Crônicas da Surdez Deficiência Auditiva

Surdez: menos drama, mais esforço

Tenho notado, graças ao nosso Grupo Crônicas da Surdez no Facebook, uma mudança de postura generalizada das pessoas com deficiência auditiva, e isso me deixa muito motivada. É emocionante para mim ver as pessoas encurtando o caminho da jornada da surdez e o tornando mais leve. Passei tantos e tantos anos triste e solitária por não aceitar e não tentar compreender a minha condição quando era jovem que assistir a essa mudança, por parte de pessoas tão queridas (somos uma grande família!), me faz sentir uma felicidade indescritível. 🙂

Se antes o que eu mais via eram pessoas reclamando e se lamentando por causa dessa deficiência, hoje o que mais vejo são pessoas correndo atrás do prejuízo e indo em busca de qualidade de vida, usando seus aparelhos auditivos ou implante cocleares com orgulho e perseverança. É contagiante!

Menos drama, mais esforço

Pareço chata falando isso, mas falo porque no meu caso foram uns dez anos de dramalhão mexicano desnecessário. É mais fácil ser dramático do que esforçado, não é verdade? Falo por mim: jogava tudo na conta da surdez sem dó nem piedade. Tudo o que eu não fazia era culpa da surdez. Todos os sonhos que eu não perseguia eram culpa da surdez. Será?

A maturidade e a volta da audição através dos implantes cocleares me fizeram perceber muitas coisas com mais clareza. Entre elas, justamente isso: devia ter me dedicado mais ao esforço e menos ao drama. Se chorar, reclamar e fazer beiço resolvessem alguma coisa…

Quando li o depoimento abaixo no grupo, tive uma tremenda epifania. Vejam que coisa mais linda e que lição de vida!

Direto do grupo: doutorado na Califórnia

“Eu tive que vir aqui agradecer e também compartilhar alegrias! Falta só meu lindo visto (ansiedade pra isso agora!) para eu embarcar no final do mês que vem para quase 7 meses na Universidade da Califórnia. O grupo? Me deu coragem. Me disse para não ter medo. Sou surda sim, mas isso não me impediu de fazer meu mestrado, ingressar no doutorado e e pedir uma bolsa para doutorado sanduíche.

Muito medo, muita ansiedade, um TOEFL que tirei nota máxima (é só pedir acessibilidade, eles te atendem e tu faz a prova direitinho!) agora, torcer para o visto sair na data que preciso. Já chorei de alegria e de “alívio”, sabe? De sentir que sou capaz. De ter medo… mas querer ir! Estou muito feliz e muito ansiosa. Vocês entendem: AASI em outro país, outra língua, outra cultura, em uma Universidade respeitada. Espero poder dividir com vocês as experiências de lá também! E só tenho a agradecer, mesmo quietinha aqui, leio tudinho! Então gente… vai ter surda doutora sim, e com diploma assinado pela Universidade da Califórnia!

Haja coração

Eu li e chorei – e não foi culpa dos hormônios. Foi de emoção mesmo. Foi por lembrar daquela Paula de 17 anos cujo sonho era fazer um intercâmbio e estudar no exterior. Foi por lembrar daquela Paula que passava tardes inteiras traduzindo revistas americanas para melhorar o vocabulário e escrever melhor, já que a pronúncia e o ‘listening‘ nunca seriam meu ponto forte. Foi por lembrar daquela adolescente que sentiu mais medo do que coragem e não se deu ao trabalho de meter as caras e tentar. Que foi vencida pela vergonha de usar aparelho auditivo e se deu por vencida muito cedo, já que não tinha com quem conversar sobre isso.

Acho que chorei também por perceber que esse ainda é o meu sonho: estudar no exterior. Preciso dar jeito nisso – minha desculpa agora é o bebê e não a surdez, rsrs.

Fica sempre o conselho

O bom e velho conselho que vou seguir dando para vocês sempre é esse: menos drama, mais esforço. Nós enfrentamos as mesmas condições de saúde, mas tomamos diferentes decisões na vida. Quando quiser usar a surdez como desculpa para o que for, pergunte-se: “Eu não consigo ou Eu vou dar um jeito?“. Do alto dos meus 36 anos de estrada aprendi que é melhor ser o tipo de pessoa que se propõe a dar um jeito…

34 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

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