Meu nome é Daniel Fernandes de Oliveira. Nasci num ambiente ruidoso. Meu pai tinha uma oficina de ferreiro que sempre funcionava na extensão ou anexo a nossa residência e desde pequeno eu convivi com a batida do martelo na bigorna. Morávamos em região de garimpo e meu pai trabalhava apontando ferramentas para os desbravadores das minas de diamante, fazendo chapas de ferros para emenda de madeiras para cobertura de casas.
Naquele tempo, no interior do nosso Estado de Mato Grosso, como na maioria das outras cidades do País, a energia era gerada por pequenas usinas hidroelétricas locais, que forneciam energia para poucos na cidade. Morávamos na periferia e não tínhamos energia elétrica. Todos os serviços eram feitos esquentados no fogo, batidos na marreta, na bigorna e as chapas usadas eram molas de jipes e caminhonetas – o que aumentava a dificuldade e por conseguinte eram mais marretadas dadas e barulhos gerados.
Ao completar os 10 anos de idade em diante eu passei a ter minha própria oficina e conviver mais diretamente com altos barulhos. Minha rotina era trabalhar durante o dia e estudar à noite. Em 1976 concluí o ensino médio. Com 22 anos lecionava pela manhã e um dia ali enquanto aguardava a separação das classes para o inicio das aulas, senti um forte estrondo que parecia ser dentro do ouvido, foi muito rápido e não passou disso.
Em 1977 passei a trabalhar em banco e os ruídos por certo diminuíram. Vinte anos depois fui passar um final de semana no Pantanal, e peguei uma gripe como nunca tinha tido antes. Fiquei totalmente afônico por mais de duas semanas. Quando a gripe estava melhorando, senti novamente e na mesma intensidade do que ocorreu em 1977, aquele estrondo muito forte no meu ouvido direito – confesso que se o estrondo durasse um pouco mais eu sairia correndo sem rumo. Quando ele passou, passei a ter um barulho como de cachoeira, parecia ser só no ouvido direito. Mas na realidade o zumbido era nos dois ouvidos.
Logo em seguida procurei um médico otorrinolaringologista, que solicitou exames e me disse que quanto ao zumbido o que eu tinha a fazer era me acostumar porque não tinha tratamento. A partir daí procurei vários centros em busca de ajuda e orientação. Em 2002 fiz cirurgia de adenoide, segundo o médico talvez com ela pudesse diminuir ou eliminar o zumbido. Só que não houve melhora alguma.
O zumbido me acompanha 24 horas por dia e em certos momentos de conversa ou de concentração me atrapalha, eu esqueço o que estava falando ou pensando. Todos os anos faço exames e acompanhamento audiológicos, mesmo não indo em especialistas de outros centros, tenho alternado esse acompanhamento não apenas há um médico. E num desses últimos que consultei após a solicitação dos exames ele me disse que o meu problema de perda de audição no ouvido direito é ocasionado por Otosclerose.
A perda da audição por certo me traz problemas, como a perda é no ouvido direito, me prejudica mais ao atender telefone neste ouvido, ou quando alguém conversa comigo deste lado. Mas no restante a boa audição da orelha esquerda compensa a perda da direita. Mas o que me perturba mesmo é o zumbido.
Em 2011, eu já aposentado, decidi fazer o curso de Fonoaudiologia e minha esposa me acompanhou nesta ideia. Nas apresentações dos alunos na classe aos colegas e professores, me perguntam por que escolhi cursar a fonoaudiologia e eu respondo: “Para conhecer um pouco mais sobre zumbido e talvez com isso melhorar minha qualidade de vida”.
O meu primeiro paciente tem sido eu mesmo. Aos 60 anos de idade eu e minha esposa concluímos o curso e estamos na ativa, me ajudando e procurando ajudar outras pessoas com o mesmo problema. Hoje temos uma clínica e estamos atuando na área. Faço uso de AASI com geradores de som na orelha direita. O zumbido ainda persiste, mas aprendi e tenho me dedicado muito ao estudo sobre o assunto.
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