Você já se pegou pensando ‘será que sou surdo?’ após repetidas reclamações das pessoas próximas de que você ouve mal ou não ouve as coisas? É muito comum que as pessoas entrem em contato comigo na dúvida se são ou não surdas mesmo quando várias audiometrias dizem que sim.
Em primeiro lugar, você deve entender que a surdez tem GRAUS: leve, modera, severo e profundo. Existem diferentes tipos de surdez. Nem todo tipo e grau de surdez é considerado deficiência auditiva pela lei brasileira. E, por último, existe surdez curável e surdez tratável.
Talvez a grande dificuldade da maioria das pessoas em aceitar a surdez derive do desconhecimento geral da nação sobre a perda auditiva. As pessoas acham que surdo é só quem não ouve nada, que tudo bem escutar mal, que surdez é algo que só acontece na velhice, que todo surdo usa Libras e uma infinidade de outras bobagens com as quais têm dificuldade de se identidicar.
Há 1, 5 bilhão de pessoas com algum grau de surdez no mundo e 2,3 milhões de pessoas com algum grau de surdez no Brasil segundo o IBGE em 2021. É muita gente. E, por incrível que pareça, as pessoas levam em média 7 anos até procurar ajuda quando desconfiam de uma perda auditiva.
Não sei se as pessoas que me escrevem esperam que eu mude o diagnóstico de surdez dado pelo otorrinolaringologista, mas a verdade é que fica cada vez mais claro o quanto a experiência com a surdez é parecida para a grande maioria das pessoas.
Será que sou surdo?
Tudo começa com aquela sensação esquisita de ‘por que não ouvi isso?’, ‘por que preciso pedir que as pessoas repitam as coisas?’, ‘por que coloco a TV num volume tão alto?’, ‘por que esse zumbido não me deixa em paz?’. Depois, ao procurar ajuda médica e receber o diagnóstico de perda auditiva, muitos entram em parafuso e partem para a primeira parte dessa jornada: a negação.
Chega a ser engraçado receber uma mensagem na qual a pessoa relata cinco ou dez situações repetitivas nas quais fica mais do que óbvio que ela tem, sim, uma perda auditiva mas, por algum motivo que nem Freud explica, o fato não entra na cabeça do cidadão.
Vamos fazer uma comparação para deixar mais claro o motivo da minha perplexidade. Imaginem receber uma mensagem assim:
“Oi Paula. Meu nome é fulana. O médico disse que estou acima do peso, mas acho que ele está equivocado. A balança acusou 75kg – meço 1,60 -, minhas calças jeans não entram mais, como muita porcaria, adoro refrigerante mas acho que houve um engano. Não é possível que justo eu, que não faço exercícios há anos e detesto frutas e vegetais, tenha engordado. O que você acha?”
Pois é assim que leio as mensagens no tocante à surdez. Em geral, elas dizem mais ou menos o seguinte:
“Oi Paula. Estou um pouco assustado pois hoje meu médico disse que tenho perda auditiva. Sinto muita dificuldade de entender as conversas quando várias pessoas estão falando, tenho zumbido, nem sempre entendo o que me dizem no telefone – isso quando escuto o telefone tocar -, escuto TV no último volume e minha esposa vive reclamando que eu não ouço quando ela me chama. Mas não sou surdo! Você acredita que o maluco do otorrino sugeriu que eu use aparelhos auditivos?”
Alguém percebeu a semelhança no quesito negação em ambos os casos, ou fui só eu? 🙂
Já fui a pessoa que recebeu o diagnóstico e negou até onde pôde o fato de que escutava muito mal, que resistiu brava – e ridiculamente – a usar aparelhos auditivos. As consequências dessa atitude infantil?
Gastei energia à toa:
Passei anos achando que fingia super bem que não tinha deficiência auditiva e, pior, passei anos achando que as pessoas não percebiam e que a minha voz era igual à de uma pessoa sem nenhuma dificuldade de audição.
Sofri à toa:
Não usei aparelhos em fases cruciais da minha vida, como o ensino médio e a faculdade. Por causa disso, sofri desnecessariamente. Foram centenas de vezes em que chorei porque alguém me perguntou se ouvi algo que não ouvi, foram milhares de “hãn?” que evidenciavam o que eu queria esconder.
Foi muito stress e muita tristeza causados pela minha teimosia em negar que escutava mal e buscar ajuda.
Prejudiquei o meu cérebro à toa:
Está provado que aparelhos auditivos podem salvar o nosso cérebro! Quem precisa usar e não usa só faz comprometer mais e mais a sua capacidade de entendimento de fala. Depois não adianta procurar ajuda quando eles já não são mais capazes de ajudar…
Me tornei uma pessoa fechada:
Em vez de usar a tecnologia a meu favor tive a péssima ideia de ir me fechando cada vez mais, fugindo de interações sociais, escapando dos amigos e selecionando a dedo as pessoas com quem convivia. O que ganhei com isso? Nada!
Se você desconfia que está – ficando – surdo (ou perdendo a audição, use o português suave se preferir) e se muitas pessoas próximas reclamam que você não ouve as coisas e os chamados, tenho um pedido: procure um otorrinolaringologista especializado em SURDEZ e faça uma audiometria.
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