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Crônicas da Surdez / Surdos Que Ouvem

Surdo ou Deficiente Auditivo: qual é o termo “certo”?

surdo ou deficiente auditivo qual é o certo

Surdo com S maiúsculo, surdo com s minúsculo, deficiente auditivo ou pessoa com deficiência auditiva? Você já deve ter lido por aí que surdo é só quem usa Libras, tem surdez “total” e de nascença – e que o resto é “só” deficiente auditivo. São muitos termos, classificações e muitas polêmicas. Vamos então refletir sobre esse assunto, lendo sobre vários pontos de vista?

Antes, uma reflexão pertinente: essa discussão é tão bizarra quanto querer categorizar alguém entre “muito preto” e “pouco preto” ou então como “gay de verdade” e “gay de mentira”. É ridículo, ainda mais em tempos nos quais se fala tanto em diversidade e inclusão.

Surdo ou deficiente auditivo: qual o certo?

A surdez tem graus: leve, moderado, severo e profundo. Nem todos os tipos e graus de surdez são considerados pela LEI BRASILEIRA como deficiência auditiva. Chamar uma pessoa com surdez leve, moderada, severa ou profunda de SURDO está 100% correto. Entretanto, chamar qualquer pessoa que possui algum grau de surdez de DEFICIENTE AUDITIVO está errado, já que a lei não considera todas essas pessoas como pessoas com deficiência auditiva.

É mais simples do que parece. O que acontece é que meteram língua de sinais no meio dessa questão, complicaram tudo à toa e querem que a sociedade acredite que só pode ser chamado de surdo quem usa Libras e não escuta nada. Vide essa história de querer diferenciar “surdos” de “Surdos”, como se quem usa S maiúsculo fosse “superior” na fila do pão da surdez apenas porque usa Libras. “Ah, mas é uma diferença cultural”. Beleza: você já viu alguém se denominar “Preto” com P ou “Gay” com G para se diferenciar dos outros? Eu, não.

Segundo o dicionário, surdo é:

aquele que não ouve ou ouve mal, ou que perdeu o sentido da audição; mouco.” Você notou que o significado de surdo no dicionário inclui tanto quem ouve pouco, como quem não ouve nada?

E qual é o significado de surdez?

Falta ou perda absoluta ou diminuição considerável do sentido da audição.”

Viram? Inclui a falta, a perda absoluta, ou diminuição considerável da audição, tudo isso é surdez!

O que é considerado deficiência auditiva pela lei?

Vamos à legislação brasileira. Aqui explicamos quem a lei brasileira considera uma pessoa com deficiência auditiva.

De acordo com os critérios da lei, uma pessoa com deficiência auditiva pode ser surda oralizada, surda sinalizada, surda bilíngue. Isso não importa, o que vale é que a audiometria dessa pessoa atenda as exigências da lei no quesito “deficiência auditiva”.

Nas leis mais antigas, utilizava-se “surdos ou pessoas com deficiência auditiva”, assim, passava a impressão de separação em dois grupos.

Mas a maioria dos surdos usa Libras?

todo surdo usa libras

Mentira. A maioria dos surdos no Brasil NÃO usa Língua de Sinais. Dados divulgados pelo IBGE em 2021, na Pesquisa Nacional de Saúde. E todo mundo já sabia disso, só faltavam os dados oficiais corroborarem. Duvida? Abra um chamado no Portal da Transparência e descubra você mesmo quantos alunos a maior escola especial para surdos sinalizados do país possui.

O que diz a Lei Brasileira de Inclusão?

Nas leis mais recentes, por exemplo, a Lei 13.146/2015 (Lei Brasileira de Inclusão, alinhada com os conceitos internacionais), usa-se pessoa com deficiência auditiva, para todos os surdos – usar língua de sinais não muda nada.

Segundo o Ministério da Saúde (2017), surdez é a impossibilidade ou dificuldade de ouvir. Notou que OFICIALMENTE, não encontramos nada que justifique diferença entre os termos?

“Ah, mas os gringos e a comunidade surda sinalizada diferenciam surdos de deficientes auditivos!”. Enquanto cidadãos de um país, estamos submetidos às suas leis. E ficar criando caso por causa de nomenclaturas que dizem, no final das contas, a mesma coisa, é de uma perda de tempo sem precedentes.

Além do mais, fazer diferenciação entre “surdos” e “deficientes auditivos” é uma forma de beneficiar apenas as pessoas que são consideradas pessoas com deficiência auditiva pela lei, deixando de fora todos os outros que têm algum grau de surdez. E qualquer grau de surdez impacta negativamente a vida de uma pessoa.

Essa balela toda tem origem antiga. Em 2022, ela serve apenas a um propósito: reforçar o capacitismo e confundir a opinião pública, puxando a sardinha para o lado dos surdos sinalizados (já que muitos produtos-serviços de acessibilidade são direcionados a eles).

Na vida prática, na hora do vamos ver, para quem tem algum grau de surdez, nada muda. Por último, para a medicina, deficiência significa insuficiência ou ausência de funcionamento de um órgão.

Vamos ser racionais?

Agora, raciocine comigo: tem pessoas com surdez leve, moderada, com ou sem uso de AASI (aparelho auditivo), e que oralizam normalmente; surdez severa, onde há oralizados e sinalizados, com AASI, IC (implante coclear) ou PAAO (prótese auditiva ancorada no osso); também a surdez profunda, onde também temos oralizados e sinalizados, com ou sem IC ou AASI ou PAAO, ou uma combinação deles.

Temos os surdos unilaterais com surdez moderada, unilaterais com surdez severa, profunda, com o outro ouvido normal ou com surdez leve, oralizados, ou não, com AASI, IC, PAAO…Ufa, respira! Adicione agora a variável bilíngue também…Ah, e pode ser que a pessoa já nasceu com a surdez, adquiriu antes de aprender a falar ou depois…

Não dá um nó na mente com tantas possibilidades? E sério que tentam colocar apenas dois rótulos e subcategorizar pessoas? Não faz sentido.

Para quem insiste no aspecto cultural: a cultura varia muito com o tempo, lugar e pessoas. Além disso, como a surdez era uma deficiência que dificultava ainda mais a comunicação quando não havia tecnologias para ouvir e oralização difundida, as pessoas que desenvolviam alguma língua gestual criavam laços entre si, tendo menos contato com ouvintes. Por consequência, em uma comunidade fechada, com pouca ou nenhuma troca de informações com a maioria mundo afora, conceitos se fortaleceram e se enraizaram mais facilmente através dos anos.

Afinal, surdo ou deficiente auditivo?

Posso falar por mim: eu sou uma pessa com deficiência auditiva. Sou surda. Mas detesto ser chamada de “deficiente auditiva” porque, na minha visão, isso me reduz à minha deficiência. Mas cada um sabe de si. Se você tem um grau-tipo de surdez que a lei brasileira considera deficiência auditiva, TANTO FAZ se denominar surdo ou deficiente auditivo. A escolha é sua.

Estamos vivenciando uma maior aproximação entre surdos sinalizados e surdos oralizados, o que nos dá mais força na luta por acessibilidade para TODOS. Mas ainda há muito a evoluir, e essas briguinhas patéticas “surdo X deficiente auditivo” em nada ajudam. Enquanto a comunidade surda insistir nessa divisão, todos nós perdemos. No fim das contas, somos todos SURDOS, independente da lei nos considerar pessoas com deficiência auditiva.

Capacitismo e surdez

Há quem rejeite ser chamado de “surdo” e prefira “deficiente auditivo” porque acha que isso suaviza sua deficiência aos olhos dos outros. Isso é capacitismo: não querer ser visto como uma pessoa que usa língua de sinais por causa do modo como você enxerga essas pessoas. Reflita!

A surdez é diversa. Usar libras, aparelho auditivo ou implante coclear não te torna “menos” ou “mais” surdo do que ninguém. Desça do pedestal do julgamento.

E quem só aceita ser chamado de “Surdo” e rejeita dizer que é uma pessoa com deficiência auditiva também deveria refletir, uma vez que faz uso de direitos e benefícios que são destinados…a pessoas com deficiência auditiva!

Respeito, sempre!

É claro que não vamos esquecer do respeito às escolhas individuais de cada um. Você prefere ser chamado de surdo, porque não se sente bem com a palavra deficiente? Prefere deficiente auditivo? Curte dizer que é “Surdo”? Sem problemas. Mas em termos de leis, direitos e vida prática, a lei brasileira é soberana.

Que tal parar de complicar o que não precisa ser complicado? As consequências da insistência nisso levam a apenas duas coisas ruins: falta de acessibilidade e afastamento entre pessoas que têm a mesma deficiência.

 

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About Author

Moro no Rio de Janeiro e tenho 39 anos. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Sou autora dos Crônicas da Surdez e Novas Crônicas da Surdez.

8 Comments

  • […] você tem deficiência auditiva e quer saber como conseguir o Passe Livre, leia com atenção este post. Viajar faz parte da vida […]

    Reply
  • […] curiosidade alheia sobre nossa surdez irá nos acompanhar pelo resto da vida. Quanto antes nos acostumarmos com os olhares e não nos […]

    Reply
  • Polyana Andrade
    30/11/2019 at 12:05 pm

    Eh um desespero muito grande q sinto, após descobri a existência de aparelhos auditivos com qualidade, até então, usei o da rede SUS.
    Isso aconteceu pq o meu está com defeito, e atualmente está tendo cota para aquisição ou manutenção dos aparelhos. Procurei uma fono, a que fui a 20 anos atrás quando descobri meu problema, e ela me emprestou uma prótese pra eu não ficar sem ouvir. Eh mágico ! Quando tiro o aparelho, alem do som muito baixo, sinto a vós das pessoas rouca. A ANS não obrigada planos a custear aparelho fora de procedimentos cirúrgico. Ou seja, tenho que entrar com ação judicial! Ebora seja bacharel em Direito, tenha conhecimento das vias jurídica, não eh simples encarar essa briga. Dói! Dói muito… Ter que devolver o aparelho e ficar sem ouvir até essa liminar sair, escrever a ação, contar toda história (vc revive) agendar na rede SUS pra pegar os documentos que provam que sem o aparelho não existe convívio social . O pior ou o mais normal de todos eh n ter recurso pra custear e enfrentar a briga. Pra terceiro esse desafio eh muito leve. Mas juro que pra mim tah sendo um pesadelo. Escrevendo isso com lágrimas, pois hoje eh sábado e segunda entrego meu aparelho.

    Reply
  • […] em só dois grupos. Mas já explicamos aqui no Crônicas da Surdez que não há oficialmente diferença entre surdos e deficientes auditivos, as pessoas podem utilizar o termo com o qual se sentem mais confortáveis. Não faz sentido algum […]

    Reply
  • Tricia
    15/10/2019 at 10:54 am

    Gosto muito da sua autenticidade, Paula. Grata por você “escrever das suas entranhas” e fazer diferença no universo da surdez.

    Reply
    • Pryscilla Cricio
      13/08/2020 at 5:44 pm

      Olá Tricia,

      Tudo bem?

      Venha para o nosso grupo fechado no Facebook com mais de 15.300 pessoas com deficiência auditiva que usam aparelhos ou implantes. Para se tornar membro, é OBRIGATÓRIO responder às 3 perguntas de entrada.

      https://www.facebook.com/groups/CronicasDaSurdez/

      E para receber avisos sobre nossos eventos e cursos, por favor, clique e responda 4 perguntas (leva 30 segundos):

      https://forms.gle/MVnkNxctr1eahqR5A

      Estamos te esperando!

      Abraços,

      Equipe Surdos Que Ouvem

      Reply
  • Nhana
    14/10/2019 at 10:34 pm

    Excelente artigo!! Quando me perguntam, sempre cito o dicionário para esclarecer que surdo e deficiente auditivo é a mesma coisa… E que mesmo usando aparelho auditivo ou implante coclear, a pessoa jamais deixará de ser surda – ou deficiente auditivo.

    Reply
  • clarissa
    14/10/2019 at 9:39 am

    Verdade! Atualmente me intituto Surda que ouve, mas teve um tempo que usava deficiente auditivo, mas a nomenclatura não muda o fato de eu não ouvir bem, de depender de aparelhos auditivos, etc.
    Sendo assim, o que deve predominar é o respeito! Essa briga de nomenclaturas nada altera nossa vida.

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