Crônicas da Surdez

Superar a vergonha da surdez

Hoje preciso da ajuda de vocês. Às vezes recebo uns emails super tristes de pessoas com dificuldades para superar a vergonha da surdez. Sempre quis que o Crônicas da Surdez fosse um espaço no qual encontrássemos inspiração para superar nossos obstáculos pessoais. Por esse motivo, evito dividir aqui no blog histórias que possam nos deixar para baixo.

Porém, recebi um email de uma leitora que me pareceu desesperada por uma luz no fim do túnel, e acredito que todos nós aqui podemos ajudá-la. Cada um tem um ponto de vista muito particular sobre o problema. Vou deixar o meu no final do post, e peço que vocês também deixem o seu, nos comentários. Se fomos capazes de tocar a vida, de superar (pelo menos em alguma medida) a vergonha da surdez, também somos capazes de ajudar as pessoas a fazer o mesmo.

A vergonha da surdez

“Olá, tudo bem? Me chamo C., tenho 25 anos e sou deficiente auditiva, uso aparelhos nos dois ouvidos. Gostaria de conversar muito com você. Me sinto deprimida, me escondo, não saio de casa por vergonha de não ouvir. Hoje a minha vontade é de morrer, porque não vejo sentido na minha vida!”

Troquei mais emails com a C. antes de escrever esse post. Ela me disse que tem 40% de perda nos dois ouvidos, usa aparelhos e sente muita vergonha do marido. Por isso se cobra tanto. Ela é casada há 9 anos e tem 3 filhos. A perda auditiva é de família, pois os tios, os bisavós a mãe e a irmã também possuem a deficiência. Ela disse que não fala sobre o assunto surdez com ninguém.

“Adorei o Crônicas, pois, como você, eu procurava conhecer pessoas, de preferência com idade próxima à minha, para me espelhar e superar isso. E fico muito agradecida pelo seu blog, que me ajudou, abriu minha mente sobre o assunto e pude ver que não sou tão diferente assim do mundo todo.

Quando fiz meus testes para usar a prótese, pedi pelo amor de Deus que me mandassem um modelo pequenino, para ninguém ver. A doutora me falou assim: ‘Não se preocupe, pois o aparelho auditivo está se tornando como óculos/aparelho dentário, muita gente necessita usar, e não é motivo de piadas, supere isto!’.

Fiquei com isso na cabeça, mas não via ninguém ao meu redor com o mesmo problema, nem mesmo na internet eu tinha encontrado. Por isso agradeço por compartilhar sua experiência com todos nós que temos deficiência, me ajudou muito.

Além da vergonha

O ponto principal quando falamos em surdez é aceitação. Como podemos esperar aceitação da sociedade, das pessoas próximas, dos familiares e dos amigos, se nós mesmos não nos aceitarmos primeiro? Impossível!

Quando eu era mais nova, sentia muita vergonha da minha surdez. Porém, um dia caiu a ficha de como é vergonhoso sentir vergonha de si mesmo. E inútil. Mudei totalmente a minha perspectiva sobre este assunto.

Quando alguém me procura para reclamar da sua surdez ou dizer que não aguenta mais, sempre pergunto se a pessoa está se esforçando de alguma maneira. Procurou um otorrino? Procurou um fonoaudiólogo? Usa aparelhos auditivos? Se usa e não se adaptou bem a eles, tem feito algo para mudar isso? Procura aperfeiçoar sua leitura labial? Se desafia e estimula de alguma maneira ou fica apenas trancado em casa lamentando o fato de que não ouve como as outras pessoas?

É confortável sentir pena de si mesmo

É fácil e prático sentir pena de si mesmo. Quando a pessoa tem filhos, acho isso tremendamente perigoso. O que você está ensinando a uma criança quando mostra a ela diariamente que tem vergonha da sua condição? O que seus filhos irão pensar ao lhe ver escondendo os aparelhos, se são eles que lhe ajudam?

Temos que ter orgulho de quem somos. A surdez é um detalhe. Eu não vivo em função da minha e acho que ninguém deveria fazer isso. Penso que não podemos nos trancafiar em guetos, e não sair da sua zona de conforto familiar é viver trancafiado num gueto.

Onde está a graça da vida se não nos desafiamos? Medos existem para serem encarados de frente. Encarando nossos fantasmas é que descobrimos que eles não são tão grandes nem tão poderosos assim.

A vida que quero ter, me comunicando com todos

Particularmente, não quero conviver só com pessoas que me entendem nem quero me comunicar apenas com meia dúzia de pessoas só porque leio seus lábios muito bem e entendo tudo o que me dizem. Quero me comunicar com o mundo! Quero ter amigos de todos os países, quero ter coragem de aceitar todos os convites que me fazem em vez de não conhecer as pessoas por medo de não entender o que elas me dizem.

A surdez não me impede disso, mas o meu comodismo pode me impedir. Além do desafio da aceitação, a surdez nos coloca o desafio do esforço pessoal. Vou “apanhar” para entender o que me dizem em outras línguas mas, se eu não tentar, não vou conseguir. E as chances de sucesso são grandes quando nos esforçamos.

Estou lendo o livro sobre a vida da Helen Keller, e digo uma coisa: se uma criança surdocega foi capaz de se tornar uma grande pensadora e aprender tudo o que ela aprendeu mesmo com a surdez e a cegueira, quem somos nós para nos queixar de ouvir mal?

Superar a vergonha da surdez, e fazer coisas incríveis

Há uma frase em inglês que eu amo e diz o seguinte :

It’s not what you are that holds you back, it’s what you think you are not.” – Denis Waitley

Traduzindo: não é o que você é que te impede de agir, é o que você acha que não é!

Portanto, vamos acreditar que somos capazes de coisas sensacionais nessa vida e vamos correr atrás delas em vez de nos resignarmos a uma perda auditiva. Eu sei que não é simples, que a surdez pode ser triste e solitária mas, cá entre nós, ficar trancado em casa fugindo dos desafios e evitando nossos fantasmas não ajuda em absolutamente nada. Esforce-se, corra atrás, busque conhecimento, e assim você conseguirá superar a vergonha da surdez. Não deixe a surdez te definir.

Peço a todos os leitores que chegaram até o final desse post que deixem sua contribuição pessoal nos comentários!

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