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surdez

A surdez possui dois efeitos fundamentais sobre mim. Ou ela me acalma a ponto de me permitir quase meditar, ou ela me enfurece a ponto de me fazer sentir vontade de jogar os implantes cocleares na parede (mas isso é assunto para outro post).

Esse ano completo 41 anos de adaptação ininterrupta à deficiência auditiva e a todos os desafios constantes que ela trouxe, sendo o principal deles o nosso querido & maldito zumbido.

Mas vamos começar falando de coisa boa! Fiz uma listinha de coisas que gosto sobre a minha própria surdez. Você não precisa concordar com o que escrevi aqui, afinal, essa é a minha perspectiva a respeito da minha experiência de vida. Já escrevi sobre as tristezas que a surdez nos traz também, caso você queira ler.

COISAS QUE GOSTO NA SURDEZ

1. Poder acessar o silêncio a qualquer momento

Essa é uma grande vantagem. Assim que ponho os pés em qualquer ambiente insuportavelmente barulhento, ou que as crianças começam a gritar, ou que a obra do vizinho inicia, ou que um caminhão dos bombeiros liga a sirene…adeus! Basta desconectar os implantes e em um segundo estou na santa paz do silêncio. Isso é um luxo!

Habitamos planeta barulhento, cheio de poluição sonora e falta de noção por parte dos seres humanos. As pessoas gritam, as pessoas acham que queremos ouvir suas conversas, as pessoas não param de berrar na rua com seus fones de ouvidos sem fio pareados que lhes rouba a noção do volume da voz. Por mais irônico que pareça uma pessoa surda dizer isso, eu não suporto barulho!

2. Poder dormir o sono dos justos toda noite

Talvez esse seja o único motivo através do qual eu possa causar inveja em alguém: não existe noite ruim na minha vida. Não existe falatório de filho, nem barulhão de raios ou chuva torrencial, muito menos de vento forte, ronco, tempestade ou tiroteio – eu moro no Rio de Janeiro, tá gente?

Outra vantagem de ter surdez profunda bilateral é poder entrar num templo budista para dormir o sono dos justos toda santa noite. Confesso que acho engraçado quando vejo as pessoas num mau humor do cão pela manhã, pergunto o que aconteceu, fico sabendo que foi algum barulho medonho que não deixou a galera dormir e solto um: “Ah, isso não me pertence“.

3. A eterna sensação de novidade

Por ter ficado tanto tempo sem ouvir tanta coisa diferente, todos os dias eu me deslumbro com algum som, por mais bobo que ele seja. Uma das coisas que mais me divirto fazendo é voltar para casa do trabalho ouvindo podcasts em inglês. Só um dos meus ICs é pareado com o celular, o outro capta o som do ambiente.

Então saio caminhando pela Avenida Nossa Senhora de Copacabana com seus 100dB de barulho incessante e ao mesmo tempo consigo ouvir e entender muita coisa do que um americano fala no meu ouvido direito. É incrível! Me sinto uma criança descobrindo o mundo todos os dias.

4. Ser uma surda que ouve

Eu posso escutar de dois jeitos diferentes: com um implante ou com os dois. E ainda assim tenho acesso a uma infinita combinação de possibilidades. Como disse antes, posso atender um telefonema com o som pareado no cérebro (kkk muito doido não?) enquanto o outro lado está ligado no que acontece ao redor. Posso ter vários mapas diferentes em cada implante e combiná-los entre si (mas eu não faria isso porque tenho juízo, hahaha). Posso ouvir música com um implante enquanto escuto a TV com outro. É uma doideira, gente.

A melhor parte da surdez, PARA MIM, é ter o privilégio de ser uma surda que ouve através da tecnologia. Isso é a cereja do bolo, é o que me faz ver algum lado bom no fato de ter deficiência auditiva bilateral profunda. É o que dá sentido a tantos anos de privações, medos, sofrimento e sonhos abandonados.

Sou muito grata por poder ouvir tudo mesmo sendo uma pessoa que não pode ouvir nada. Muito! E desejo que, caso você tenha essa possibilidade, tenha também a coragem de se permitir esse recomeço.

5. Ser expulsa da minha zona de conforto

Se não fosse tudo o que já vivi com a surdez, não sei se seria uma pessoa tão corajosa e destemida como me considero. Ela me expulsa da zona de conforto todos os dias, de diferentes maneiras. Ela me obriga a abandonar as desculpas esfarrapadas que eu poderia usar, se quisesse. Ela me ensina a não me submeter ao medo, a meter as caras, a encarar todas as situações desafiadoras que surgem de cabeça erguida.

A surdez me ensinou a encontrar a porta secreta das ruas sem saída que percorri. Com ela, aprendi a empreender e a encontrar soluções diferentes para os problemas que apareciam. Ela me ensinou a não sentir vergonha de ser quem eu sou, a “ler” as pessoas, a fazer leitura labial e a apreciar o tempo que me resta aqui na Terra de outra forma. Com a surdez, aprendi a ouvir o barulho de dentro e a manter o foco na solução, não no problema. Também aprendi que ser uma chata reclamona que curte se vitimizar não está com nada e que precisamos jogar com as cartas que temos. E ao chegar à surdez profunda, fui finalmente expulsa de qualquer zona de conforto que ainda restava e isso me levou a lugares que jamais imaginei que chegaria.

E VOCÊ?

Me conta o que você gosta a respeito da sua surdez? 🙂

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About Author

Paula Pfeifer é uma surda que ouve com dois implantes cocleares. Ela é autora dos livros Crônicas da Surdez, Novas Crônicas da Surdez e Saia do Armário da Surdez e lidera a maior comunidade digital do Brasil de pessoas com perda auditiva que são usuárias de próteses auditivas.

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