Relatos de Pessoas com Deficiência Auditiva

A história da Paloma: surda oralizada e biomédica

‘Meu nome é Paloma, tenho 22 anos de idade e sou mineira. Descobri minha deficiência com 11 meses! Hoje tenho deficiência auditiva profunda bilateral, comecei a usar  aparelho auditivo com 1 ano de idade. Sou oralizada e faço leitura labial! Cada vez que trocava o AASI por um mais moderno descobria um barulho novo, escutava alguma coisa nova. Faz uns três anos que estou uso um AASI, aprendi coisa nova com ele, comecei a escutar barulho baixinho que não ouvia , comecei a ouvir passarinho cantar, coisa q não tinha ouvido porque o barulho era muito baixo mesmo! Barulho da sanduicheira quado ela apita que está pronto comecei a ouvir também…

Amo usar aparelho auditivo, aprendi muita coisa com ele e não sei o que seria da minha vida sem, pois com ele posso ouvir as coisas! Fiz faculdade de Biomedicina, fui morar a uns 200km longe da família. Concluí a faculdade no final de 2015! Sou recém formada, Biomédica.

A minha mãe estava fazendo faculdade de Fonoaudiologia e precisou parar para poder cuidar de mim, já que eu precisava de atenção. Ela começou a me ensinar a falar, me ensinou as cores, me fez usar aparelho auditivo. Quando comecei a usar, era pequenininha e queria ficar tirando toda hora porque incomodava demais, mas minha mãe me falava para colocar e ficava sempre no meu pé para usar;  ela saía comigo na rua mostrando os barulhos e explicava qual barulho era, assim fui aprendendo as coisas. Fiz muita arte com o aparelho, porque eu era pequena e não entendia as coisas. Um dia peguei o AASI e joguei na privada, meu pai ficou apavorado porque era muito caro!

Daí ele pegou o secador e salvou o aparelho que, graças a Deus, funcionou! Depois meus pais ficavam me explicando que não podia fazer essas coisas…Minha mãe pegava a bicicleta dela, me colocava na cadeirinha e me levava na fono na APAE de Itanhandu – durante o caminho, ela parava mostrando e explicando cada barulhinho. Comecei a gostar do aparelho auditivo e não queria tirar mais do meu ouvido, porque comecei a ouvir barulhos! Minha mãe me ensinou muita coisa antes de eu entrar para a pré-escola, então quando entrei já sabia mais do que as outras crianças. Durante a escola aprendi as coisas, evoluí normalmente, apenas tinha uma deficiência auditiva. Usava meu aparelho auditivo o tempo todo.

Quando entrei para o ensino fundamental no Objetivo passei a sofrer preconceito, fui excluída muitas vezes de fazer trabalho em grupo, não conseguia interagir! Sempre tinha panelinha de meninas, não conseguia participar desse grupos e ficava em isolada. Quando estava na 8 série, pedi para ser trocada de sala, porque estava sofrendo muito com as meninas! Aí fiz novas amizades, as meninas me ajudaram muito, elas me chamavam pra sair, para ir na casa de uma e outra, dormir na casa delas, ficamos muito amigas e ficamos juntas até o ensino médio! Quando chegou no segundo ano do ensino médio, a escola resolveu juntar as duas salas, daí começou tudo de novo – meninas da outra sala começaram a falar mal de mim, várias se afastaram, apenas 5 ficaram ao meu lado e nos formamos juntas.

Passei na faculdade de Biomedicina em uma faculdade particular, consegui bolsa de estudos, graças a Deus, porque meus pais não tinham condições de pagar a faculdade mais a moradia e a comida. Fui embora para São José dos Campos em janeiro de 2012, para começar a fazer faculdade de Biomedicina, fui morar com mais 2 duas meninas em um apartamento! Tive dificuldade de interagir com as meninas na faculdade, fazia trabalho em grupos diferentes, trocava toda hora. Ficava incomodada com isso, mas levava na boa. Os professores da faculdade eram mais inclusivos do que no ensino médio. Não tive problemas nem precisei explicar sobre minha deficiência auditiva, bem diferente do que aconteceu no ensino médio, quando eu precisava correr atrás dos meus direitos e brigar o tempo todo com a escola.

A faculdade foi tranquila e sem muita dificuldade! Graça aos professores que tiveram muita paciência e atenção comigo e à minha coordenadora do curso que sempre perguntava se estava tudo bem! Meu único problema foi a questão das amizades, pois não consigo fazer amizade até hoje! Não consigo mais tirar o aparelho auditivo pois aprendi muita coisa com ele. Apenas tiro para tomar banho e para dormir;  para dormir é uma maravilha, porque você não ouve nada e ninguém te incomoda, rsrsrs! Quando morava sozinha meu pai comprou um negócio pequeno que você coloca na lâmpada e marca a hora para ela acender – assim que eu acordava.

Sou grata à minha mãe que me fez usar e gostar de usar aparelho auditivo, forçou, me ensinou a falar – ela queria que eu falasse para que pudesse interagir com as pessoas. Ela ficava muito preocupada pensando como eu iria me virar no mundo, com língua de sinais era tudo mais difícil! Por isso ela queria que eu falasse para eu pudesse ser independente. Sem ela e meu pai não sei o que seria de mim!

Preciso continuar treinando, é muito bom fazer isso! Assim você vai aprendendo a ouvir os sons de cada palavra, pode pedir pra sua mãe, seu pai, namorado, marido, amiga, seja quem for que você queira, peça para que eles ajudem você, falando as palavras de costas para você advinhar o que estão falando! Assim você vai treinando os sons de cada palavra e vai guardando na memória. Temos que aproveitar o aparelho auditivo e descobrir as coisas com ele! Está ouvindo algum barulho diferente? Pergunta pra alguém que esteja ao seu lado que barulho é, assim você vai guardando cada vez que ouve um barulho novo! Um belo dia você irá ouvir e já vai saber que barulho é, não vai precisar ficar perguntando. Mas não tenha vergonha e pergunte quando precisar! Estamos aqui para aprender!

Meus pais vivem à procura de algo melhor para mim, correm atrás de aparelho. Sou grata a eles por me fazerem falar, não depender deles e ter uma vida normal! Agradeço ao meu namorado também, que sempre teve paciência comigo durante nossos cinco anos de namoro – eu falava algumas palavras erradas, ele dava risada e me ensinava a falar do jeito certo! Hoje sou Biomédica, escolhi essa profissão pois amo ajudar as pessoas.”