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Crônicas da Surdez / Deficiência Auditiva

Seja a mãe que o seu filho surdo precisa

Ontem avistei na pracinha uma criança usuária de implante coclear cujo caso eu acompanhei de perto porque a mãe me pedia muitos conselhos. O menino estava diferente do que eu lembrava: calmo, risonho e tranquilo. Uma garotinha chegou perto dele e apontou para o implante com cara de curiosidade, e pude ler os seus lábios dizendo: “É o meu ouvido mágico“.

Imediatamente, observei a mãe. Ela também estava calma, tranquila e segura de si, e olhava para ele sentindo orgulho. Não era aquela mãe que eu conhecia. Anos atrás, ela teria puxado o filho pela mão e saído em disparada da situação. Não foram poucas as vezes em que essa mãe fez comentários do tipo “Por que o IC precisa ser tão grande? Assim todo mundo vê!” ou “Vou sempre fazer tudo para o meu filho não sofrer bullying“.

Fiquei feliz demais ao perceber o reflexo da mudança de comportamento da mãe, no comportamento do filho!

As crianças são reflexo dos adultos

Para que o seu filho tenha uma vivência leve e tranquila com seus aparelhos auditivos ou implante cocleares, ele precisa olhar para você e sentir segurança.

Lembro até hoje do semblante de pena e tristeza que minha mãe dirigia a mim quando eu estava usando aparelhos auditivos, e não foram poucas as vezes em que ela me disse: “Precisa mesmo colocar isso para sair?“.

Se o seu filho te olhar e perceber no seu rosto insegurança, medo, tristeza, pena ou raiva das tecnologias auditivas, ele vai interiorizar isso. E, pior: ele vai sentir a mesma coisa. Você tem noção do impacto disso no futuro da sua criança?

Se os pais aceitam e lidam com isso com leveza e naturalidade, a criança terá o mesmo comportamento. Não são as próteses que os pais rejeitam, mas sim o fato de o seu filho ter uma deficiência. Eles projetam nas próteses auditivas a raiva e o medo que estão sentindo, apenas isso.

O caminho pode ser longo ou curto, triste ou feliz – depende EXCLUSIVAMENTE de você.

Meu filho não quer usar os aparelhos

Alguns pais e mães justificam o não uso colocando a culpa na criança. Se você me acompanha sabe que vou adepta da autoresponsabilidade. Por isso, pergunte-se e seja sincero na resposta: seu filho sente a sua hesitação quando você coloca os aparelhos auditivos nele?

Caso a resposta tenha sido positiva, você está passando a mensagem de que há algo de ruim ou errado com a criança que usa aparelhos.

É claro que, em muitos casos, a prótese está mal adaptada ou o molde, mal feito – e por isso, machucando. Se a sua criança tem resistido ao uso, não deixe de procurar o profissional de fonoaudiologia que o acompanha para que todas as verificações sejam feitas.

As diferenças são visíveis

As mães que são rápidas em deixar para trás o luto por causa da surdez dos seus filhos são visivelmente diferentes das mães que ainda estão sofrendo.

Consequentemente, suas crianças também são.

Elas não sentem medo de perguntas de outras crianças, não sentem vergonha (ou raiva) de usar seus aparelhos auditivos e os tratam como melhores amigos. São crianças mais tranquilas e mais seguras em tudo o que diz respeito à própria surdez, porque sentem que essa parte delas é acolhida e compreendida pela família. Não há drama envolvido.

Só precisa haver drama e sofrimento se você quiser ou permitir. Às vezes acontece de outros membros da família – como os avós – serem os agentes dramáticos e resistirem ao uso dos aparelhos e até mostrarem aos netos sua hesitação e desgosto quanto a isso.

Você vai precisar ser firme e dar o tom: jamais permita que outras pessoas conduzam essa jornada de modo que sua criança interiorize vergonha ou rejeição pelas tecnologias que permitem que ela ouça. A responsabilidade é sua, o filho é seu. Aja de acordo!

A minha mãe

Se a minha mãe tivesse me incentivado a sair do armário da surdez e a amar meus aparelhos auditivos quando eu era pequena, tudo teria sido diferente na minha vida.

Ela era a pessoa com a qual eu mais passava tempo. Sua opinião era muito importante para mim. Eu não queria deixá-la triste, e  por isso tantas vezes me dediquei a esconder a minha surdez: apenas para não feri-la.

Para você que está lendo isso e tem um filho pequeno com deficiência auditiva, fica o alerta: nós lembramos de tudo, e essas lembranças seguem conosco pela vida.

Eu lembro do dia em que uma fono disse à minha mãe que eu tinha uma perda auditiva e ela se recusou a acreditar, chamando a profissional de louca e gritando no consultório que não tinha nada de errado com a sua filha! Lembro de todos os olhares de pena e de medo que ela dirigiu aos meus ouvidos. Lembro de todas as suas tentativas inúteis de me proteger. E de todas as vezes em que ela quis falar por mim, desnecessariamente, apenas para que outra pessoa não percebesse minha dificuldade auditiva.

Só depois de me tornar mãe é que entendi que o melhor legado que podemos deixar a uma criança é a construção da sua autoestima e segurança desde cedo. Seu filho é diferente? E daí? TODAS as pessoas são diferentes umas das outras. Assim é a vida.

A negação do diagnóstico

Talvez você tenha feito isso, talvez não. Mas, muitas vezes, os pais ficam tão desesperados com o diagnóstico de surdez que fazem uma peregrinação por todos os médicos da cidade na esperança de ouvir um diagnóstico diferente. Nesse meio tempo, a criança que precisa de próteses auditivas está privada de acesso ao som.

Caso você aceite um conselho, saiba a melhor coisa a ser feita por vocês dois é você procurar suporte emocional para lidar com isso. Procure um psicólogo. Procure um grupo de mães de crianças surdas. O senso de pertencimento vai fazer você perceber que vocês não são os únicos, e vai mostrar ao seu filho quantas crianças também usam aparelhos. Essa ajuda e camaradagem faz uma diferença gigante, você vai ver!

O seu filho precisa de você serena e segura na jornada da deficiência auditiva dele, porque ela dura a vida inteira. Mesmo que ele venha a fazer um implante coclear e volte a ouvir, ainda assim vocês enfrentarão inúmeros desafios juntos.

Superproteção, vergonha e resistência ao uso de próteses auditivas quando precisamos delas são um atraso monumental na vida de uma criança com deficiência auditiva. Nós precisamos que as nossas mães – e pais – nos guiem com firmeza e segurança pelos caminhos que precisamos atravessar na infância e adolescência em função da nossa surdez.

Seja a mãe – ou o pai – que o seu filho surdo vai agradecer por ter tido quando ele for mais velho! Você consegue, e nós estamos aqui para ajudar.

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About Author

Moro no Rio de Janeiro e tenho 39 anos. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Sou autora dos Crônicas da Surdez e Novas Crônicas da Surdez.

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