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Conexões Sonoras / Deficiência Auditiva

Meu filho é surdo: e a escola?

“Meu filho é surdo: ele terá que estudar em escola especial?”- essa é uma das primeiras perguntas que os pais de uma criança surda fazem sobre educação, e, respondendo: não! Seu filho(a) pode estudar em escola regular e nenhuma pessoa surda é obrigada a ir para escola especial!

A escolha entre escola regular ou especial para uma criança surda depende de vários fatores, e você precisa se fazer algumas perguntas: você incentiva a fala de seu filho(a) e busca reabilitação auditiva, terapia fonoaudiológica? Quer ver seu filho aprender a falar, ler e escrever? Quer que ele aprenda língua de sinais, sabendo que, caso positivo, a família inteira também teria que aprender? As escolas especiais da sua região possuem qualidade no ensino? Entre outras…

Escola regular

Uma escola regular (comum) é onde o aluno surdo oralizado terá um incentivo muito maior para falar e usar as próteses auditivas pois os colegas são, em sua maioria, ouvintes, assim, há diversos estímulos sonoros e de leitura labial todos os dias. Também, é uma amostra do mundo que espera o futuro adulto: ouvinte, cheio de sons e bem diverso. Claro que nada impede que a criança, se quiser, aprenda uma língua de sinais em casa ou em outro lugar e seja bilíngue, se comunicando com os colegas e família tanto por língua de sinais como português oral, o que for mais conveniente.

Escola especial

Nas escolas especiais é ensinada a Libras (Língua Brasileira de Sinais), seus aspectos e estrutura, e nelas o convívio escolar se restringe majoritariamente a outros surdos sinalizados e aos professores, que podem ser surdos ou ouvintes. São instituições que focam na Libras como primeira língua, e, pelo menos em teoria deveriam ensinar o português escrito, pois além de ser lei, é fundamental saber ler e escrever até para o simples uso de computadores e celulares, e o convívio com ouvintes na vida pessoal e profissional é inevitável. 

Mas infelizmente são raríssimas as escolas especiais que cumprem a parte de alfabetização em português, a maioria permanece com foco na Libras e a alfabetização no português é precária, por diversos motivos, como políticas públicas ineficazes, ou falta de profissionais qualificados e a velha e ultrapassada história de que todo surdo deve saber só língua de sinais Sobre o bilinguismo, vamos falar em outro post. 

Então o que fazer quando seu filho surdo oralizado, ou seja, que fala ou que está aprendendo a falar, está em uma escola regular, quais adaptações precisam ser feitas, e que informações sobre surdez, próteses auditivas você precisa compartilhar com os professores? Vamos aos tópicos principais:

Converse com seu filho(a)! 

Se seu filho aceita, usa e ama as suas próteses auditivas sem vergonha, é muito difícil que outras crianças façam chacota sobre isso, pois elas verão os aparelhos e/ou implantes como algo legal, coisa de um cyborg, futurista! Portanto, o processo começa em casa, sem tentar esconder os aparelhos, sem sentimento de pena e nem segredos ao falar sobre o assunto. Ajude a criança a sair do armário da surdez! Trate as próteses auditivas de seu filho(a) com cuidado e normalidade, e procure pelos adesivos que são feitos para decorá-las, de desenhos animados e super heróis, isso pode tornar tudo muito mais divertido! 

Converse com a criança, explicando que você irá na escola para ensinar aos professores e aos colegas sobre os aparelhinhos dela, e a convide para ser a estrela desse momento. Ensine sobre a importância de seu filho se manifestar quando estiver com alguma dificuldade de ouvir em aula, pois a surdez tem peculiaridades que só quem convive com ela, sabe. É o feedback de seu filho(a) que poderá dar ideias de mais adaptações.

Converse com a escola

As escolas regulares muito pouco conhecem sobre surdos oralizados. Embora no Brasil os pedagogos possuam a obrigação de cursar uma disciplina de Libras e uma sobre políticas públicas de educação inclusiva, infelizmente não tem nada, ou praticamente nada, sobre oralização e próteses auditivas. Portanto, cultive a comunicação constante com os professores e a coordenação escolar, com reuniões para que todos entendam as necessidades e adaptações sobre surdez. 

Lembre-se de que é difícil para ouvintes absorverem um “turbilhão” de informações sobre aparelhos auditivos (AASI), implantes cocleares (IC), seus acessórios e educação inclusiva de uma vez só, então se possível, marque uma primeira reunião, mais completa, e posteriormente, faça o acompanhamento com outros encontros! 

Explique a importância do uso diário das próteses auditivas para atingir bons resultados, sobre os cuidados necessários como manter longe de água e outros líquidos, e que AASIs e ICs não são baratos para serem tratados de qualquer jeito  – a parte externa de um implante pode custar até 50 mil reais! Instrua os professores sobre como colocar os aparelhos/implantes na criança pequena, ensine-os a trocar as pilhas ou baterias, e claro, sempre deixe uma cartela de pilhas reservas na mochila de seu filho(a).

Converse com fono e professores

Verifique com seu fonoaudiólogo como estão as horas de uso diário dos AASI ou ICs, porque essa informação fica registrada nos aparelhos (em alguns modelos já é possível acompanhar pelo celular). Se estiver desconfiado de que na escola seu filho não está usando eles, converse com ele e com os professores para saber o que está acontecendo, e também avise a escola que você tem como verificar as horas de uso, pois, pasmem: já teve escola tirando as próteses auditivas da criança, querendo obrigar a Libras, contra a vontade dela e da família. 

É importante explicar que mesmo com reabilitação auditiva a surdez não está curada e que é preciso ter atenção constante para que os professores falem de frente para a turma, que o aluno surdo seja mantido nas primeiras cadeiras da sala e as atividades sejam inclusivas.

Tudo isso exposto até aqui compõe um tipo de acessibilidade que não precisa nem de adaptações físicas e nem de tecnologias mirabolantes ou caras: é apenas a conscientização e constante diálogo com a escola que constroem essa inclusão, que também é conhecida como acessibilidade atitudinal, e que já faz uma enorme diferença na educação!

Adaptações e tecnologias na sala de aula 

No quesito tecnologia,  o sistema FM é o mais conhecido. E o que é? É um kit com um pequeno microfone, que capta a voz dos professores e envia o som para os aparelhos auditivos ou implantes cocleares do aluno, que deve utilizar o outro componente do kit, que é o receptor encaixado na entrada de áudio ou bobina telefônica das próteses auditivas.

O aluno continua ouvindo tudo do ambiente, os colegas, mas ouve de forma muito mais clara a voz do professor que está com o microfone. Para saber os critérios e mais detalhes, clique aqui. Quem não se enquadra nos critérios para recebimento, pode procurar por acessórios da sua marca de AASI e/ou IC que possuem função semelhante e em caso de dúvidas, converse com seu fonoaudiólogo.

Aro magnético

Você talvez já tenha ouvido falar de aro magnético, que ainda é pouco conhecido no Brasil, e funciona semelhante ao sistema FM: com um microfone que fica com o professor, e para ouvir, o aluno apenas fica na área abrangida pelo aro, e o som é transmitido via ondas magnéticas para a bobina telefônica dos aparelhos ou implantes.

O bom dessa tecnologia é que atende quantas pessoas quiserem utilizar, basta apenas ficar na área de alcance do sinal, assim, a turma pode ter vários alunos surdos utilizando o mesmo aro.

Sistema FM

Entretanto, o sistema FM é mais fácil de conseguir pelo SUS, porque o aro ainda não possui previsão de fornecimento através do governo.

Você pode sugerir à escola que nos fundos da sala de aula, no campo de visão dos professores, ou na mesa deles sejam colocados avisos para relembrá-los sobre os cuidados com o aluno surdo, pois é comum que ouvintes esqueçam de ter essa atenção 100% do tempo, afinal, o mundo é ouvinte.

Sugestões de frases: “Fale de frente para os alunos”, “Use o sistema FM”, e “Repita as perguntas feitas antes de respondê-las” – essa última, é porque quando algum colega pergunta algo, raramente o aluno surdo consegue fazer leitura labial para saber qual a pergunta feita, afinal, ele está sentado na frente. (Essa situação é clássica para quem não escuta!). 

Esses lembretes podem ser impressos em folhas normais, com custo quase zero, mas têm um imenso poder de transformar a sala de aula, de um pesadelo não inclusivo para um local agradável onde o aluno surdo se sentirá respeitado e visível. O esquecimento dos ouvintes em atender à acessibilidade cansa quem não ouve, que pode desistir ou ficar com vergonha de pedir repetidas vezes para que os professores falem de frente, portanto os avisos serão muito úteis!

Tornando as atividades inclusivas 

Avise aos professores que os vídeos e filmes devem possuir legendas sempre, e que não adianta só aumentar o volume para fazer o aluno surdo ouvir. Em atividades como ditados, geralmente as palavras são aleatórias, assim, é impossível entender por interpretação do contexto e assunto. Se houver dificuldade mesmo com a leitura labial, podem ser utilizadas figuras para ilustrar as palavras ditadas. 

A música tem um papel importante na sala de aula, e quem tem surdez jamais deve ser deixado de fora dela, então a letra a ser cantada ou estudada em sala pode ser impressa e entregue ao aluno, ou escrita na lousa. No caso de crianças ainda não alfabetizadas, podem ser utilizados vídeos ou figuras ilustrativas, além da leitura labial.

Nos ginásios de esportes a maioria das pessoas com deficiência auditiva sofrem horrores para entender algo falado pois a acústica é muito ruim, portanto, as atividades podem ser explicadas ainda em sala de aula, ou demonstradas pelo professor na quadra. Se a criança não consegue ouvir os apitos durante uma partida, instrua os professores e colegas a combinarem um gesto para avisar o aluno que não escuta.  

Fique atento aos seus direitos 

Nenhuma escola pode cobrar valores diferentes, nem qualquer taxa adicional para alunos com deficiência, e jamais pode recusar matricular a criança em função da surdez ou qualquer outra condição. Essa prática é discriminação! A Lei Brasileira da Inclusão, que é a Lei 13.146/2015, em seu capítulo IV explica sobre o direito de acesso à educação inclusiva, acesso às instituições de ensino e igualdade de condições, e sobre a oferta de tecnologias assistivas, sem qualquer taxa adicional na mensalidade. 

Essa mesma lei garante um profissional de apoio escolar, em seu artigo 28, inciso XVII, também sem custo adicional. Certo, mas o que é um profissional de apoio? Quem pode solicitar? Conforme o artigo terceiro, inciso XIII:

  “XIII: profissional de apoio escolar: pessoa que exerce atividades de alimentação, higiene e locomoção do estudante com deficiência e atua em todas as atividades escolares nas quais se fizer necessária, em todos os níveis e modalidades de ensino, em instituições públicas e privadas, excluídas as técnicas ou os procedimentos identificados com profissões legalmente estabelecidas;” 

Ou seja, pelo bom senso, vemos que é algo mais direcionado para as deficiências que causam limitações na alimentação, higiene e locomoção. E profissional de apoio não deve, e nem mesmo pode, ser um “segundo professor”, pois não possui formação para tal. Também, a intenção da educação inclusiva é que o aluno com deficiência participe das aulas junto com toda a turma e o professor da sala, se houvesse um “segundo professor” exclusivo para ele, o sentido de inclusão corre o risco de ser perder, e o aluno com deficiência ser educado separado dos outros. 

Não faça confusão

Portanto, não confunda profissional de apoio com aulas de reforço escolar. Caso você entenda que seu filho necessita de um profissional de apoio, procure a escola para dialogar sobre quais atividades podem ser desempenhadas por eles, se realmente é necessário ou se os professores conseguem atender às necessidades de acessibilidade. 

E se você tiver alguma dúvida sobre surdez e escola, entre em nosso grupo do Facebook, onde há muitos pais de crianças surdas que estudam ou já estudaram em escolas regulares, fazem cursos de idiomas, música e esportes, inclusive natação. É uma rede de apoio maravilhosa que pode ajudar muito nessa jornada educacional. Não desista da educação de seu filho(a), é a melhor herança que você pode lhe oferecer! 

Sobre

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 38 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

4 Comentários

  • Geraldine
    12/02/2020 at 11:05 pm

    Oi Paula! Só discordo da questão do professor auxiliar. Ele é de extrema necessidade em especial quando aluno está iniciando a oralizar e em transição para atingir vocabulário cotidiano. O professor auxiliar ele auxilia mostrando.imagem associando com a fala para que a criança possa compreender o conteúdo e a atividade proposta. Não fica todo tempo em sala de aula. A presença dele é pontual em sala de aula. Se faz necessário também porque a professora regente de classe não tem como dar atenção a um ou dois deficientes e mais 20 25 alunos em sala de aula . É impossível e isto vem sendo debatido no Ministério Público do Estado do Rio Grande em seminários que participei.
    Em tempo que querem obrigar crianças a falarem em libras, a escrita e a compreensão no português escrito deve ser muito bem trabalhada e aí entra o professor auxiliar. Além disso, temos que ter uma visão mais genérica muitos não tem condições de pagarem professor particular extracurricular e estão em escolas públicas, onde o ensino é precário, inobstante seja um dever do Estado a educação.
    Então melhor manter o direito ao professor auxiliar do que exclui-lo. Usa quem precisa e acha necessário, mas o direito está ali. Maurícyo tem professor auxiliar e o desenvolvimento é espantoso tanto do vocabulário escrito como verbal. Beijos

    Responder
  • Vera Silva Lima
    13/12/2019 at 11:36 am

    Bom dia excelente post.
    Tenho um filho com perca severa/profunda
    Mas também tem outras deficiência…e o ano que vem ele vai pra uma escola regular
    Minha dúvida é ele não fala (nada) mas entende mesmo com seu cognitivo atrasado o que falamos dês que faça algum gesto junto (existe palavra que não pretendo fazer gesto ela já entende só de “ouvir” como o tchau)
    Minha dúvida é tomei a decisão certa em por em uma escola regular mesmo que ele não fala?
    Ele tem 4 anos
    Usa aassi

    Responder
  • Renata Petry
    12/12/2019 at 9:21 pm

    Boa noite.. tenho um sobrinho surdo implantado.. moro no interior de São Paulo.. É ele é o primeiro aluno implantado na rede.. seus posts estão sendo de grande importância para minha família. Pois estamos aprendendo tudo por.conta própria.. Não temos auxílio em nossa cidade.. Poderia me enviar essa matéria por e-mail.. gostaria de imprimi la.. pra poder levar na escola onde meu sobrinho iniciará a educação infantil!

    Responder

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