: o que ele consegue entregar no SEU ouvido, com a SUA perda auditiva?

Quanto maior a necessidade de amplificação, especialmente nos agudos, maior pode ser o desafio de fornecer ganho suficiente sem microfonia. O feedback acontece quando parte do som amplificado escapa do ouvido, volta aos microfones e gera aquele apito insuportável.

Se o profissional tenta atingir os alvos prescritos e o aparelho não consegue entregar o ganho necessário, talvez seja preciso mudar receptor, potência, acoplamento ou até o modelo. Não adianta a caixa dizer que o aparelho “vai até 12.000 Hz” se, na prática, ele não consegue oferecer a amplificação de que você necessita sem feedback. Menos marketing, mais compreensão da fisiologia da audição, ok meu povo?

3. Molde ou oliva no aparelho auditivo?

Essa decisão não é estética, é acústica. O domo aberto pode funcionar bem para quem preserva boa audição nos graves e tem perda leve ou moderada mais concentrada nos agudos. Os graves entram naturalmente, enquanto o aparelho complementa as frequências que faltam.

Mas, quando existe perda também nos graves e médios, ou quando a perda nos agudos exige mais ganho, deixar o ouvido aberto demais pode fazer o som amplificado escapar. Nesses casos, pode ser necessário usar um domo mais fechado ou um molde personalizado, com ventilação adequada, para reter mais amplificação dentro do canal.

O software dos aparelhos possui testes de feedback que ajudam a medir quanto som está vazando e a margem disponível para aumentar o ganho. Nos graves, um acoplamento muito aberto também deixa amplificação escapar.

Portanto, domo e ventilação precisam ser escolhidos de acordo com a configuração da perda, o grau da surdez e o tamanho e formato do canal auditivo. Cada ouvido é um pequeno universo acústico, e entender isso te ajuda a regular expectativas e trabalhar em conjunto com o seu Fonoaudiólogo para não desistir de usar aparelho auditivo.

4. Seu índice de reconhecimento de palavras pode impor um limite

Mesmo um aparelho excelente e bem programado não consegue garantir 100% de compreensão da fala, porque a surdez impõe limitações intransponíveis pela tecnologia.

Na audiometria vocal existe um teste de reconhecimento ou discriminação de palavras. Você escuta palavras apresentadas num nível em que estejam audíveis e precisa repeti-las. O percentual de acertos ajuda a mostrar o seu potencial de compreensão da fala. Materiais gravados e padronizados reduzem a variação causada pela voz de quem aplica o teste. E aqui está a chave: tornar o som audível não significa automaticamente torná-lo nítido para o cérebro.

Quando há dano sensorial importante na cóclea e nas estruturas responsáveis por transformar vibração sonora em informação neural, aumentar o volume não resolve tudo. É como aumentar o brilho de uma fotografia desfocada. Ela fica mais clara, mas não necessariamente mais nítida. Por isso, pessoas com reconhecimento de fala muito baixo podem ter benefício limitado com aparelhos auditivos mesmo quando a adaptação está tecnicamente correta.

Dependendo do grau da perda auditiva e do desempenho nos testes de fala, pode ser indicada inclusive uma avaliação de candidatura ao implante coclear, feita por um médico otorrino especialista em surdez.

Esse é um ponto importantíssimo porque muita gente passa ANOS trocando de aparelho auditivo atrás de um milagre que aquele ouvido talvez já não consiga obter apenas com amplificação. Aparelho auditivo recém-lançado com mil promessas marketeiras não fabrica células ciliadas novas, ok?

5. O aparelho entrega o som, mas quem decodifica é o cérebro

Ainda falta uma peça essencial: o processamento auditivo. O aparelho capta, processa e amplifica o som. O cérebro precisa separar, organizar e compreender aquela informação. Por isso duas pessoas com audiogramas parecidos podem ter desempenhos muito diferentes.

No silêncio do consultório, alguém pode entender relativamente bem. Agora coloque essa mesma pessoa num restaurante. Pratos batendo. Música. Gente falando na mesa ao lado. Seu marido falando na sua frente. O garçom perguntando alguma coisa atrás de você. Bem-vindo aos Jogos Vorazes da audição.

É justamente por isso que existem testes de fala no ruído, que ajudam o Fonoaudiólogo a estimar dificuldades de escuta em ambientes sonoros complexos.

Algumas pessoas precisam de pouca diferença entre a voz e o ruído. Outras precisam que a fala esteja MUITO mais destacada. E essa informação é valiosa para estabelecer expectativas realistas e pensar em estratégias de reabilitação auditiva.

Em determinados casos, o treinamento auditivo também pode fazer parte desse processo, porque ouvir não termina na orelha. Quem ouve é o cérebro. E isso vale não apenas para conversas: a clareza da música e de qualquer outro som também depende da combinação entre tecnologia, programação, sistema auditivo e cérebro.

O aparelho auditivo mais caro não faz milagre

Tecnologia melhor ajuda? Claro que ajuda. Microfones direcionais, redução de ruído, inteligência artificial, conectividade e algoritmos mais sofisticados podem fazer diferença. Mas comprar o suposto e autoentitulado “melhor aparelho auditivo do mercado” não substitui diagnóstico correto, escolha adequada da prótese, programação, verificação objetiva e testes de fala em ruído.

A adaptação de aparelho auditivo não deveria funcionar assim:

  • Coloca na orelha.
  • “Está confortável?”
  • Está.
  • Passa o cartão.
  • Tchau.

Se o seu aparelho deixa tudo mais alto, mas a fala continua embolada, volte ao profissional e faça perguntas concretas:

  1. A amplificação foi verificada com microfone sonda (mapeamento de fala)?
  2. Os alvos prescritos estão sendo atingidos?
  3. Minha oliva ou molde é adequado para a configuração da minha perda auditiva?
  4. Existe vazamento de som ou limitação causada por feedback?
  5. Qual é o meu índice de reconhecimento de palavras?
  6. Eu já fiz algum teste de fala no ruído?
  7. Este aparelho realmente tem capacidade para atender a minha perda?
  8. Meu desempenho indica que eu deveria investigar outra forma de reabilitação auditiva?

Depois de décadas convivendo com a surdez e com tecnologia auditiva, uma coisa fica muito clara pra mim: aparelho auditivo bom não é o que simplesmente faz você ouvir MAIS. É o que, dentro dos limites da sua audição e do seu cérebro, ajuda você a entender MELHOR.