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Post de colaborador convidado

Como funciona o NHS: o sistema de saúde pública da Inglaterra

Você já parou para pensar como funciona o sistema de saúde pública em outros países? Vamos iniciar uma série de posts falando sobre isso, e, para a inauguração, convidamos Giovana Bulgaron, Fonoaudióloga formada no Brasil e que trabalha como Audiologista na Inglaterra.

‘Me chamo Giovana Bulgaron, sou Fonoaudióloga formada no Brasil e trabalho como Audiologista na Inglaterra há mais de um ano no sistema público de saúde do Reino Unido (NHS). Foi uma longa jornada até chegar aqui. Uma oportunidade de emprego apareceu para o meu esposo e nos mudamos para a Alemanha há três anos. Infelizmente não consegui trabalhar como Fono lá, onde é muito mais complexo para atuar como tal. Depois de um ano decidimos vir para Londres por conta de uma identificação maior com a cultura e oportunidades de trabalho tanto para mim quanto para ele.

Desde que me mudei, percebi uma grande demanda e oportunidades de emprego para Audiologistas aqui. Aqui não existe um profissional que englobe tudo o que a fonoaudiologia engloba. É tudo separado: quem trabalha com audição e equilíbrio é audiologista, quem trabalha com linguagem é o speech therapist, quem trabalha com voz é o voice coach e assim vai.

Ser Brasileira e ter formação no Brasil não foi um obstáculo em nenhum momento para atuar aqui. Por sinal, eles gostam muito da formação desse profissional no Brasil, o que serviu como um diferencial para mim.

Mas chega de falar de mim e vamos falar da saúde auditiva pública daqui! 🙂

Como funciona o sitema público?

O National Health Service (NHS) é como se fosse o SUS daqui. Por sinal, o sistema SUS foi inspirado no modelo NHS. Porém, quando falamos de direito de ouvir, os dois sistemas são bem diferentes. 

Eu trabalho em dois hospitais grandes de Londres que são parceiros. Lá existe o departamento de Otorrinolaringologia, de Audiologia e de Implante Coclear. Eu trabalho no de Audiologia. Neste departamento recebemos encaminhamentos de médicos no geral, fazemos avaliação, diagnóstico, oferecemos opções e fazemos o acompanhamento dos pacientes com queixas auditivas, zumbido e disfunções no sistema vestibular.

Como é o processo de obter um aparelho?


Quando recebemos um encaminhamento, marcamos um atendimento para o paciente, avaliamos a audição e no mesmo atendimento já discutimos os resultados da audiometria, o que isso implica no dia-a-dia do indivíduo e como o aparelho auditivo pode ser benéfico.

Todos os aparelhos auditivos fornecidos pelo NHS são gratuitos e todo o serviço prestado também. Neste atendimento também discutimos sobre o tempo de adaptação, analisamos se o paciente precisa de molde ou se será uma adaptação aberta, dependendo do grau da perda auditiva. Se o paciente puder usar uma adaptação aberta, ele pode receber os aparelhos no mesmo dia. Se precisar de molde, nós tiramos o molde e marcamos uma nova consulta para quatro semanas depois, que é o tempo do molde ser enviado, ficar pronto e voltar para o departamento.

Depois de receber os aparelhos auditivos e os mesmos forem configurados, marcamos um atendimento seis semanas depois para acompanhar o processo de adaptação. Depois disso, o paciente pode marcar quantos atendimentos ele quiser para ajuste do som ou reparo. E a cada três anos ele será chamado novamente para fazer uma reavaliação da audição e trocar de aparelhos caso o departamento tenha uma versão mais nova ou se o aparelho precisa de substituição por conta de danos. 

O único custo que o paciente terá é caso ele perca ou danifique o aparelho. E acreditem: isso acontece muito. A taxa é de £65 por aparelho auditivo. 

O NHS só trabalha com o aparelho BTE, o que vai atrás da orelha, pois é mais barato e funciona para todas as perdas auditivas. No meu departamento trabalhamos com as marcas Oticon, Phonak e Resound. 

 

E para quem precisa de Implante Coclear?

Como eu mencionei acima, o Departamento de Implante é separado do Departamento de Audiologia. Porém, pacientes com surdez severa-profunda e que não tenham se beneficiado dos aparelhos, têm direito a ser encaminhado para esse departamento. Lá eles fazem uma avaliação, discutem como é feita a cirurgia, os riscos, os benefícios, acompanhamento, etc. E aí se o paciente aceitar, ele deixa de ser nosso paciente e é acompanhado por esse outro departamento mais específico. 

Não há custos? 

Em ambos os casos, tudo é fornecido gratuitamente pelo sistema público, inclusive as pilhas. Aqui todo mundo tem o direito de ouvir e essa foi uma grande surpresa positiva que tive desde que cheguei aqui comparado com o processo de obter um aparelho auditivo no Brasil, algo que realmente espero que melhore.

Além disso, aqui no Reino Unido, existe uma lei que obriga todos os lugares públicos como cinema, bancos, correios, ônibus, etc a terem o sistema hearing loop instalado. Hearing loop é Aro Magnético em inglês. Trata-se de um sistema que envia o som do ambiente direto para o aparelho auditivo, basta o paciente trocar o programa do mesmo depois de ter sido configurado pela fono no software.

Eu como fonoaudióloga fico muito feliz com o acesso que as pessoas com deficiência auditiva têm aqui e espero muito que o Brasil e todos os países cheguem nesse nível um dia. Espero que vocês tenham gostado e se tiverem qualquer dúvida pode me chamar que eu vou adorar responder. Meu Instagram é @giipelomundo

Sobre

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 38 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

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