Crônicas da Surdez Deficiência Auditiva Otorrinolaringologia

Como escolher um otorrino especialista em surdez

Todos os dias chegam aqui dezenas de mensagens de deficientes auditivos me pedindo indicação de otorrinolaringologista. Como sou paciente de médicos no Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre apenas, achei boa ideia escrever esse post com as minhas dicas para que você escolha um otorrino com segurança.

Otorrino especialista em surdez?

Nem todo otorrinolaringologista entende pra valer de surdez – alguns são experts em cirurgia de nariz e de garganta, por exemplo, e quase não operam ouvido. Ou, se operam, nunca fizeram uma cirurgia de implante coclear, por exemplo. Há também aqueles com pouca experiência em estapedectomia.

Se você está em busca de um otorrino para investigar e tratar a sua perda auditiva, precisará de um que entenda muito deste assunto específico. Não apenas na parte clínica, mas também nas novidades tecnológicas e de acessibilidade, afinal, não tem nada mais decepcionante do que fazer várias perguntas ao seu médico e voltar para casa sem resposta.

Se você procura um otorrino por causa de implante coclear, leve em conta inclusive que existem quatro marcas de implante coclear no mercado brasileiro, e é muito sensato conversar com um médico que tenha experiência em operar todas elas – ou, no mínimo, a maioria. É preciso saber, também, quantas cirurgias desse tipo ele já fez, para ter certeza de que trata-se um profissional com a experiência cirúrgica necessária.

Peça indicação a outras pessoas com surdez

Pedir indicação a quem já passou por isso é sempre muito bom, porque as pessoas foram pacientes do médico que você está cogitando ir – ou então, lhe darão suas dicas e você poderá escolher entre todas as opções.

Entre para o Grupo Crônicas da Surdez no Facebook – são quase 9.500 pessoas com deficiência auditiva por lá para indicar alguém de confiança. Eu só indico os médicos dos quais sou paciente, seja na especialidade que for, pois é muita responsabilidade dar uma indicação assim. Nem sempre quem funcionou para mim vai funcionar para você.

Peça uma segunda opinião

Foi num médico e o santo não bateu? Voltou para casa com mais perguntas do que respostas? Não sentiu firmeza durante a consulta? Foi só porque ele era conveniado do plano e se sentiu mal atendido, tendo sido enxotado da sala após 10 minutos de conversa? Tem surdez moderada e o otorrino disse que não precisa usar aparelho auditivo e você achou isso muito esquisito? Acontece com todo mundo, fique tranquilo.

Nada mais natural e normal do que ir em busca de uma segunda opinião, afinal, é a nossa própria saúde que está em jogo. Não tenha nenhum tipo de constrangimento quanto a isso. Dou esse conselho porque, se tivesse ido atrás de uma segunda opinião quando era criança, meu diagnóstico não teria vindo apenas aos 16 anos e minha infância teria sido muito mais fácil.

Médico altamente marketeiro?

Que a internet é terra de ninguém todo mundo sabe, mas alguns médicos exageram na dose. Talvez por não entenderem sobre mídias sociais, talvez por quererem fazer o que todo mundo está fazendo – só que, na medicina, as coisas não funcionam bem assim. O Conselho Federal de Medicina proíbe exposição de pacientes nas redes sociais, mesmo que com o consentimento destes, você sabia?

Particularmente, prefiro profissionais discretos e que estão mais preocupados em estudar e se especializar o máximo possível do que investir tempo em se tornarem “pop”.

O consultório é acessível a pacientes surdos?

Nada pode ser mais deprimente do que ser surdo e querer marcar consulta com um otorrino especialista em surdez cujo consultório só marca…pelo telefone! Ou, pior, chegar no consultório, ver a TV ligada e as legendas não estarem ativadas.

Mas nada supera consultar com um otorrino que fala tapando a boca ou, pior, não se dirige a você quando fala, mas sim ao seu acompanhante, como se você fosse uma planta! Na minha opinião, nada disso é perdoável. Estamos em 2018!

Tecnologias – grátis ou não – de acessibilidade existem aos montes. O mínimo que eu espero é poder marcar consulta por WhatsApp ou email, que o médico saiba se comunicar adequadamente com um paciente com deficiência auditiva, que a TV tenha legendas ativadas, que a secretária e outros profissionais da clínica sejam treinados para bem atender os pacientes que escutam mal ou não escutam. Um consultório com aro magnético também não é nada mal!

O “melhor” médico

Não existe melhor médico e ninguém possui monopólio de conhecimento, ou seja, se o otorrino que você vai consultar tem experiência em surdez, foi bem recomendado, está sempre se atualizando e se você gostar do atendimento que recebeu, ótimo. Algumas pessoas ficam neuróticas achando que precisam ir em busca do “melhor”, sendo que isso não existe – e quando supostamente existe tem mais a ver com marketing do que com qualquer outra coisa. Relaxe! Confie no médico que você escolheu. Se não confiar, busque a opinião de outro profissional.

Consulta online

Você sabe que isso não existe, certo? Os médicos são proibidos de dar consultas online ou se manifestar sobre o seu caso em redes sociais, portanto, esqueça. A consulta deve ser presencial, com exame clínico e tudo o mais. Desconfie (e fuja) de quem lhe diagnostica sem nunca ter lhe visto e muito menos examinado.

E por último

Os médicos são seres humanos, portanto, todos têm dias bons e ruins e nenhum deles é um ser iluminado que tudo sabe e não erra nunca. Não podemos exigir deles essa perfeição porque além de não ser justo, é irreal. Você tem sua responsabilidade como paciente, sabia? Informe-se sobre o seu caso, leia muito, busque livros e pessoas em situação parecida. O pior paciente é aquele que chega no consultório desesperado e não se deu ao trabalho de pesquisar nada – e exige salvação do otorrino que lhe atender. 😉

 

15 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

2 Comentários

  • Bom dia, meu marido foi diagnosticado essa semana com surdez súbita, demorou um pouco para procurar um especialista e o lado direito perdeu total e o esquerdo mesmo apos o inicio do tratamento começou a diminuir a audição, poderia me indicar um bom especialista em São Paulo, Teresina ou São Luis?

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