Crônicas da Surdez Deficiência Auditiva Post de colaborador convidado

Escuto mas não entendo

‘Eu escuto, mas não entendo!’ – ah se eu ganhasse um real toda vez que alguém me diz essa frase. Nós não damos nenhum tipo de aconselhamento médico aqui no Crônicas da Surdez, portanto, o primeiro passo, quando você escuta mas não entende, é procurar um otorrinolaringologista.

Convidei a fonoaudióloga Camila Morais para nos ajudar a entender melhor a questão do “eu escuto, mas não entendo”.

Estou no grupo do Crônicas da Surdez desde quando éramos menos de 100 pessoas e hoje mais de 11 mil pessoas participam do grupo e o assunto “ESCUTO MAS NÃO ENTENDO” aparece umas 8 vezes por semana…pelo menos!

Sendo uma dúvida frequente e recorrente, nada melhor que falarmos sobre tudo que é importante sobre isso, neste momento! Tanta gente se apega a isso de tal maneira que acaba não procurando soluções para resolver ou minimizar os problemas! Lembre-se, aparelhos auditivos não são ouvidos novos! Existem limitações, sejam elas audiológicas ou tecnológicas!

Fatores importantes

Grau e tipo da perda:

Quanto maior a perda auditiva, maior a chance do comprometimento na compreensão. Quando falamos de uma perda condutiva, é a única exceção a este caso.

Percentual de compreensão no IPRF

Lá na sua audiometria tem um campo de compreensão da fala durante o exame. É quando a fono fala algumas palavras e solicita que você as repita. De acordo com este percentual, se o resultado for menor que 50% o paciente é, provavelmente, incapaz de acompanhar uma conversa (Jerger, Speaks, & Trammell, 1968).

Ajuste dos aparelhos

Com a crescente divulgação dos métodos de verificação eletroacústica dos aparelhos auditivos com sons de fala – mapeamento de fala, passamos a ter a certeza de que os sons de fala estão sendo amplificados da melhor maneira possível para cada caso. Os ajustes realizados desta forma, nos garantem que a saída dos aparelhos esteja no seu melhor desempenho! O procedimento é objetivo (não necessita de respostas do paciente) e é a única maneira de ter certeza de que os ajustes estejam corretos para os sons de fala. Se eu tenho um maior acesso aos sons de fala, maiores são as chances do meu cérebro conseguir interpretar estes sons e entende-los!

Processamento auditivo central

E quando estes sons amplificados da fala chegam aos ouvidos de maneira adequada e mesmo assim eu não entendo? Este pode ser um problema de interpretação do cérebro que chamamos de Distúrbio do Processamento Auditivo Central (DPAC) que também já foi abordado no post (inserir link do post). Neste caso há indicação para o treinamento auditivo.

A configuração da perda também influencia bastante!

Audiometrias com agudos com perdas muito significativas ou ausência de resposta, tem mais dificuldades porque há uma limitação de potencia dos sons agudos já que a chance de microfonia é enorme! Mas isso é assunto pra outro post! Porque tem muitos detalhes importantes!

Espero que tenham conseguido entender os pontos mais importantes a serem avaliados quanto à queixa de “Escuto, mas não entendo!”. E vale repetir: aparelhos auditivos não são ouvidos novos! Busque todas as soluções possíveis, mas aceite que temos limitações e conviva, da melhor maneira possível dentro dos limites da sua vida!

E mais…

Neste  post do Portal Otorrino há uma explicação maravilhosa cuja leitura sempre recomendo, para quem tem perda acentuada nos agudos e a sensação recorrente de que escuta tudo mas não entende nada:

A fala é composta pelos sons das vogais (a, e, i, o, u) e das consoantes (s, ss, f, ch, c, t, v…). As vogais têm sons de frequência mais grave e volume mais alto, enquanto as consoantes tendem a ter frequências mais altas e volumes mais baixos, especialmente em vozes femininas e muito finas. E grande parte das perdas auditivas costumam causar uma perda mais séria nos sons agudos (os das consoantes) do que nos graves.

Assim, nesse cenário de uma perda auditiva nos agudos, a pessoa acaba ouvindo as palavras apenas em parte, ouvindo mais as vogais e menos as consoantes. Para exemplificar, veja as palavras no quadro abaixo. Na primeira coluna está a palavra que foi dita. Na segunda coluna, o que a pessoa conseguiu ouvir da palavra segundo a sua perda auditiva e o volume que foi dita. Na última coluna, estão os sentidos possíveis para o que a pessoa ouviu. E assim que começa todo o problema. Uma perda auditiva pequena pode fazer perder apenas uma letra, mas aí corre-se o risco de perder a palavra, a frase e por fim, o sentido. Assim, o “ouvir, mas não entender” surge do que não se ouviu, sendo portanto resultado de algum grau de surdez.

Entre para o grupo Crônicas da Surdez no Facebook

Seja o primeiro a amar.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

2 Comentários

Deixe seu comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.