Não, o aparelho auditivo NÃO tira o zumbido no ouvido. O zumbido – também chamado de tinnitus – é a percepção de um som sem que exista uma fonte sonora externa: pode ser apito, chiado, cigarra, motor, panela de pressão, rádio fora de sintonia ou uma infinidade de outros barulhos. Em grande parte das pessoas que têm zumbido existe também algum grau de perda auditiva; uma estimativa frequentemente citada é de cerca de 90%, pois, segundo a OMS, há 1,5 bilhão de pessoas com algum grau de surdez no mundo. Quando há perda auditiva, o aparelho auditivo pode tornar o zumbido muito menos perceptível ao devolver ao cérebro sons externos que ele deixou de receber. Mas isso é completamente diferente de dizer que o aparelho auditivo “tira”, “cura” ou “elimina” o zumbido. Se você quer entender esse sintoma do zero, comece pelo meu Guia Completo sobre Zumbido no Ouvido.
Eu tenho zumbido desde os 6 anos de idade. Ou seja: estamos juntos há quase quatro décadas. Meu zumbido foi um dos primeiros sinais da minha perda auditiva progressiva e, naquela época, ninguém me explicou a relação entre as duas coisas. Eu cresci achando que aquele barulho dentro da minha cabeça era simplesmente uma bizarrice particular minha.
Hoje sabemos muito mais. E justamente por isso fico irritada quando vejo propaganda prometendo “aparelho auditivo para acabar com o zumbido”. Não é assim que funciona.
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O zumbido é um SINTOMA, não uma doença
Essa é a primeira informação que deveria ser entregue a qualquer pessoa que entra num consultório reclamando de zumbido. Zumbido é sintoma, e 90% das vezes, sintoma de perda auditiva. E a perda auditiva neurosensorial não tem cura, ou seja…
Sintomas precisam ter sua causa investigada. O NIDCD, instituto dos National Institutes of Health dos Estados Unidos especializado em audição, explica que a maioria das pessoas com tinnitus apresenta algum grau de perda auditiva. A perda auditiva é fortemente associada ao zumbido, embora existam outras causas e condições relacionadas: exposição a ruído, alguns medicamentos, excesso de cerume, infecções, doença de Ménière, alterações vasculares, problemas de mandíbula, lesões de cabeça e pescoço e outras condições médicas.
Portanto, a estatística dos “90%” deve ser entendida como aquilo que ela realmente representa: um gigantesco sinal de alerta para investigar a audição de quem tem zumbido. Tudo deve começar por uma consulta com um médico otorrino especialista em surdez e por um exame de audiometria.
Seu primeiro impulso não deveria ser comprar vitamina milagrosa, suplemento inútil vendido pela internet, muito menos gastar fortunas com ‘laserterapia para zumbido’ que não tem base fisiológica alguma para funcionar quando a causa do seu é a perda auditiva, muito menos tomar cápsula anunciada no Instagram por alguém prometendo “silenciar o zumbido”.
Seu primeiro impulso deveria ser descobrir: COMO ESTÁ A MINHA AUDIÇÃO?
Mas por que perda auditiva pode causar zumbido?
Pense no sistema auditivo como uma estrada que leva informação sonora do ouvido até o cérebro.
Quando existe perda auditiva, parte dessa informação deixa de chegar da mesma maneira. Uma das principais teorias científicas para explicar o tinnitus envolve justamente mudanças nos circuitos neurais decorrentes dessa redução de estímulos auditivos adequados. Não é à toa que a natureza nos deu dois ouvidos que ficam 24h “ligados”, não?
Em português claro: o ouvido entrega menos informação sonora e o cérebro muda a maneira como processa o som.
O zumbido que você percebe não precisa estar literalmente “sendo produzido dentro do seu ouvido”. Embora pareça vir dali, o cérebro participa diretamente dessa percepção sonora fantasma. Agora começa a ficar mais fácil entender por que o aparelho auditivo pode ajudar tanto algumas pessoas.
Então por que o aparelho auditivo MELHORA a sua percepção do zumbido?
Porque um aparelho auditivo bem adaptado devolve ao cérebro acesso a uma infinidade de sons que estavam faltando. A voz das pessoas, o barulho da rua, a água correndo, os passarinhos, o ar-condicionado, o talher batendo no prato, a própria voz. O mundo volta a competir pela atenção do cérebro.
O NIDCD coloca os aparelhos auditivos entre as principais opções de manejo para pessoas que apresentam zumbido junto com perda auditiva. Eles amplificam os sons externos, melhoram o acesso à comunicação e podem fazer com que o tinnitus se torne menos perceptível, afinal, o seu cérebro tem mais o que fazer e prestar atenção a partir do momento em que você começa a tratar a surdez devolvendo a ele acesso aos sons do mundo.
Essa frase é importante: o zumbido fica MENOS PERCEPTÍVEL quando você usa aparelho auditivo. Não “curado” e nem “eliminado para sempre”.
É exatamente essa diferença que o marketing de aparelho auditivo às vezes convenientemente esquece de explicar. Já escrevi detalhadamente sobre isso no post Aparelho Auditivo para Zumbido: alerta de falsas promessas.
O pensamento mais ERRADO que uma pessoa que tem perda auditiva e zumbido pode ter é: “ah, se o aparelho auditivo não cura o zumbido não tem motivo pra usar!“. Quanto mais o tempo passa, maior a percepção do zumbido fica quando você não trata a sua surdez. Além disso, é preciso compreender o que a surdez não tratada faz com o cérebro humano.
Tire o aparelho e descubra a diferença
Muita gente com perda auditiva percebe o fenômeno mais claramente à noite. Passou o dia usando os aparelhos, ouvindo vozes, televisão, trânsito, música e os milhares de pequenos sons da vida cotidiana. Tira os aparelhos para dormir. Silêncio.
E lá está ele: uuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu.
Isso não significa que o aparelho “piorou” o zumbido. Significa que, sem os estímulos externos amplificados pelo aparelho, o contraste entre o silêncio e o tinnitus ficou muito maior.
É por isso que algumas pessoas também se beneficiam de sons ambientais durante a noite – ventilador, música baixa, sons da natureza ou geradores de ruído branco – como estratégia para diminuir o contraste com o tinnitus.
Trate a SURDEZ, não persiga o zumbido
Esse é o conselho que eu gostaria de ter recebido décadas atrás. Se você tem perda auditiva com indicação de reabilitação auditiva, trate a perda auditiva. Não passe cinco anos pulando de “guru do zumbido” em “guru do zumbido”, fazendo protocolos caríssimos enquanto sua surdez continua sem tratamento. A indústria do zumbido movimenta zilhões de dólares todos os anos com falsas promessas, exames e tratamentos inúteis – e os gurus da internet JAMAIS vão passar a informação de que você deveria começar a investigação do seu seguindo as estatísticas (90% dos casos de zumbido são sintoma de perda auditiva, lembra?) porque, se você fizer isso, eles perdem o cliente.
A prioridade é descobrir o que está causando ou contribuindo para o seu tinnitus e cuidar da causa quando isso é possível.
Se existe perda auditiva e há indicação médica para aparelhos auditivos, use-os. Se a perda auditiva chegou a um ponto em que aparelhos não oferecem mais benefício suficiente, investigue outras possibilidades de reabilitação auditiva, inclusive o implante coclear quando houver indicação.
Eu própria tive uma melhora gigantesca na percepção do meu zumbido depois dos meus implantes cocleares. Isso não significa que o meu tinnitus magicamente deixou de existir. Ele continua aqui, mas o meu cérebro não dá atenção a ele e nem o considera uma ameaça. A minha relação com ele mudou profundamente.
NÃO compre aparelho auditivo apenas porque alguém prometeu acabar com seu zumbido
Guarde esta frase. Você não deveria gastar R$5.000, R$10.000, R$20.000 ou R$40.000 num par de aparelhos auditivos porque alguém prometeu que determinado modelo “vai tirar o seu zumbido”.
A função principal de um aparelho auditivo é REABILITAR A AUDIÇÃO.
Alguns aparelhos possuem programas ou geradores sonoros destinados ao manejo do tinnitus. Eles podem ser úteis para determinadas pessoas. Mas não existe um modelo mágico que cure o zumbido, e nenhuma marca deveria vender essa expectativa como garantia. Diretrizes audiológicas recomendam justamente que as expectativas sobre redução ou mascaramento do tinnitus sejam discutidas individualmente durante a adaptação.
Essa indústria movimenta muito dinheiro, e uma pessoa desesperada para se livrar de um barulho que não a deixa dormir é um consumidor extremamente vulnerável. Informação é vacina contra vendedor de milagre, ok?
E atenção aos sinais de alerta
Nem todo zumbido deve entrar automaticamente na caixinha “é perda auditiva”.
Se o tinnitus apareceu de repente junto com redução súbita da audição, procure atendimento médico rapidamente. A surdez súbita é uma urgência médica.
Se você escuta um barulho que acompanha o ritmo dos seus batimentos cardíacos, também não ignore. Leia sobre zumbido pulsátil e por que ele precisa ser investigado. Problemas vasculares e outras causas podem estar envolvidos e exigem uma investigação diferente.
Zumbido merece investigação séria. O que ele NÃO merece é pânico , e muito menos charlatanismo.
O aparelho auditivo NÃO tira zumbido, e tudo bem
Talvez essa seja a parte mais importante deste texto. Você não precisa fazer o zumbido desaparecer da face da Terra para voltar a ter qualidade de vida. Você precisa investigar a causa. Tratar a sua perda auditiva, se ela existir. Voltar a ouvir da melhor maneira possível. Diminuir o contraste entre o tinnitus e o mundo. Cuidar do sono, do estresse e da resposta emocional que você desenvolveu em relação àquele som.
E parar de alimentar a fantasia de que existe uma cápsula, uma frequência secreta, um exercício de internet ou um aparelho auditivo de R$30.000 que vai apertar o botão DELETE do zumbido.
Eu convivo com ele há décadas. A diferença é que hoje ele não manda mais em mim.
Venha conversar com quem vive isso na vida real
Se você tem zumbido causado por perda auditiva, usa aparelho auditivo ou implante coclear – ou ainda está tentando entender o que fazer – venha para o Clube dos Surdos Que Ouvem.
Nos nossos grupos você conversa diretamente com pessoas que vivem as mesmas dúvidas, compara experiências reais com aparelhos auditivos, descobre médicos e fonoaudiólogos indicados por pacientes e aprende a navegar pela reabilitação auditiva sem ficar refém de propaganda.
Zumbido + Google + desespero é uma combinação caríssima.
Informação, tratamento correto e uma comunidade de pessoas que já passaram por isso costumam sair bem mais barato.
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