Implante Coclear

Audição Residual X Audição Funcional: o que você deve entender

Audição residual é o que ainda aparece nos exames ou o que você ainda percebe com o ouvido; audição funcional é aquilo que realmente ajuda você a entender fala, conversar, trabalhar, se orientar no mundo e viver com mais autonomia. Essa diferença é decisiva para quem recebeu indicação de fazer um implante coclear e está com medo de fazer a cirurgia porque se apega ao “restinho” de audição que ainda existe como se ele ainda fosse realmente útil. O ponto não é desprezar esse resíduo, mas sim entender: ele está servindo para quê?

Se você está nessa fase de medo, dúvida, exame, laudo, opinião de parente e Google às três da manhã, entre para o Clube dos Surdos Que Ouvem. Lá você conversa com pessoas que usam aparelho auditivo e implante coclear na vida real, sem propaganda, sem terrorismo e sem aquela conversa mole de quem nunca passou por isso.

O apego ao resíduo auditivo

Quase todo candidato ao implante coclear passa por uma fase parecida: “mas eu ainda escuto alguma coisa”, “eu ainda me viro bem com o meu resíduo auditivo”. Alguma coisa você escuta mesmo: às vezes escuta porta batendo, cachorro latindo, buzina, voz grave, barulho de panela, televisão no último volume, estouros, turbina de avião. Às vezes reconhece que alguém falou, mas não entende o que foi dito. Às vezes percebe som com o aparelho auditivo, mas precisa de leitura labial, adivinhação, repetição e muita paciência alheia.

Isso é resíduo auditivo. Ele pode existir e, ao mesmo tempo, não ser suficiente para comunicação. É como ter uma lanterna fraca numa estrada escurao. É melhor do que nada? Talvez. Dá para dirigir com segurança só com aquilo? Provavelmente não.

O problema é que a palavra “perder” mexe com a gente, e ninguém quer perder o que ainda tem. O cérebro humano se agarra a qualquer resto de segurança, mesmo quando esse resto já não está entregando vida e funcionalidade. A pessoa não se apega ao resíduo porque é boba, mas sim porque tem medo. E medo precisa de informação, não de bronca.

Quando recebi indicação para o implante coclear, em 2013, minha audição residual ainda me permitia ouvir muitas coisas. Mas eu era 100% dependente de leitura labial para compreender a fala humana, não entendia letras de músicas, não falava ao telefone, não ouvia interfones, campainhas e avisos sonoros, não conseguia conversar com mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Tudo acontecia na minha memória auditiva, e eu só fui entender como o meu próprio cérebro me enganava com a dupla leitura labial + memória auditiva quando realmente voltei a ouvir após a ativação do meu implante coclear.

Aí, sim, eu FINALMENTE ENTENDI que aquele resíduo auditivo não servia para NADA de útil e que eu era a boba da corte em 99% das situações nas quais jurava que estava compreendendo as coisas ou dominando a conversa. A audição residual tem o poder de nos iludir e nos fazer achar que estamos “bem” e que é ok continuar assim. A minha voz, por exemplo, mudou da água para o vinho após alguns meses de implante coclear e vem melhorando ano após ano. E pensar que eu achava que ninguém estranhava a minha voz dos tempos de surdez severa e profunda com aparelhos auditivos…

O que é audição funcional?

Audição funcional é a audição que faz alguma coisa útil por você e te dá plena segurança nas interações que envolvem comunicação com outras pessoas. Ela permite entender fala sem depender o tempo todo de leitura labial. Ajuda numa consulta médica, numa reunião, numa conversa em família. Ajuda a perceber alertas, localizar melhor sons, acompanhar uma aula, falar ao telefone (em alguns casos), participar de uma mesa  de conversa sem sair exausto como se tivesse corrido uma maratona invisível.

Por isso, a pergunta mais importante a se fazer é: “eu ainda entendo alguma coisa que eu escuto?”. Existe uma diferença enorme entre detectar som e compreender fala. Detectar som é saber que há barulho em algum lugar, mesmo sem saber de onde vem ou o que significa. Compreender fala é transformar esse som em significado. A vida adulta acontece no significado, na compreensão, na localização, na segurança de poder se comunicar sem depender dos outros.

Muita gente com surdez severa ou profunda tem limiares auditivos residuais, especialmente em frequências graves, mas apresenta péssimo reconhecimento de fala mesmo com aparelhos bem regulados. Isso aparece nos testes de percepção de fala e na vida prática: a pessoa ouve “alguma coisa”, mas não acompanha conversa nem é capaz de modular adequadamente a própria voz.

Por que o aparelho auditivo deixa de ajudar?

O aparelho auditivo amplifica sons, aumentando o volume para que o ouvido consiga captá-los melhor. Mas ele ainda depende das células ciliadas e das estruturas da cóclea para transformar o som em sinal nervoso aproveitável. Quando a cóclea está muito danificada, amplificar pode virar apenas aumentar a bagunça. Fica mais alto, mas não fica mais claro e nem é compreensível.

É por isso que algumas pessoas chegam naquele ponto desesperador: aparelho caríssimo, regulagem atrás de regulagem, volume alto, microfonia, cansaço, e a fala continua embolada. Não é falta de esforço ou você que “não se adaptou direito”. O ouvido simplesmente já não consegue entregar discriminação suficiente, por melhor que seja o aparelho auditivo que você usa.

O implante coclear faz outra coisa. Ele não amplifica, ele estimula diretamente o nervo auditivo transformando as ondas sonoras em impulsos elétricos no nervo auditivo. O cérebro precisa aprender a interpretar esse novo sinal, e isso exige tempo, uso constante, mapeamentos e reabilitação auditiva. Quando você é orientado por um OTORRINO ESPECIALISTA EM SURDEZ (o profissional ético e sério que só vai te indicar implante coclear quando concluir que você de fato poderá se beneficiar dele), isso significa que esse sinal elétrico será mais funcional do que o resíduo auditivo que te restou.

“Mas eu posso perder o pouco que ainda tenho de audição?”

Essa é uma pergunta legítima. Sim, existe risco de perder parte ou todo o resíduo auditivo natural no ouvido implantado. Em alguns casos, a equipe consegue preservar algum resíduo; em outros, não. Hoje existem técnicas cirúrgicas e eletrodos pensados para preservação auditiva, mas ninguém sério promete preservação total como se fosse contrato de internet.

Na vida real, funciona assim (e eu falo por experiência própria já que tenho resíduo auditivo até hoje no meu ouvido esquerdo no qual fiz implante coclear em 2016): essa audição residual não serve para NADA na prática quando você usa implante coclear. Não melhora o seu resultado com o implante coclear, ao contrário do que você acha. No meu caso, a única serventia dessa audição residual é saber quando uma porta estoura ou se alguém berrou quando eu estou sem implante coclear, mais nada.

A questão é: o que esse resíduo está fazendo pela sua vida HOJE? Se ele permite boa compreensão com aparelho auditivo, talvez a conversa seja outra e você nem vá receber indicação para o IC. Mas se ele só dá pistas soltas, sons graves, vibração e a sensação psicológica de “ainda tenho alguma coisa”, você está, por puro medo do desconhecido, protegendo um patrimônio que já não paga as contas da comunicação.

Essa frase pode doer, mas vai te libertar: quem recebe indicação para fazer implante coclear possui um resíduo auditivo inútil. Ele é apenas a lembrança de uma audição que já foi embora e que não te ajuda mais na vida real. Eu sei que é difícil de compreender isso emocioal e racionalmente, mas, se eu não te der esse chacoalhão, quem vai te dar? Falo como alguém que também sentiu medo, também achou que estava bem, também achou que a voz continuava igual, também achou assustador a idéia da audição biônica.

Mas, veja só: o implante coclear foi uma REVOLUÇÃO na minha vida, e, no primeiro mês de uso, eu já estava infinitamente melhor (em termos de acesso aos sons) do que estive nos últimos 10 anos da minha vida pré-ouvido biônico. Você só entende o que é o fundo do poço da surdez ao sair dele. Enquanto está lá, “se virando”, o seu cérebro te ajuda a ficar preso na ilusão de estar bem. Essa é a verdade dolorosa, mas é a verdade que nos liberta das nossas prisões.

O medo de trocar o conhecido pelo desconhecido

O resíduo auditivo inútil é conhecido, enquanto o implante coclear é um ponto de interrogação. E o conhecido, mesmo ruim, parece mais seguro, já que o cérebro se apega a padrão, repetição e zona de conforto. Você já sabe o tamanho da frustração, já sabe onde senta no restaurante, já sabe quando finge que entendeu, já sabe quais ambientes evita. O sofrimento vira rotina, e a rotina, por incrível que pareça, nos dá uma FALSA sensação de controle.

O implante coclear assusta porque exige atravessar uma ponte: avaliação, cirurgia, cicatrização, ativação, sons estranhos, mapeamentos, treino auditivo. Requer compreensão do processo, alinhamento de expectativas, uso constante, paciência e resiliência.

Ou seja: não é apertar um botão e virar ouvinte padrão novela das oito. Mas também não é a loteria tenebrosa que muita gente pinta. É medicina, tecnologia e cérebro trabalhando juntos para te devolver som de qualidade que faz sentido e te ajuda no dia-a-dia, devolvendo qualidade de vida.

Como pensar melhor sobre a decisão de fazer implante coclear

Em vez de perguntar “vou perder meu resíduo auditivo?”, leve estas perguntas para sua equipe:

  • Qual é meu reconhecimento de fala com aparelho auditivo bem adaptado?
  • Esse ouvido ainda me dá audição funcional ou apenas detecção de sons?
  • Existe possibilidade realista de preservar algum resíduo?
  • O meu caso permite estimulação elétrica e acústica combinada?
  • O que posso esperar nos primeiros meses após a ativação?
  • Como será minha reabilitação auditiva?

Essas perguntas tiram você do campo do pânico e colocam você no campo da decisão informada. O candidato ao IC precisa entender o processo e matar expectativas irreais de perfeição e zero esforço. Precisa conversar com otorrino, fonoaudiólogo, psicólogo quando necessário, e principalmente com usuários reais de ouvidos biônicos.

O resíduo auditivo não pode virar uma prisão

Se o seu resíduo auditivo ainda ajuda de verdade, você não terá indicação para fazer implante coclear. Mas se ele virou um argumento para manter você isolado, exausto e dependente de adivinhação, cuidado. Às vezes, a gente de engana com lindos argumentos que nada mais são do que o nosso medo gritando que não quere correr nenhum risco de ouvir melhor e passar por um recomeço.

A decisão pelo implante coclear é séria e individual. Ninguém aqui está dizendo “faça” ou “não faça”. O que eu quero é que você não confunda resto de audição inútil com recurso eficaz de comunicação. Não confunda barulho com fala. Não confunda audiometria com vida real. E, principalmente, não abra mão de anos preciosos da sua comunicação e da sua vida para defender uma audição que já te não defende há muito tempo.

Procure uma equipe de implante coclear, refaça seus exames, peça explicações claras e converse com quem já passou por isso. O objetivo não é perder o resíduo. O objetivo é ganhar função, presença, autonomia, segurança e independência.

Fontes consultadas