Acho que um dos maiores desafios que a deficiência auditiva nos coloca diz respeito à nossa vida profissional. Quem acompanha esse blog já leu relatos de estudantes de medicina, de jornalistas e de outros profissionais que lidam com a surdez no dia-a-dia de suas profissões. Hoje, vamos ler o relato de um ilustre advogado gaúcho.
CRÔNICAS DA SURDEZ ALÉM DAS NUVENS
*Flor Edison da Silva Filho
“Folheando a revista de bordo da TAM deparei com a reportagem sobre o ‘Crônicas da Surdez’, site editado pela Paula Pfeifer. Li com muito interesse, afinal sou como se diz por aí ‘surdo como uma porta’.
Chegando a Porto Alegre, tratei de me matricular no Crônicas da Surdez e comecei a receber os agradáveis – instrutivos na verdade – posts da Paula. Logo que tive oportunidade, enviei-lhe um e-mail elogiando o trabalho que vinha desenvolvendo.
E não é que ela me respondeu de uma maneira extremamente simpática! E ainda me lançou uma provocação para escrever alguma coisa sobre a minha experiência pessoal, que ela trataria de postar no Crônicas. Não preciso dizer que fiquei todo besta com o convite, tipo assim ‘me achando’…
Falando sério: fiquei muito orgulhoso com a proposta.
Mas, o mais importante de tudo é que o pedido dela me fez refletir que afinal eu teria, sim, muita experiência para relatar. Devo dizer que me foi requisitado falar a respeito de minha experiência profissional como advogado, profissão que exerço há muitos anos, e, a esta altura, creio que posso me considerar um advogado respeitado entre os colegas e magistrados, e bastante conhecido na minha área de atuação, tudo como resultado de muitos anos de dedicada atuação.
No entanto, preciso reconhecer e declarar em alto e bom som que a provocação da Paula me fez, pela primeira vez, refletir a respeito das dificuldades que devo ter enfrentado ao longo da minha existência, com os ouvidos moucos que possuo. Pois não é que passei flanando e advoguei esse tempo todo sem sentir a menor inferioridade, suprindo como possível as dificuldades.
De uns anos para cá, no entanto, não mais compareço a audiências porque não consigo acompanhar adequadamente os depoimentos. Meus colegas de escritório suprem, e bem, essa impossibilidade. Mas, ainda hoje, com muita frequência faço sustentações orais nos Tribunais.
É um sarro, porque tenho que me fazer acompanhar de um colega que vai me relatando os votos dos juízes: por escrito! E, como já aconteceu, se algum desembargador me dirige a palavra, esse colega trata de suprir a informação para que eu possa ser atencioso como convém. Boa parte deles já me conhece bem e sabe das minhas dificuldades. Mas, às vezes, a gente, quero dizer, nós, os deficientes auditivos, fazemos grosserias involuntárias.
Concluo, antes que isto aqui fique muito longo, contando um caso de grosseria que para mim foi dramático.
Num dia 11 de agosto, anos atrás, quando ainda me achava ‘dono da pelota’, fui fazer uma sustentação oral sozinho. Para os que não sabem, informo que o dia 11 de agosto é o dia do advogado. Meu processo era o primeiro da pauta. Presidia a sessão o Desembargador Délio Wedy. Antes de me conceder a palavra, o Dr. Wedy, que sempre dedicou muita consideração aos advogados, fez uma longa manifestação homenageando a classe em razão da data.
Eu, em pé na tribuna, sozinho e não ouvindo uma palavra do que ele dizia. Achei que era uma homenagem pelo dia, mas não tinha certeza. Na hora, fiquei sem iniciativa e não tive coragem de confessar a minha dificuldade, não a deficiência auditiva que isto era visível pelo uso de aparelhos e nunca escondi de ninguém, mas o fato de nada ter ouvido.
Afinal, não sabia o que ele havia falado. Embora a minha longa experiência profissional, fiquei sem ação, paralisado. Quando ele me deu a palavra, simplesmente fiz a minha sustentação oral e fui embora.
Ou seja, fui extremamente grosseiro com todos os integrantes da Câmara, pois deveria ter aberto minha sustentação com um gesto de agradecimento à homenagem aos advogados, era o que a educação impunha. Depois, tratei de tirar a limpo a situação e buscar um jeito de consertar a grosseria. Fiquei extremamente consternado com o fato, eu que sou um sujeito ameno e gentil. Escrevi uma carta a cada um deles e fui levar em mãos nos respectivos gabinetes. Acho que consertou tudo. Tomara que sim. 🙂
Pronto, Paula, eis aí um flash da vida do advogado deficiente auditivo, mesmo assim com intensa atuação forense, apesar do estranho nome – Flor – e que não pode se queixar da vida, porque ela só o recebeu com sorrisos.
Rindo do nome, talvez… Aliás, conviver com esse nome desde pequenino e nunca o transformar num F ponto Edison, serve de comprovação de que uma deficiência auditiva bilateral não seria suficiente para prostrar este gaudério. Depois explico, se houver oportunidade, de onde vem esse Flor com que carinhosamente me batizaram os meus saudosos pais. Tchau.”
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