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Crônicas da Surdez / Implante Coclear

Jornada do Implante Coclear, parte II

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Dia 19 de agosto fui novamente encontrar o Dr.Luiz Lavinsky em Porto Alegre. Precisava mostrar pra ele uma ressonância magnética do crânio. Fico muito feliz porque tenho recebido vários emails de leitores do blog que decidiram consultar com o Dr.Luiz depois do primeiro post no qual contei o início da minha jornada rumo ao IC. E o melhor é que todos me dizem que tiveram a mesma impressão dele e se sentiram seguros. Sou suspeita pra falar e falo mesmo assim: ele é incrível.

Além disso também precisei consultar com uma psicóloga – é o protocolo do IC – e fazer uma última consulta com fono. Para minha surpresa, foi com a queridíssima Maria Elza Dorfmann. A primeira vez que falei em público, no Doenças de Inverno, ela estava sentada na primeira fila e foi para ela que olhei o tempo todo enquanto falava. Assim que a vi, falei: “Mas que mundo pequeno, não acredito que é tu!”. Um dos testes que ela fez comigo achei super ninja. Ela me mostrou uma lista de dez frases, me pediu para ler. Depois que li, ela tapou a boca e começou a falar essas frases aleatoriamente. Lógico que, sem leitura labial, nécas de entender pitibiriba pra mim. Só que o cérebro é uma coisa tão absurdamente esperta que, só por uma consoante aqui e uma vogal ali, eu ‘adivinhava’ o que tinha ouvido em função das frases que li. Foi o exame mais legal que já fiz até hoje!!! É como se meu cérebro precisasse só de um fiapinho de informação pra fazer com que um nada faça todo sentido. Ninja é pouco!

A consulta com a psicóloga mexeu comigo. É engraçado ter que contar a história da sua vida em pouco tempo para alguém que você não conhece. E eu, que sou a rainha do “resume”, resumi tanto que ela me pediu para ‘des-resumir’. Algumas perguntas que fez me colocaram pra pensar. Coisas que ouvi a minha mãe dizendo para ela também me colocaram pra pensar. E a partir daí fiquei umas vinte vezes mais sensível e manteiga derretida do que já estava. O que me surpreende nessa jornada é que realmente não havia me passado pela cabeça que isso pudesse mexer com o meu psicológico da maneira como mexeu. Fiquei mais preocupada em me ‘proibir’ de ter grandes expectativas e acabei me deparando com uma profunda e inusitada viagem para dentro de mim mesma. E vocês sabem bem como essas viagens são desgastantes e cansativas! Me peguei tendo lembranças de 15, 20 anos atrás. Me peguei relembrando mil momentos da minha infância. Me peguei imaginando como seria voltar a ouvir coisas que não ouço mais. Me peguei pensando que serei uma velhinha que escuta, ao contrário da maioria dos velhinhos, que vão perdendo a audição. Que loucura!!

Uma angústiazinha básica: música. Quando dirijo a primeira coisa que faço é conectar meus AASI com meu iPad ou celular e ficar ouvindo música no trajeto. Como é que vai ser ouvir música só com um AASI? Como é que vai ser ouvir música com um AASI e um IC ao mesmo tempo? Ai, meus sais!

Hoje vi minha mãe assistindo a um vídeo em que a Lak Lobato conta – falando em francês! – como foi que perdeu a audição. Não sabia que era isso que ela estava assistindo mas perguntei o que era porque ela estava aos prantos! É o implante coclear emocionando meio mundo…Ontem, do além, me veio a lembrança de quando era piá e viajava pra praia. Quando sentia saudade da minha avó, ia até um orelhão (meu Deus, como tô velha!!!) e ligava pra casa a cobrar. Lembrei nítida e perfeitamente da voz da mulher da Embratel que dizia “após o sinal, diga seu nome, e a cidade de onde está falando, tu tu uuuuuuuu“. Que nostalgia! Fico o tempo todo lembrando de músicas que não faço idéia quais são ou quem cantava. Parece que saí de um coma, de tantas lembranças aleatórias. Numa delas, voltei a uma noite em que minha dinda me levou pra passear no seu Chevette e começou a tocar uma música no rádio que era muuuito linda, voz e violão. Lembro de nós duas cantando a tal da música – e por incrível que pareça essas lembranças são como uma facada no coração. Como doem! Não sei porque, mas doem bastante.

A mãe e a vó entraram numa de me dar pijamas, como se eu fosse passar um mês no hospital. Hilário! Acabei doando mais da metade dos meus pijamas velhos pra ter lugar pros novos. Pode isso?? É engraçado todo mundo me fazendo perguntas sobre a cirurgia, porque eu evito pensar no assunto pra não ficar nervosa, e quando perguntam, tenho que voltar a pensar nisso. No fim das contas, percebi que meu nervoso com a cirurgia é só porque é a primeira vez em 31 anos que entro pra faca, faz parte. Mas o que me causa desconforto é saber que vou ficar 30/40 dias sem ouvir nada! Sou incapaz de usar aparelho auditivo em um ouvido só. Se faço isso, uma hora depois começa a me dar uma baita enxaqueca daquelas que não passam nem com uma caixa de Tylenol DC. Sem falar que, com um aparelho só, quando tiro ele fico que nem uma bêbada com o corpo e a cabeça ‘pendendo’ pro lado no qual ele estava. Não tem condições. Então esse espaço de tempo entre o IC e a ativação do IC é que vão ser tensos. Passa rápido, né? Tomara!!! Nem vou pensar na longa reabilitação pra não surtar…

A sensação mais estranha que tenho a respeito do implante coclear é que parece que vou reencontrar alguém que morreu. O alguém, no caso, seria a minha audição. Ou, talvez, a antiga Paula, aquela que ouvia e entendia, aquela que não precisava ser cutucada o tempo todo, aquela que era independente, que não tinha medo de ficar em casa sozinha, que não escutava com os olhos. O que será que vou sentir se realmente reencontrar essa Paula?

Enquanto publico esse post, sei que da parte burocrática o plano de saúde já autorizou o procedimento e agora precisa autorizar a prótese. Pelo andar da carruagem tenho fé de que faço meu IC na data marcada, 21/09/2013. E, se assim for, vai ser meu segundo aniversário. Falando nisso, faço 32 anos dia 9/9 – e vou ter que ir dirigindo pra Porto Alegre nesse dia depois do trabalho, pois dia 10 tenho consulta com o anestesista. O que me faz lembrar do que minha amiga/fono Michele Garcia me disse um dia enquanto fazíamos audiometrias pré-IC: “Paulinha, eu tenho certeza que depois do IC, tu vai sentir como se a tua vida estivesse finalmente começando!“. E lá vou eu me afogarrrr em lágrimas de novo. 🙂

Sobre

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 38 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

17 Comentários

  • Juliana Fiori
    17/09/2013 at 3:29 pm

    OIIII FLORRR

    PASSANDO AQUI PRA VER SUAS NOVIS E HAHA COMO SEMPRE ME FAZ RIR !!!

    tem muitaaaaaaaaaaaaaa gente usando implante aqui !!! Posso ate pergunta a eles por ti como e a vida apos implante . Mas percebo que ee super normal !
    menina …tenho ate ciuminhosss quando vou no cinema por exemplo. vejo alguem na minha frente com implante na cabeca ENTENTENDOOO TUDO e eu sofrendoooo horroresss …..tiro o aparelho ..poem aparelho..troca a pilha …aumenta o volume …enquanto isso na briga de ver o filme eu acompanhando a plateia clarooo …..todos riram ..opa vamos rir :/

    awww saudades das legendas em portugues LOL !!!

    Moca bonita , esta tudo caminhando e certeza ja deu certo amiga!!
    fica bem ai e continua com esse humor porque o mundo precisa de pessoas como vc ! eu preciso de vc !!!

    beijos GOOD LUCK !!!

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  • Aline Maggio
    14/09/2013 at 12:23 am

    Paula tudo isso que vc sente, vc não está sozinha. E esse medo, bem… é um medo natural, mas que felizmente não te impede de fazer o IC. Ainda me lembro das músicas que ouvia, algumas mas lembro, tanto que quando me perguntam o que que quero ouvir primeiro é uma boa música. Nem ligo se terei que ficar com a cabeça enfaixada, ou cortar o cabelo, ou até mesmo o tamanho do aparelho (por um lado isso vai ser bom). No meu caso se uso o aparelho esquerdo mesmo os dois lados tendo perda profunda fico tonta, e como acabei de trocar meu molde do AASI direito, qualquer barulho estranho assusta e irrita, irrita porque da zumbido e tontura. Mas quando me lembro do que a psicologa me disse: Vc vai poder fazer tudo que fazia antes com o AASI, só que melhor sem zumbido sem ruido. Logo fico ansiosa para que isso aconteça logo.

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  • Edena
    13/09/2013 at 6:08 pm

    Parabéns pelo seu aniversário, e pela sua nova conquista, Deus te guie sempre na sua jornada de passar experiências ajudando o próximo. Bjs…

    Responder
  • Thiago Régis
    09/09/2013 at 10:50 am

    Parabéns Paula, muitas felicidades, saúde e SUCESSO. Que Deus te abençoe SEMPRE. Beijão

    Responder
  • Maria de Lourdes
    08/09/2013 at 5:12 pm

    Paulinha,

    estamos acompanhando tua caminhada rumo a teu IC e estamos torcendo por
    ti. Temos certeza do sucesso de tua cirurgia e de tua recuperaçao.Nos te
    amamos muito.
    Bjs.
    Tias Ia e Anita

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  • Myrian Amarante Paiva
    06/09/2013 at 4:14 pm

    Paula, colega de SEFAZ, a gente não se conhece , mas sempre leio tuas crônicas e ora me divirto, ora me emociono muito. Estas do implante tem me deixado super emocionada, imaginando não escutar e voltar a escutar, como seria. Aos 34 anos, com um filhinho de 3 anos, em fiz uma cirurgia de coluna muito complicada, com prótese e fixação com pinos e parafusos e se antes de fazê-la eu não conseguia andar direito, nem segurar meu filho no colo, depois de estar operada, por mais 6 meses eu nem andar direito conseguia… Mas tudo voltou, e desde então curto muito meu filho. Como tu vais curtir tua vida, ainda mais, depois de passar a recuperação. Estou torcendo por ti, vai dar tudo certo porque tu és muito forte e tem muita luz! Abraço!

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  • Janise
    05/09/2013 at 5:00 pm

    Paula, vai dar tudo certo!!! Tenha fé. Você já sabe a data da cirurgia e isso te dá mt ansiedade, o que é absolutamente normal. No meu caso, quando falei com a otorrino, dia 17/11/11 sobre a cirurgia, ela falou, em até 3 meses. Isto pelo SUS, é claro! Pois bem, no dia 12/12/11, ela ligou para minha casa, para falar com meu marido, e disse que era para eu estar no HCFMUSP, no dia seguinte, às 15 horas, porque no dia 14, eu iria fazer a cirurgia do implante! Dá para acreditar? Quase que eu tive um troço… mas de muita felicidade. Então, Paulinha, tenha calma. Ah, sim, a ativação do Implante só se deu em 1º de fevereiro/12, por causa das férias, Natal e Ano Novo. Quase 50 dias de muita expectativa. Muita paz é o que te desejo!

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  • Diana
    05/09/2013 at 4:14 pm

    Já sei q tem uma doninha que vai me fazer chorar muito daqui pra frente, assim como fez a Lakita… Tem problema não… Deste choro eu gosto… E só pela data escolhida pra ser o seu novo aniversário, no dia em eu tb nasci, eu já estou sintonizada com o seu momento e fico na torcida pra que este seu reencontro com os sons seja simplesmente mágico, como deve ser, como vc merece!!!!!!!!!!!!!

    Responder
  • Cáthia Schaeffer
    05/09/2013 at 12:53 pm

    Paula, querida, você é uma pessoa adorável, não tem como não rir quando se lê teu texto, vai dar tudo certo pra ti e vai ser muito legal ouvir de novo, tudo de bom, beijinho. Cáthia

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  • Janete Toigo
    05/09/2013 at 9:56 am

    Paula
    Como sempre vc me emociona ao descrever suas emoções e seus sentimentos, pois compartilho contigo cada palavra escrita. Nos encontramos na fase pré-implante e neste momento passamos de lembranças a esperanças. Um filme passa em nossa cabeça e lembramos de tudo o que perdemos pela deficiência, mas também tenho certeza que nos tornamos pessoas melhores e superamos muita coisa e continuaremos superando, porque a partir do implante teremos uma nova vida, quem sabe seremos ainda mais fortes, mais seguras e principalmente mais independentes. Força a você, coragem, tudo vai dar certo.
    Grande abraço

    Responder
  • mirian
    05/09/2013 at 12:00 am

    Querida Paula, percebo que o momento é tenso pra você, mas também percebo a garra, a coragem que tu tens. E penso que quando tu escreves deve te aliviar um monte! Quero que saiba que assim como eu, um montão de gente se emociona e torce cada dia pra que se realize e possa continuar iluminando os caminhos de tanta gente, me sinto parte desta família que você criou. Deus deve estar muito feliz por causa do que tu tem feito pois tem em você um instrumento de paz pra todos nós. Obrigada querida! Bjs

    Responder
  • Danielle Alexandra
    04/09/2013 at 11:36 pm

    Ai, Paula. Cada post que coloca, me emociona cada vez mais. Estou super envolvida no seu caminho, pois, no futuro, farei a mesma coisa.Muito obrigada por compartilhar suas angústias e seus medos, por favor, não pare de escrever! Estou te apoiando muito, e acredite, estou muito ansiosa com sua cirurgia!!!! 😀

    Responder
  • Alice Constante
    04/09/2013 at 9:12 pm

    Super emocionante! Enchi os olhos de lágrimas. Acredita, vai dar tudo certo e vai passar rápido os dias para a ativação do implante. Um abraço carinhoso da fono aqui. beijo

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  • soramires
    04/09/2013 at 8:14 pm

    Paula, sua viagem interior me emocionou muito…te desejo muita paz, menos ansiedade e coragem de pijaminhas novos…Abração em você e nas pessoas próximas que devem estar também muito ansiosas. Mami segura o coração!

    Responder
  • Daniela A.
    04/09/2013 at 8:11 pm

    Ai, quantos sentimentos ao mesmo tempo tu estás sentindo!!! Acho muito bom que vc consiga compartilhar com a gente, ajuda a aliviar um pouco! E afinal, todos estamos torcendo por ti, pra que corra tudo bem na cirurgia e que a recuperação seja estupenda!!!
    Creio que esses 30/40 dias vão passar rápido sim, pois nos primeiros vc vai estar dodói, mais sonolenta por causa dos remédios e da própria recuperação. Ainda mais que vai estar num “ambiente” super silencioso, bom pra dormir bastante!!!
    Tenho muitas curiosidades sobre o procedimento em si, mas vou esperar vc ir falando conforme quer pra não te deixar mais ansiosa! rsrsrsrsrs
    Beijo grande queridona!!!!!

    Responder
  • Marina
    04/09/2013 at 7:39 pm

    Oi Paula,
    Eu fiz este teste das frases mês passado, também achei um máximo. É a nossa memória auditiva a todo vapor. O que fará diferença para receber bem o implante. Fico feliz que sua cirurgia está chegando. No meu caso como farei pelo sus o processo é um pouco mais longo… mas tudo bem. E concordo contigo todo esta conversa com os profissionais da saúde que nos acompanham neste momento pré implante mexe com um turbilhão de coisas dentro da gente, mas acredito que tudo isso é válido nos faz e nos deixa mais forte. Querendo ou não sua amiga fono Michele tem razão é sim uma nova pelo menos etapa da vida começando e tudo de bom a vir por ae! Beijinhos =D

    Responder

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