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Aparelhos Auditivos / Crônicas da Surdez / Surdos Que Ouvem

Aparelho auditivo DISCRETO E INVISÍVEL: que vergonha!

aparelho auditivo discreto e invisível

A minha opinião sobre aparelho auditivo discreto e invisível evoluiu junto com o avanço da tecnologia, que vai tornando tudo cada vez menor e mais delicado. Entretando, verdade seja dita: em 2022 as pessoas ainda não se escandalizam com uma indústria bilionária que faz propagandas intensivas baseadas no incentivo da vergonha de se ter uma deficiência.

Imagine alguém anunciar uma camiseta que disfarça que você é gay? Uma base que disfarça o seu tom de pele negro? Uma cadeira de rodas bem discreta? Que horror, hein? A questão é simples: por que as pessoas não se escandalizam com o fato de uma indústria inteira incentivar milhões de pessoas a sentirem vergonha da própria surdez?

Por favor, me poupe do argumento de que “a indústria dá o que o paciente pede”. Chegou a hora das marcas e fabricantes assumirem a sua RESPONSABILIDADE SOCIAL nesse quesito, vocês não acham?

Aviso aos navegantes

Se você chegou aqui porque está quase caindo no golpe do falso aparelho auditivo discreto e invisível que pipoca em anúncios na internet e nas redes sociais, leia este post com MUITA atenção.

E segue o barco…

Quem conhece minha história sabe que fui uma adolescente que escondeu a própria deficiência auditiva até onde pôde. Que o meu primeiro contato com uma fonoaudióloga envolveu uma dose cavalar de capacitismo – “penteie o cabelo para a frente, vamos usar esse aparelho bem pequenininho e discreto, assim ninguém vai ficar sabendo que você é surda, Paula!“. Como me dói a alma por saber que isso ainda acontece com milhares de jovens todos os dias! Não é à toa que tanta gente me envia mensagens desesperadas pedindo ajuda para sair do armário da surdez e começar a usar os seus aparelhos auditivos.

Fui uma adolescente que não quis usar aparelho auditivo porque sentia vergonha; que perdia tempo e energia tentando disfarçar a surdez – como se isso fosse possível! Que se ofendia se fosse chamada de surda; que chorava sozinha todas as noites.

Quando decidi sair do armário da surdez também decidi que não queria mais saber de nada que remetesse a isso. Os tempos de vergonha e de esconder minha deficiência auditiva tinham que ficar para trás a todo custo para que eu tivesse forças para seguir em frente.

O amadurecimento: a surdez progressiva

Mesmo mais forte com esse processo, foi duro para mim sair dos aparelhos auditivos intracanais e ir passando por cada um dos tamanhos até chegar nos maiores retroauriculares de todos. Claro: eu ainda estava no armário da surdez, não sabia o que era capacitismo e achava normal ser bombardeada com discursos sobre invisibilidade e discrição de próteses auditivas.

Não pelo tamanho, mas porque a cada AASI maior, mais surda eu estava. E a surdez progressiva era difícil de engolir, era sofrida e me machucava demais. Naquela época, nem tinha com quem dividir meu desespero, era eu comigo mesma. O Grupo Surdos Que Ouvem infelizmente ainda não existia.

Passei nada menos do que três décadas perdendo audição. O dia em que percebi que não ouvia nada ao lado de um aspirador de pó ligado é que fui entender a dimensão do problema que precisaria enfrentar pelo resto da minha vida. E aquilo me assustou de um jeito que nem sei explicar! A única coisa que conseguia vislumbrar a respeito do meu futuro era silêncio. Um futuro sem som era como um quadro estático num museu: cheio de beleza, mas triste.

 

Crônicas da Surdez

Escrevo o Crônicas da Surdez há 12 anos. Nesse tempo, o que mais recebi foram mensagens de pessoas que estavam vivendo essas fases que vivi na minha adolescência e início da vida adulta. Eu sabia como as pessoas que me escreviam se sentiam. Eu também já senti vergonha, pavor, medo – tudo junto e misturado. E eu também joguei toda a conta desse mix de sentimentos assustadores na conta dos aparelhos auditivos. Santa burrice pensar que, se eles fossem invisíveis e discretíssimos, minha surdez passaria despercebida.

Também rezei por um aparelho auditivo invisível, também quis poder comprar o top de linha quando não tinha dinheiro para isso, também achei que o discreto me pouparia de mais sofrimento. Isso tudo porque eu ainda não sabia o que era Capacitismo e desconhecia a sua íntima relação com a surdez.

Comprei muitas brigas por causa da questão dos aparelhos auditivos ‘invisíveis e discretos’. Fiquei conhecida por ser uma pessoa que pintaria seus AASI’s e IC’s de dourado se pudesse. Vi e vejo todos os dias com os meus próprios olhos o poder da representatividade – nada me toca mais do que uma criança apontando para os meus IC’s e dizendo ‘mãe, quero um igual ao dela‘. Quando isso acontece, sinto que todos os anos de sofrimento tiveram um propósito.

A tecnologia evolui e os tamanhos diminuem

A gente envelhece, a tecnologia evolui, as coisas vão ficando cada vez menores. Não tem como fugir disso. Entretanto, a indústria da audição continua insistindo em propagandas desagradáveis que incentivam as pessoas a sentirem ainda mais vergonha da sua surdez. Duvida? Busque por “aparelho auditivo discreto” no Google e veja com os seus próprios olhos os milhares de anúncios e posts nos sites das marcas de aparelho auditivo e implante coclear.

O que ainda me incomoda

Quando vejo propagandas de aparelho auditivo e implante coclear focando exageradamente nas palavras ‘discreto’ e ‘invisível’, me sinto muito incomodada. Acho deselegante e desagradável me deparar com isso em pleno 2022, enquanto o mundo inteiro fala sobre empoderamento pessoal e sobre sentir orgulho de ser quem se é. O foco deveria ser outro!

Às vezes o produto tem funcionalidades sensacionais e é resumido a isso: discrição e invisibilidade. Faz parte do jogo das vendas, mas, convenhamos: a indústria da audição precisa assumir sua responsabilidade social e mudar o foco. Estão passando vergonha ao incentivar as pessoas a sentirem vergonha da surdez.

Grande ou pequeno: tanto faz!

Se você buscar reabilitação auditiva, saiba que para mim é isso que importa, e não se o seu aparelho auditivo é pequeno, grande, invisível, discreto ou rosa. Quem tem que se importar com isso é você! Quero que você seja feliz, que você se aceite, que você escute o mundo como conseguir e que faça isso da maneira que for mais confortável e adequada para você.

Porém, REFLITA. Você é um consumidor da indústria da audição. Assim como compra de produtores locais, apoia empresas sustentáveis, recicla o seu lixo e apoia o movimento LGBTQIA+ e o movimento racial, por exemplo, não seria bacana seguir essa perspectiva e não dar o seu dinheiro a marcas que incentivam pessoas com deficiência a sentir vergonha de serem quem são?

É mais importante que alguém use um aparelho auditivo ‘discreto’ do que não use nenhum. Não posso, não devo e não quero julgar ninguém, especialmente pelo tamanho ou discrição do seu aparelho. Se você tiver indicação para usar e o fizer, nada poderia me deixar mais feliz e orgulhosa de você do que isso! A questão aqui é enxergar a realidade como ela é: dependemos de uma indústria que acha bonito e aceitável fazer propaganda ostensiva da vergonha de uma deficiência.

Numa boa: você não precisa tentar esconder a sua surdez (e nem tente, porque ela aparece mais do que qualquer aparelho auditivo), você não precisa ser discreto quanto à sua deficiência e você definitivamente não precisa comprar a ‘cura da vergonha’ a peso de ouro. Afinal, os invisíveis e discretíssimos são sempre…caríssimos, claro.

Tenho 40 anos e desde criança as propagandas da indústria da audição NÃO se comunicam com as mudanças culturais e sociais que vemos no mundo. A surdez não se resume a senhoras de cabelo branco, homens grisalhos com pinta de bem sucedidos e mulheres risonhas em cujas orelhas não aparece aparelho algum. Pensando alto aqui: CREDO. Que agências de publicidade são essas que vocês contraram e que briefing medonho vocês passam a elas? #medo

Glamourizar os aparelhos auditivos

Adoro glamourizar meu implante coclear, adoro mostrá-los e adoro me divertir com eles expressando a minha personalidade quando os personalizo de acordo com meu humor do dia. Mas essa sou eu.

Você tem outra visão de mundo, outra família, outros amigos, outros colegas de trabalho, outra personalidade, outras vontades, outros valores, outros desejos e outros medos. O que quero que tenhamos em comum é a busca por qualidade de vida, por independência e por coragem de lutar contra o capacitismo enraizado até o talo da indústria da audição, que pode fazer infinitamente melhor do que o modo como vem fazendo.

Entendo 100% que às vezes uma coisa simples – como um aparelho auditivo menor ou um implante coclear que não aparece – tem o poder de transformar o peso de uma experiência que ainda é difícil em leveza. E acho isso maravilhoso! Só fique atento para que esse não seja O ÚNICO motivo que te movimenta a usá-los. E saiba que, se o seu cérebro não estivesse tão acostumado a conectar surdez com vergonha graças a essas propagandas nonsense que estão em todo lugar, você estaria a anos-luz de distância de pagar caro para tentar camuflar a sua vergonha. VOCÊ NÃO PRECISA SENTIR VERGONHA DE NADA, muito menos da sua deficiência auditiva.

Nem todos vão querer escancarar sua surdez, nem todos ainda se sentem confortáveis para falar com estranhos sobre ela, nem todos ainda sabem lidar com os olhares curiosos na rua, nem todos ainda têm vontade ou ânimo para pensar sobre a deficiência auditiva todos os dias. Brinco que a minha missão é salvar o mundo uma orelha por vez. E é isso que pretendo continuar fazendo, tendo essa orelha aparelho auditivo pequeno, médio, grande, discreto, indiscreto, invisível ou cheio de luzes coloridas.

Não basta ser discreto…

Por favor nunca esqueça que não basta ser discreto, o aparelho auditivo precisa atender as suas necessidades auditivas acima de qualquer coisa. Tá cheio de gente por aí usando aparelhinho intracanal que não serve pra muita coisa no seu grau de surdez só por causa de… vergonha. Meu bem, veja só: se você foi ensinado a sentir vergonha, é hora de desaprender essa coisa errada que te ensinaram.

O que importa para mim, como alguém que já conheceu e enfrentou TODOS os graus de deficiência auditiva e já usou TODOS os tamanhos de aparelhos auditivos e implantes cocleares, é que aqueles que me procuram atrás de força para enfrentar isso encontrem acolhimento. Quero que todos que conversem comigo ou me mandem mensagens sobre esse assunto se sintam abraçados, confortados e acolhidos. Foi para isso que criei esse espaço. Estamos juntos nessa. Contem comigo. Sempre! E reflitam sobre o que eu escrevi nesse post.

??????Grupo SURDOS QUE OUVEM

Você se sente sozinho? Solitário? Não tem com quem conversar sobre a sua surdez? Gostaria de tirar mil dúvidas sobre os seus aparelhos auditivos? Gostaria de conversar com pessoas que já usam implante coclear há bastante tempo? Precisa de indicação de otorrino especializado em surdez e fonoaudiólogo de confiança?

Somos 22.000 pessoas com algum grau de deficiência auditiva no Grupo SURDOS QUE OUVEM. Para ganhar acesso a ele, basta se tornar Apoiador Mensal do Crônicas da Surdez a partir de R$5.

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LIVROS CRÔNICAS DA SURDEZ

Neste link você encontra os seguintes livros:

  1. Crônicas da Surdez: Aparelhos Auditivos
  2. Crônicas da Surdez: Implante Coclear
  3. Saia do Armário da Surdez

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About Author

Paula Pfeifer é uma surda que ouve com dois implantes cocleares. Ela é autora dos livros Crônicas da Surdez, Novas Crônicas da Surdez e Saia do Armário da Surdez.

7 Comments

  • Cristina
    19/05/2017 at 9:03 pm

    Olá Paula tenho 42 anos e ainda luto contra o autopreconceito em ser deficiente auditiva hoje menos que ontem e trabalhando mto pra melhorar , assim como vc demorei pra perceber que preciso do aparelho pra ouvir não sou 100,%surda tenho deficiência neurosensorial é hoje mais que ontem busco ajuda e relato de pessoas com o mesmo problema sou técnica de enfermagem obrigada pelo seu blog

    Reply
    • Josélia Maria Santana de Castro
      27/10/2019 at 11:11 pm

      Comecei a ler seu texto Paula e me vi inteira nele. Também sou deficiente auditiva de grau severo bilateral. Desde 26 anos diagnosticada com otosclerose é hj com 59 anos já necessito de aparelhos um pouco maiores para minha frustração. Nunca gostei que apareçam. Preciso encontrar um mini micro para perda severa pra minha felicidade. Bj no seu coração. Tmj!!!!

      Reply
      • Pryscilla Cricio
        13/08/2020 at 5:34 pm

        Olá Josélia,

        Tudo bem?

        Venha para o nosso grupo fechado no Facebook com mais de 15.300 pessoas com deficiência auditiva que usam aparelhos ou implantes. Para se tornar membro, é OBRIGATÓRIO responder às 3 perguntas de entrada.

        https://www.facebook.com/groups/CronicasDaSurdez/

        E para receber avisos sobre nossos eventos e cursos, por favor, clique e responda 4 perguntas (leva 30 segundos):

        https://forms.gle/MVnkNxctr1eahqR5A

        Estamos te esperando!

        Abraços,

        Equipe Surdos Que Ouvem

        Reply
      • Alonso Shalonay
        17/03/2022 at 11:54 am

        Também sonho com o dia em que uma fabricante inventar e disponibilizar para nós um IIC para perdas severas (50 à 70db)… Já estamos em 2022, será que ainda não existe?

        Reply
  • Zenaide de Faveri Vicente
    18/05/2017 at 6:55 pm

    Oi Paula!
    Como minha vida teria sido mais leve, se quando percebi minha surdez, por volta dos 10 anos, tivesse me deparado com pessoas que tivessem um mínimo de conhecimentos sobre o assunto. Tudo sempre foi muito difícil, sentia muita vergonha por ser surda, até mesmo me sentia culpada por isso.Tempos depois, já na idade adulta, sentia vergonha de usar AASI. Sempre tentei esconder o máximo que pude. Hoje, aos 65 anos, sou bi implantada (há 3 meses) e devido as tuas crônicas que sempre nos trazem um grande alento e também a outros blogs que tratam deste assunto com muito carinho e respeito é que me sinto parte de um grupo, de uma sociedade, pois até então, me sentia diferente, limitada e com complexo de inferioridade. Só agora tenho a sensação de estar incluída num universo de pessoas que realmente me entendem e isto é maravilhoso. Parabéns por ajudares tantas pessoas!
    Um abraço carinhoso!!!!

    Reply
  • meire bacelar
    13/05/2017 at 9:28 pm

    amei seu comentario e suas experiencia sofro dessa deficiencia tambem e prucuro ser feliz da melhor maneira possivel tambem, nao é facil mais eutou tentando a cada dia ser mais forte a anos espero por uma cirurgia no hospital geral de fortaleza, mais ate agora nada. me chamo meire bacelar

    Reply
  • Dra Neuza Gomes dá Silva
    07/05/2017 at 9:31 pm

    Estimada Paula,
    Parabéns pelo belíssimo texto sobre AASI visíveis ou não…Mais uma vez alí está a Mulher Coragem inteira a nós incentivar a enfrentar as nossas deficiências..
    Um abraço

    Reply

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