Voltar a ouvir tem sido uma jornada e tanto. Em novembro de 2024 completo 11 anos ouvindo com dois implantes cocleares. Até o Lucas nascer, todo ano eu escrevia um longo texto sobre como é voltar a ouvir, se deslumbrar com os sons, reencontrar sons antigos. Como a vida muda, como você muda quando recupera a autoestima, a segurança e a independência que a audição biônica traz de volta. Tem sido cada vez mais incrível. O texto abaixo foi escrito em 2015. Se você está com medo de fazer um implante coclear, se acha que o implante coclear é perigoso ou qualquer coisa assim, associe-se ao CLUBE Surdos Que Ouvem e venha conversar direto comigo e com centenas de usuários de implante coclear de todo o Brasil e tirar as suas dúvidas.
UPDATE em 2026: voltar a ouvir foi o maior presente que a vida já me deu. Depois disso, ter me casado com um otorrino especialista em surdez tão apaixonado pela reabilitação auditiva quanto eu.
Como foi ser surda e voltar a ouvir com um implante coclear?
Semana passada reencontrei minha terapeuta após alguns meses sem vê-la. A primeira coisa que disse quando me viu foi que tinha lido o segundo livro e agora me entendia melhor. E fez um comentário que me deixou bem pensativa:
“Antes do IC, você tinha o poder de escolher quem entraria no seu mundo silencioso, quando as pessoas entrariam e por quanto tempo poderiam permanecer nele. Afinal, para que isso acontecesse, você precisava dar atenção total para a pessoa. Se virasse para o lado ou saísse do recinto, a conexão acabava. Hoje, não. Todos podem invadir o seu mundo o tempo inteiro depois do IC: te ligando, gritando para você de outro cômodo, querendo conversar porque sabem que você está ouvindo, cantarolando uma música. Você perdeu esse poder e agora precisa aprender a não ser mais tão auto-centrada!”
O som não pede permissão para entrar. O som te arranca da tua zona de conforto silenciosa à força, sem dar a mínima importância para o fato de estar ferindo – ou não! – os teus sentimentos. Foi exatamente isso o que aconteceu comigo, pessoinha mais do que acostumada ao silêncio e mergulhada num mundo próprio no qual o som não tinha acesso. Confesso que nunca tinha parado para pensar sob a perspectiva apresentada pela Silvia, minha terapeuta.
Enquanto escrevo esse post estou sozinha numa sala da SONORA. Pensando bem, não estou sozinha: o som invade o ambiente com o tic-tac alto e incessante de um relógio de parede. Mais o barulho do ar condicionado. E das pessoas no corredor do andar. O insight que tenho é de que a solidão acabou para mim. Ela só existe quando estou sem implante coclear, ou seja, quando estou dormindo ou tomando banho.
Voltar a ouvir não é – como muitos imaginam que seja – simplesmente ser capaz de ouvir pássaros, de entender vozes, de apreciar música, de falar no telefone. Voltar a ouvir é também voltar a fazer parte do mundo de maneira ativa e passiva. Ativa pois você deixa de precisar dos outros para inúmeras coisas e passa a fazê-las você mesmo; passiva pois o som é invasivo de um jeito que só voltando a ouvir para conseguir compreender.
Voltar a ouvir me fez reavaliar todas as escolhas que fiz durante meus 31 anos de perda auditiva progressiva. É dificílimo lidar diariamente com as escolhas erradas no tocante à minha vida profissional.
Voltar a ouvir é voltar a ser estimulado de modos que você esqueceu que existiam. Ler um livro e ouvir o barulho do seu dedo virando a página, admirar um pôr-do-sol ouvindo o vento e o som dos seus próprios passos.
Voltar a ouvir é aprender a reviver partes suas que estavam completamente adormecidas, é ter uma sensibilidade incrível de volta. É se tornar uma pessoa que busca de modo constante sons e significados que para os outros são banais, para não dizer patéticos. A campainha tocou? Enquanto você pensa “PQP, ouvi a campainha tocar!” os outros pensam “êta barulho chato“.
Voltar a ouvir é ter que fazer um esforço constante para sair do seu próprio mundo, para aceitar de bom grado a presença – e a respiração, a fala, os suspiros, os gritos – do outro. Voltar a ouvir é perceber 100% a presença alheia e suas nuances e, também, ter que lidar com o modo como a sua presença afeta as outras pessoas. Voltar a ouvir é aprender a dar em vez de apenas receber.
O silêncio me dava uma certa paz: eu detinha o poder de determinar minhas interações e também os meus desafios, tão limitados pela falta de som. Mas, no fim das contas, ele me dava mais desatino e tristeza do que qualquer outra coisa, pois eu queria desesperadamente fazer parte do mundo sonoro.
A surdez é egoísta, a audição é generosa. E eu, dia após dia, venho tentando me desapegar do egoísmo e da solidão que a surdez impregnou na minha alma. Sem implante, sou EU. Com implante, sou EU NO MUNDO. Um ano e oito meses depois, ainda estou construindo a ponte entre esses dois eus. Voltar a ouvir é um trabalho eterno que vem me transformando num ser humano melhor. O silêncio é estático, o som é dinâmico. E a nossa existência é feita de um dinamismo incessante, ainda bem.
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