*depoimento de uma leitora
“Vou contar algumas passagens acontecidas comigo por causa da surdez. Não sou totalmente surda, mas já perdi pouco mais de 50% da audição em cada um dos ouvidos.
Uso hoje duas próteses, naturalmente daquelas mais discretas possíveis, pois ainda aos 66 anos sou vaidosa demais – leio os blogs de beleza todinhos.
Comecei a perceber que era surda nas missas dominicais que meus pais iam antes de irmos para o sítio. Eu devia ter uns 7 ou 8 anos e achava aquilo uma chatice. Então pensava: “por que não prestar atenção no sermão do padre Ambrósio? Deve ser interessante, pois tem horas em que a igreja toda ri!”. E lá ia eu prestar atenção, mas não conseguia escutar nada, perdia as palavras, entendia errado, um horror.
Só me dei conta que isso já era uma manifestação de surdez um bom tempo depois, já mãe de família, quando tive do médico o terrível diagnóstico: “Seu problema é no ouvido interno. Sem chance de cirurgia, aconselho a senhora a prestar atenção nos lábios das pessoas para uma futura leitura labial.”
Com meus filhos também ocorreram fatos engraçados, minha caçula, que eu chamava de rebelde sem causa, batia de frente direto comigo e numa dessas disse: “Mãe, se mata!”. Ao que eu assustadíssima reagi: “Barata??? Aonde? Aonde?”
Depois teve a história do “papai no armário”. Lá vai: o marido demorando a chegar pro jantar, as crianças com fome me perguntaram: “Mãe, cadê o papai”? E eu, que tinha comprado um boneco do Popeye, respondia: “Guardei no armário, não mexe, deixa ele lá”… E eles riam e cada vez mais riam mais me perguntavam e eu respondia, “Já falei, ta no armário, mas não vai lá mexer”…
A partir dessa data ganhei o apelido de velha da Praça da Alegria. Mas essas foram as histórias engraçadas, que eu conto rindo de mim mesma, com bom humor.
Mas há as que ferem e estas me deixam triste. Uma delas é quando depois das pessoas repetirem 10 vezes a mesma coisa e a gente só dizendo: “Hein? Como? Fala de novo! Ahn?”, o interlocutor vira e diz o famigerado: “ESQUECE”… Isso dói.
Beijos, L.”
Esses dias recebi o email de uma fonoaudióloga, que estava escrevendo por sua paciente surda. Ela tinha 91 anos de idade, e era surda ‘desde mocinha’, nas suas próprias palavras. Aos 91, ela cuida sozinha do marido de 89 anos e da irmã de 94 anos, ambos com Mal de Alzheimer, e diz que seus melhores amigos são seus aparelhos auditivos. Me arrepiei lendo e entrei em contato com a fono convidando a senhora a nos enviar um depoimento mais detalhado sobre a sua história. Ela é uma guerreira. E no fim das contas, todos somos, de uma forma ou de outra. Lidar com a surdez não é tarefa fácil.
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