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Não me adaptei ao Aparelho Auditivo: NÃO MINTA para si mesmo

Quem diz “não me adaptei ao aparelho auditivo” na maioria das vezes, infelizmente, está mentindo. Afinal, para afirmar isso categoricamente, a pessoa deve ter feito uma série de coisas que, em 99% das vezes, não fez. É desonesto consigo mesmo e com os outros dizer “não me adaptei ao aparelho auditivo” de forma leviana, sem antes fazer um checklist e conferir se seguiu o passo-a-passo mínimo para que um paciente com perda auditiva consiga se adaptar às próteses auditivas.

Talvez o aparelho realmente esteja mal indicado, mal regulado ou desconfortável; talvez você tenha comprado tecnologia demais e feito acompanhamento de menos; talvez exista uma perda auditiva que precise de outra investigação feita por um médico otorrino especialista em surdez; talvez você não tenha compreendido as limitações do seu tipo e grau de surdez e o que um aparelho auditivo é capaz de fazer no seu caso, e, acima de tudo, talvez você não tenha usado o dia inteiro todos os dias nem feito um diário de conquistas e desconfortos para levar na próxima consulta com o seu Fonoaudiólogo.

Mas também talvez você esteja usando a frase “não me adaptei” como uma maneira elegante de fugir do processo de adaptação, que não acontece num passe de mágica e demanda muita resiliência. Aparelho auditivo não é óculos, que você coloca e sai enxergando o mundo sem dificuldade. Ouvir de novo exige adaptação de um cérebro que foi privado de som, paciência, regulagens, fonoaudióloga competente, otorrino quando necessário e, principalmente, uma dose generosa de verdade consigo mesmo.

Eu sei que essa frase irrita. Ninguém quer ouvir que está mentindo para si mesmo quando já gastou dinheiro, ficou com dor na orelha, ouviu barulho de talher como se estivesse dentro de uma fábrica e pensou “prefiro continuar surdo”. Só que existe uma diferença enorme entre reconhecer um problema real de adaptação e transformar qualquer desconforto inicial em sentença definitiva de não adaptação. A primeira atitude leva você a corrigir a rota. A segunda joga você de volta para o isolamento, para o “hein?”, para a leitura labial exaustiva, para a dependência dos outros e para aquela solidão auditiva que muita gente finge que não existe.

A regra de ouro da surdez é: SUA SURDEZ É SUA RESPONSABILIDADE. E ela exige verdade, autocrítica e realinhamento de rota e de expectativas para que a sua adaptação aconteça.

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Checklist da adaptação ao aparelho auditivo

Antes de sair por aí declarando “não me adaptei ao aparelho auditivo”, você deve fazer as seguintes perguntas a si mesmo:

  1. Compreendo 100% meu tipo e grau de perda auditiva e as limitações que isso me impõe?
  2. Compreendo o que o aparelho auditivo é capaz de fazer no MEU caso de surdez?
  3. Consultei um médico otorrino especialista em surdez?
  4. Tenho expectativas REALISTAS a respeito do uso de aparelho auditivo? (PS: quem espera ouvir e entender tudo não tem expectativas realistas, ok? Surdez não combina com perfeição)
  5. Compreendo que aparelho auditivo é uma ajuda para ouvir melhor e não um ouvido novo?
  6. Compreendo que quem ouve é o cérebro e não o ouvido, e que ouvir melhor não é uma questão de aumentar o volume dos sons?
  7. Após comprar o aparelho, usei-o o dia inteiro todos os dias por, no mínimo, alguns meses?
  8. Compareci a novas consultas de regulagens do meu aparelho auditivo?
  9. Fiz um MAPEAMENTO DE FALA para ter certeza de que meu aparelho está regulado do jeito correto para a minha perda auditiva dentro das possibilidades?
  10. Conversei com outras pessoas que usam aparelhos auditivos para compreender melhor o processo?

“Não me adaptei ao aparelho auditivo” pode significar muitas coisas

Quando alguém diz que não se adaptou ao aparelho auditivo, a minha primeira vontade é perguntar: não se adaptou a quê, exatamente? Ao som? Ao molde? Ao tamanho? À estética? À fono? À própria ideia de ser uma pessoa com perda auditiva?

Porque são problemas completamente diferentes. Um aparelho que machuca a orelha pede ajuste físico e refação do molde e da regulagem. Um som metálico, alto demais ou cansativo pede regulagem. Dificuldade para entender fala em restaurante pode exigir mudança de programa, microfone remoto, treinamento auditivo e expectativas menos cinematográficas. Vergonha de aparecer com aparelho é outra conversa: aí já estamos falando de luto, vaidade, identidade e medo do julgamento alheio, típico de quem está no armário da surdez. Tudo legítimo e muito humano. Mas não é tudo a mesma coisa.

O aparelho auditivo não fracassa sozinho

Aparelho auditivo é parte de um processo de reabilitação auditiva. Ele precisa ser escolhido de acordo com o seu tipo de perda, seu exame, sua rotina, sua sensibilidade, sua destreza manual, seu orçamento e suas necessidades reais. Precisa ser regulado, testado, reavaliado e, acima de tudo, usado. Precisa de retorno. Precisa de ajustes finos. Precisa de alguém que explique o que é normal no começo e o que não é aceitável nunca.

Pare de terceirizar tudo

Agora vem a parte chata, com carinho, mas sem passar a mão na cabeça de ninguéma: você também precisa fazer a sua parte. Não dá para usar o aparelho duas horas por semana, só em ocasiões sociais barulhentas, e depois decretar que ele não presta. Não dá para guardar na gaveta durante três meses e voltar reclamando que “não acostumou”. Não dá para esperar que seu cérebro, depois de anos recebendo som pela metade, ache tudo maravilhoso em dois dias.

O cérebro se acostuma com o silêncio. E quando o som volta, ele reclama. Reclama do papel amassando, da torneira, do cachorro, da própria voz, do salto no corredor, da respiração do marido, do mundo existindo. Isso não significa automaticamente que o aparelho está errado. Significa que seu sistema auditivo estava privado e agora está recebendo estímulos de novo. A pergunta não é “isso me incomoda?”. A pergunta é “isso melhora com uso consistente e boa regulagem?”.

Se melhora, continue. Se não melhora, volte à fono. Se a fono não escuta você, busque outro profissional. Se existe tontura, dor, secreção, piora súbita ou uma sensação estranha que ninguém consegue explicar, procure um otorrino. O que não dá é transformar uma experiência ruim em decreto que define o resto da sua vida, porque isso não é honesto.

O teste da honestidade brutal

Antes de dizer “não me adaptei”, responda com sinceridade:

  • Usei todos os dias por algumas semanas, aumentando o tempo de uso?
  • Voltei para as regulagens combinadas ou desapareci?
  • Expliquei exatamente o que estava ruim ou só disse “está horrível”?
  • Testei em ambientes diferentes, inclusive em casa, antes de me jogar no restaurante lotado?
  • Tenho expectativa de ouvir como antes da perda auditiva?
  • Estou rejeitando o aparelho ou rejeitando a minha surdez?

Quando o problema é o aparelho, não a sua cabeça

Também existe o outro lado: há aparelhos mal indicados, moldes ruins, regulagens preguiçosas, maus profissionais que só se interessam em vender (e fazem do pós-venda um inferno) e promessas absurdas. Há perdas auditivas que exigem investigação médica profunda. Há casos em que o aparelho auditivo convencional não entrega benefício suficiente e o caminho pode envolver outras soluções, como implante coclear ou cirurgias da audição (como a cirurgia de otosclerose).

Se você tentou de verdade, fez retornos, ajustou, usou, relatou, insistiu e ainda assim continua sofrendo, não aceite o “é assim mesmo” como resposta automática. Peça outra avaliação. Leve seus exames. Anote situações específicas: televisão, telefone, reunião, restaurante, carro, igreja, família falando ao mesmo tempo. Quanto mais concreto você for, melhor a chance de alguém ajudar de verdade.

A frase que ninguém quer ouvir

Tem gente que não se adapta ao aparelho auditivo porque comprou errado. Tem gente que não se adapta porque foi mal acompanhada. Tem gente que não se adapta porque precisa de outro tratamento. E tem gente que não se adapta porque, no fundo, ainda está tentando provar para si mesmo que não precisa dele.

Essa última categoria é dolorida. A perda auditiva mexe com vaidade, autonomia, trabalho, casamento, amizade e autoestima. O aparelho auditivo aparece exatamente onde a surdez era invisível mas, cá entre nós, a surdez aparece mais do que qualquer aparelho de audição.

Quem denuncia a sua surdez é você respondendo coisa sem sentido, evitando encontros, ficando exausto, brigando porque não ouviu, desistindo de participar das conversas e das interações sociais. O aparelho, quando bem indicado e bem adaptado, é uma ferramenta maravilhosa que só traz qualidade de vida. Desistir disso em uma semana ou um mês por desinformação ou preguiça não rola, convenhamos.

O que fazer agora

Se você está nessa fase do “não me adaptei”, não tome uma decisão definitiva no auge da irritação. Faça uma lista objetiva do que incomoda. Marque retorno. Peça explicação sem vergonha e sem medo. Pergunte o que é esperado no período inicial e o que precisa ser corrigido. Se sentir que está sendo empurrado para aceitar qualquer coisa, procure outra opinião. O seu dinheiro, seu cérebro e sua vida social merecem mais respeito.

E converse com quem já passou por isso. No Clube Surdos Que Ouvem, há pessoas usando aparelhos auditivos, implantes cocleares e outras tecnologias auditivas na vida real. Gente que sabe o que é odiar o som da própria voz no começo, trocar de fono, acertar regulagem, errar compra, acertar depois, ter vergonha e seguir mesmo assim. Esse tipo de conversa poupa tempo, dinheiro e muito sofrimento.

No fim, adaptar-se ao aparelho auditivo não é virar outra pessoa. É parar de negociar com a própria perda auditiva como se ela fosse desaparecer num passe de mágica e com zero esforço da sua parte. É escolher participar da vida com menos adivinhação e mais som. Se o aparelho está ruim, corrija. Se o profissional não ajuda, troque. Se a sua resistência está gritando mais alto do que a sua vontade de ouvir melhor, olhe para isso com honestidade e pare de mentir para si mesmo.