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Implante coclear bilateral: fazer ou não fazer

Quando fui investigar a possibilidade de ser candidata ao implante coclear, em 2013, meu médico disse que sim e que eu era candidata ao IC bilateral. Na época eu fiquei tipo ‘peraí, vamos com calma, um de cada vez‘. No exato momento da ativação, olhei para a minha amiga fono Michele Garcia, que estava junto, e disse a ela: ‘Putz, você tinha toda razão! Eu deveria ter feito bilateral!’

Explico. Como todo surdo profundo na face da Terra, eu estava mega apegada àquela audição que achava que tinha. Sim, achava! Só fui entender com todas as letras que aquilo não poderia ser considerado audição e muito menos audição satisfatória como eu costumava pensar que era quando passei a ouvir com um implante coclear. Dizia para todo mundo que me virava bem e estava ótima daquele jeito, e o pior é que eu mesma acreditava nisso. Como alguém 100% dependente de leitura labial e que chegava em casa todos os dias vesga e destruída pelo cansaço mental causado pela surdez poderia se considerar ‘ótima’? Francamente..

Quando um surdo profundo pede para conversar comigo, seja na SONORA ou por email ou Facebook, o discurso em geral é idêntico ao meu discurso de 2013 pré-IC: ‘Escuto tudo, só não entendo, preciso de leitura labial‘, ou ‘Estou bem assim, escuto tudo com meus aparelhos auditivos’. Gente, só que não. Eu entendo e respeito o fato de que cada um de nós tem o seu próprio tempo, mas contra fatos não há argumentos. Ninguém está super bem ou escuta tudo na surdez profunda, mesmo com os melhores aparelhos auditivos que existem. Isso é ilusão e negação. Ninguém é obrigado a partir pro implante coclear se puder e tiver a chance, mas temos que entender o que a surdez profunda significa nas nossas vidas.

Na minha vida, significava não entender a fala humana, ouvir barulhos e ter noção de que algo estava acontecendo mas não saber o que, ter pânico de ficar no escuro (surdo profundo no escuro vira surdocego), passar por uma infinidade de situações constrangedoras e desgastantes, ser dependente de outras pessoas para mil coisas básicas como ouvir a campainha ou resolver qualquer coisa pelo telefone, enfim, a surdez profunda só me dava desgosto, me fazia perder oportunidades legais e me isolava do mundo.

Esse papo de ‘escuto tudo, só não entendo‘ é quase como dizer ‘estou com 100kg a mais, só não entro na minha calça 38‘. Dá pra sacar a conexão? Eu não fiz o bilateral de cara por medo, já que era uma grande novidade e eu me guiava pelos relatos e experiências de outras pessoas – quem nunca se apavorou ao pensar nas possíveis vozes de Pato Donald que atire a primeira pedra. Hoje quando penso no meu raciocínio de 2013, de que se um ouvido não ficasse legal eu ainda teria outro, fico rindo sozinha, porque depois do IC é que fui entender que nenhum dos dois ouvidos ainda servia para alguma coisa naquela época. Se um não ficasse legal, não seria o outro, com surdez profunda, a minha salvação.

Você tem que fazer o que o seu coração mandar, é claro. O meu me mandou segurar a onda, por medo e insegurança. Na hora em que liguei meu primeiro implante, mesmo com aquele som do início, esquisito e baixíssimo, meu cérebro já percebeu que ele era infinitamente superior ao som que eu tinha com a combinação de surdez profunda + aparelho auditivo. Ali, já bateu o arrependimento por não ter feito logo os dois de uma vez. Levei dois anos e meio até ter coragem e vontade verdadeira de passar por tudo de novo. Na verdade, estou aqui ‘passando’, pois dia 16 vou completar dois meses de implante coclear bilateral, sigo na fase bem inicial de adaptação. Já me peguei pensando várias vezes que poderia hoje estar com os dois ouvidos como o direito já está, com total compreensão de fala e de sons, ouvindo em 5dB em algumas frequências. Mas nunca vou saber se teria tido esse resultado caso tivesse optado pelo bilateral em 2013. Por enquanto, sigo com um bebê do lado esquerdo, que já ouve e entende muito sem leitura labial, mas que ainda engatinha perto do Usain Bolt direito. 🙂

Avalie sua decisão de modo mais racional do que emocional se você for capaz. Decidir-se por um só já é difícil, por dois então, nem se fala. Se eu puder dar um conselho a quem está na surdez bilateral profunda com indicação para o IC é apenas isso que digo: faça! Você não tem mais nada a perder, mas tem um mundo sonoro inteiro a ganhar, caso tudo dê certo, e as probabilidades estão a seu favor – os médicos são muito criteriosos na indicação dessa cirurgia! Se eu pudesse voltar no tempo, teria feito o bilateral direto, em 2013, sem sombra de dúvida.

PS: no meu canal no YouTube estão os vídeos da ativação do primeiro, e dá pra ver o momento em que digo para a Michelle que deveria ter feito logo os dois…

50 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

5 Comentários

  • Minha filha tem 4 anos e foi indicada pra fazer o IC ,eu e o pai dela estamos muito desesperados e Ainda tentando entender todo o processo pois ela tem a fala preservará pois a perda aconteceu ela tinha +ou – 3 anos e nesse tempo já sentimos um atraso na fala,no caso ela faria só um lado pois o sus só cobre um lado,com essa reportagem minha conversa vai ser outra,vou perguntar se o caso dela seria melhor o bilateral?

  • Oi Paula
    Sou DA bilateral mista grau severo a profundo. Tenho 37 anos, casada. Estou testando a protese auditiva PONTO. Adorei o resultado, mas estou na dúvida se devo testar outras próteses (BAHA e BONEBRIDGE) antes de decidir por uma. Uso AASI mas estes ja não me atendem como antes, pois tive uma perda súbita no lado esquerdo recente. Foi maravilhoso ouvir com o PONTO depois um mês tao desgastante…Alguém aqui é usuário de uma destas próteses auditivas de condução óssea::
    Gostaria de ouvir a opinião de vcs sobre estas próteses….desde já agradeço

    • Acho que você poderia testar sim. O teste é bem simples. É só você falar com um representante dessas marcas e eles vão te emprestar o aparelho por umas semanas. Cada marca tem suas diferenças e servem para diferentes graus de perda auditiva. O Baha, por exemplo, tem vários modelos para quem tem uma perda grande e outros que podem ser conectados diretamente no celular. Vale a pena experimentar.

  • Paula, obrigado por ter escrito isto neste momento. A uns cinco dias atrás tive que me decidir na frente do médico, quando ele cruzou os braços e disse que a escolha pelo uni ou bi era do paciente. Ao meu lado estava minha esposa, naquele momento com “olhos de Tandera” pra cima de mim ( – eu não acredito que ele vai querer fazer dum lado só ! … #z#z%%##%## -). Não foi fácil. Você falou. As fonos falaram. E a patroa já tinha falado. Os conselhos pesaram. O Dr. disse que o tempo de recuperação da cirurgia é o mesmo. E fica muito fácil para o paciente ativar os dois implantes de uma vez do que fazer um e depois de um tempo o outro. Decidi pelo bi.

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