Que tal umas dicas para namorar alguém com deficiência auditiva? Nestes quatorze anos escrevendo o Crônicas da Surdez acabei descobrindo que uma das Top 3 coisas que mais tiram o sono das pessoas com deficiência auditiva é a questão amorosa.
Vamos levar em conta que as pessoas que lêem este site são surdos que ouvem e a grande maioria se relaciona com ouvintes. Você tem que se sentir seguro(a) e confiante para namorar com quem quiser! Conheço muitos casais surdos e conheço muitos casais em que um ouve e o outro não, e cada um encontra sua dinâmica própria de convivência. O importante é não se isolar por causa da surdez – evitando relacionamentos amorosos – e aprender a comunicar as suas necessidades da melhor forma possível.
Mas acho que algumas dicas básicas são essenciais se você namora uma pessoa com deficiência auditiva! Você provavelmente não sabe mas, segundo o IBGE, há 10,7 milhões de pessoas COM ALGUM GRAU de surdez no Brasil e menos de 127.000 delas usam Libras. Portanto, comece quebrando os mitos sobre pessoas surdas que com certeza moram na sua cabeça porque te ensinaram errado.
Antes de começar, fica o convite para você se filiar ao CLUBE DOS SURDOS QUE OUVEM. E saiba que temos um Curso Online sensacional chamado “A Surdez e os Relacionamentos Amorosos“. São 10 aulas com Paula Pfeifer por um preço simbólico. Clique aqui e torne-se aluno! Esse curso é FANTÁSTICO.
Namorar alguém com deficiência auditiva
Se você começou a namorar com uma pessoa surda, aprenda todos os termos: DA, AASI, IC, etc. O assunto agora é da sua conta sim, afinal, você agora convive com uma pessoa que não ouve ou não ouve muito bem.
Leia livros, acompanhe sites, faça parte de comunidades online (como o nosso maravilhoso Grupo Surdos Que Ouvem, que é aberto aos cônjuges).
É muito bacana compartilhar experiências com pessoas que estão vivendo as mesmas situações que você. Aprenda, principalmente, tudo o que NÃO deve fazer e falar a respeito dessa questão.
Você sabe o que é capacitismo?
Nós vivemos no piloto automático do preconceito. A gente reproduz sem questionar. As pessoas têm medo de falar sobre deficiências, de olhar para PCDs, de interagir e de se relacionar com PCDs. Na cabeça de muita gente, pessoas com deficiência não namoram e nem têm vida sexual. Pode isso, produção?
Capacitismo é todo tipo de preconceito e discriminação direcionados às pessoas com deficiência. Ele pode ser velado ou escancarado e costuma ser fruto do desconhecimento.
Alguns comentários capacitistas clássicos: “Tão bonita ou tão inteligente…pena que é surda”, “Você não parece surda”, “ai que voz de surdo, voz estranha”, “Como assim surdo que ouve? Surdo não ouve!”, “Ela não é surda, é só deficiente auditiva”.
É capacitismo também quando você incentiva o seu namorado(a) a sentir vergonha da deficiência dele(a), quando você sugere que ele(a) esconda o aparelho, não conte para ninguém ou quando o trata como criança em função da deficiência.
Não chame a pessoa com quem você se relaciona de deficiente. Ele(ela) tem nome! E leia sobre Capacitismo X Surdez.
Articule bem os lábios enquanto estiver falando
Quando temos deficiência auditiva, uma das coisas que mais nos acalma é falar com pessoas que articulam bem os lábios, já que nossos olhos trabalham junto com nossos ouvidos, aparelhos auditivos e cérebro para desvendar a fala humana.
As pessoas costumam falar rápido e articular mal as palavras. Convivendo com um surdo no dia-a-dia você verá que, além de necessária, uma boa articulação fará com que até você mesmo espere isso das outras pessoas com quem conversa.
Articular bem os lábios demonstra respeito e cuidado. Pratique! Ah, e não grite, por favor.
A melhor forma de chamar seu namorado(a)
Ele(ela) usa aparelhos ou implante? Escuta bem com eles? Prefere ser chamado em voz alta ou prefere que você entre no seu campo de visão e cutuque-o(a) para chamar sua atenção antes de iniciar um diálogo? É preciso saber disso.
Quando usava aparelhos sempre preferi ser cutucada antes que começassem a falar comigo – ninguém gosta de pagar mico e ver alguém berrando seu nome pela quinta vez enquanto você nem tchuns.
Porém, depois de voltar a ouvir com um implante coclear prefiro ser chamada pelo nome do que cutucada. O segredo é: pergunte ao seu(sua) namorado(a) o que ele prefere e siga a instrução recebida. Não tente adivinhar ou decidir pela pessoa.
Use modos alternativos de comunicação
Antes de voltar a ouvir meu maior trauma sempre foi o telefone. Tinha calafrios ao ouvir um telefone tocar e morria de medo que a ligação fosse para mim.
Quando era adolescente e meus namoradinhos ligavam para a minha casa, eu mandava dizer que não estava. Quando estava na faculdade ainda não havia SMS então quando um namorado ligava eu pedia para uma colega atender ou então ignorava a chamada.
Hoje em dia, graças a Deus, existem modos alternativos de comunicação: SMS, WhatsApp, FaceTime, Telegram, Messenger e uma infinidade de aplicativos. Faça uso deles.
Para a maioria absoluta das pessoas que não ouvem ou ouvem mal, ligação telefônica é sinônimo de tortura. Evite mandar áudios – substitua-os pelo ditado do seu celular sempre que for possível. E quase sempre é, porque o trabalho é o mesmo.
Comece a aprender leitura labial
Seu(sua) namorado(a) provavelmente será expert em leitura labial, e seria muito legal se você se propusesse a aprender. Não existe curso ou aula para isso, é questão de observação.
Fique de olho nas bocas das pessoas enquanto elas falam para que seu cérebro possa gravar o significado sonoro da articulação dos lábios em cada palavra.
Assim, vocês podem até se comunicar sem som em locais barulhentos, apenas lendo os lábios um do outro.
Eduque seus amigos e sua família
Um terror de quem não escuta é conhecer a família e os amigos do(a) namorado(a), e com razão, afinal, são novas pessoas e novas bocas para desvendar. Explique para os seus esses pontos básicos acima, eduque-os e peça que respeitem esses detalhes.
Como vamos gostar de uma sogra que fala enquanto estamos de costas para ela ou como vamos acompanhar a conversa de um grupo de amigos se todos falam ao mesmo tempo? Impossível.
Eles não são obrigados a saber essas coisas se nunca conviveram com um surdo, mas se a partir de agora irão conviver, é questão de bom senso e educação saber como lidar conosco.
Saiba quais programas não são legais
Não convide seu(sua) namorado(a) para ir assistir a um filme sem legendas. Saiba antes de propor uma balada – costumamos detestar ambientes escuros e barulhentos.
Escolha restaurantes e lugares que não sejam escuros/barulhentos demais, afinal, mesmo que vocês estejam a sós a pessoa vai precisar enxergar o seu rosto para conseguir se comunicar numa boa com você. Deixa-o escolher o melhor lugar para se sentar e aproveitar melhor as conversas.
Saiba se ele(ela) gosta de programas com várias pessoas. Enfim, investigue o que seu cônjuge prefere. Uma boa comunicação é a regra de ouro para qualquer casal, com ou sem deficiência envolvida.
Descubra nuances e crie intimidade
Eu tinha pavor que algum namorado passasse a mão perto dos meus aparelhos auditivos por causa da microfonia. Quando era mais nova também detestava que ficassem olhando fixamente para meus aparelhos, que respondessem por mim quando alguém me perguntava alguma coisa ou que falassem sobre a minha deficiência auditiva antes que eu mesma fizesse isso.
Existem certos detalhes e nuances que você irá precisar descobrir para não pisar na bola sem querer ou magoar a pessoa que você gosta. Mais uma vez: comunicação. A surdez não pode ser um tabu entre vocês!
Leia sobre Sexo, Surdez e Aparelho Auditivo.
Busque acessibilidade – e lute por ela!
Ative as legendas das TV’s da sua casa, cobre isso das pessoas com quem vocês convivem, procure programas culturais acessíveis, descubra cinemas que legendem toda a programação. Nós agradecemos imensamente!
Em tempos de vida digital, entre na luta por acessibilidade, pedindo que seus criadores de conteúdo preferidos adicionem legendas aos vídeos. Isso aumenta a quantidade de coisas que vocês podem assistir juntos.
Incentive a autonomia
Que tal dar de presente de aniversário um despertador vibratório de pulso? Ou um telefone com amplificador? Ou um acessório legal para o aparelho auditivo/implante coclear?
Acho muito bacana quando um namorado(a) incentiva a pessoa com deficiência auditiva a ser o mais independente e autônoma possível. Isso faz bem para os dois.
Incentive a reabilitação auditiva
A tecnologia faz maravilhas por nós mas, infelizmente, não faz milagres. O fato de uma pessoa surda usar um aparelho auditivo ou um implante coclear não faz com que ele tenha a audição perfeita e muito menos com que ouça e entenda todos os sons que você ouve e entende. Tenha isso em mente.
Uma das coisas mais frustrantes para nós é termos que ouvir de pessoas que amamos frases horríveis como: “Mas você não está de aparelho?”, “Você não ouviu isso?”, “Como assim você não entendeu o que eu disse se você está de aparelho?“. Ninguém merece!
Quando namoramos com alguém que ouve temos também que entender o lado do ouvinte e como podemos retribuir a atenção e o respeito que recebemos.
Todos os dias recebo emails de ouvintes que namoram com surdos reclamando que eles não querem usar aparelho. Já escrevi aqui e reitero minha opinião: se temos AASI’s ou IC’s que, quando usados, melhoram nossa audição e atenção, acho um tremendo egoísmo não usá-los. Afinal, relacionamento e comunicação são vias de mão dupla!
Passar toda a responsabilidade auditiva (leia-se chatices como interfone, campainha, alarmes, batidas na porta, sons estranhos, telefone, etc) para o ouvinte quando você pode ajudar com isso é sim, puro egoísmo.
Se você namora alguém com Deficiência Auditiva, informe-se sobre reabilitação auditiva e incentive a pessoa a buscá-la. Em alguns casos, ela muda vidas!
Posicione-se
Se seu namorado(a) está no armário da surdez, saiba que você não tem obrigação de compactuar com isso. Nem todo ouvinte quer ser cúmplice de mentiras, fingimentos e enganações. Ao se posicionar, você ajuda o seu cônjuge com deficiência auditiva a evoluir como ser humano e compreender que o armário da surdez é o pior tipo de zona de conforto que existe.
Que tal ser o empurrão que faltava para que a pessoa que você ama vença a vergonha da surdez e saia do armário.
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