Crônicas da Surdez Destaques

O que você precisa saber sobre surdez, surdos e tecnologia

O que você precisa saber sobre surdez, surdos e tecnologia? Bastante coisa! Saiba que, se for novato no assunto, vai se deparar com muitos discursos prontos, e meu conselho é bem simples: informe-se muito, agradeça as opiniões tendenciosas, desconfie de comentários terroristas e tire suas próprias conclusões. O básico do básico é que não existe uma categoria de surdos na qual todas as pessoas que não ouvem ou ouvem mal se enquadram. Pelo contrário, você vai é ficar surpreso com as infinitas possibilidades existentes.

Aprendi uma boa lição nesses seis anos de Crônicas da Surdez: o politicamente correto, além de burro, também é deveras egoísta. Também aprendi, aos trancos e barrancos, que algumas pessoas se sentem ‘donas’ do assunto surdez e ficam absolutamente furiosas com quem ousa mostrar as outras possibilidades de um mesmo tema. Não foram poucas as vezes em que fui educadamente convidada a calar a boca, e foram muitas as vezes em que tentaram me silenciar usando de artimanhas de baixo nível – enxurradas de emails com ameaças, vídeos toscos me detonando no YouTube, mensagens de baixo calão, entre outras perdas de tempo.

Só que eu sou a maior entusiasta da reabilitação auditiva e um bom exemplo do que ela é capaz de fazer na vida de uma pessoa com surdez profunda. Aproveito cada convite que recebo falar sobre a existência dos surdos oralizados. Por incrível que pareça, quando se fala em surdez a tendência é ficar em cima do muro pois, segundo muitos, o assunto é polêmico. Discordo veementemente disso! Eu sou surda, e vou falar sobre surdez quando bem entender. De polêmico, o assunto não tem nada – o que existe é uma aura de territorialismo infantil sobre ele que as pessoas sentem medo de ‘quebrar’. Não só não tenho medo como também faço questão 🙂

Geralmente tenho que ouvir pérolas estilo “Surdo que é surdo usa Libras!” quando explico que existem centenas de milhares de pessoas no mundo que são surdas e falam, escrevem e usam a tecnologia para voltar ao mundo dos sons. Ou, pior, aquela papagaiada chata de que “surdo de verdade é aquele que nunca ouviu nada, o resto é deficiente auditivo se achando surdo“. Juro que às vezes até me dá vontade de desistir diante de tanta asneira repetida que ouço e leio. A pior, disparada, é a clássica “existem Surdos e surdos” – como se um caps lock elevasse a um patamar espiritual superior aqueles que usam a santíssima língua de sinais. Tipo:

haha

Não tenho nada contra a língua de sinais – quando me acusam disso fico pensando o que eu poderia ter contra uma língua? Meu problema é com os seguintes pontos bem específicos:

  • Divulgar a língua de sinais como a língua dos surdos: quem insiste em fazer isso presta um desserviço a quem é surdo e não usa Libras. Já perdi as contas de quantas vezes precisei explicar para alguém ao vivo que sou surda, falo, não uso Libras e escuto com dois implantes – e passar por mentirosa, pois as pessoas olham e dizem ‘como você pode ser surda se não gesticula?‘. Chega de generalização…A língua de sinais é uma língua como qualquer outra, usada por uma parte das pessoas que não escutam. Daí ser transformada falsamente numa língua que qualquer surdo nasce sabendo ou tem obrigação de saber, são outros quinhentos…
  • Obrigar as pessoas a aprender: recebo TODOS OS DIAS mensagens de estudantes falando que foram obrigados pela faculdade a aprender Libras e me pedindo pra explicar o porquê disso. Colocar Libras como disciplina obrigatória em qualquer faculdade me parece muito autoritário – e se a pessoa não quer aprender porque não tem utilidade na vida dela?
  • Divulgar Libras como a única acessibilidade para surdos: Se eu for a um evento ou palestra que tiver intérprete de Libras e depender disso para entender algo, não vou entender nada. A língua de sinais NÃO SUBSTITUI A MODALIDADE ESCRITA DA LÍNGUA PORTUGUESA. Coloquei em Caps Lock por dois motivos. Primeiro, para os que amam citar a lei de Libras e esquecem de ler esse parágrafo importantíssimo. Segundo, porque ela é acessibilidade para surdos sinalizados, e surdos oralizados também existem e precisam de legendas. Tão simples. Acessibilidade total, já ouviram falar? 😉

Quando me inscrevi num curso para aprender Libras, fui imediatamente tratada como intrusa ao perceberem que eu usava aparelhos auditivos. Nessa época (2002) eu estava saindo do armário da surdez e decidi fazer meu TCC em Ciências Sociais sobre a escolha da modalidade linguística pelas famílias das crianças surdas. E, como todo marinheiro de primeira viagem, me deparei apenas com bibliografias escritas por ouvintes sobre ‘estudos surdos’, ‘ouvintismo’, ‘cultura surda’ e outras expressões que, hoje, não fazem o menor sentido para mim, mas que há 13 anos atrás pareciam mesmo ser as respostas para as minhas perguntas. Santa inocência…

Quando não temos motivo para nos aprofundar num assunto específico, é claro que aceitaremos a sabedoria popular como verdadeira. É por isso que quem nunca topou com um surdo (oralizado ou sinalizado) e nunca conviveu com algum grau de deficiência auditiva acaba acatando algumas frases ditas por aí. Tais como:

  • todo surdo usa ou ‘tem que usar’ língua de sinais
  • todo surdo é mudo
  • todo surdo estuda em escola especial
  • todo surdo precisa de intérprete
  • todo surdo vive em contato com a comunidade surda e tem cultura própria
  • se não escuta é porque Deus quis assim e assim deve ser
  • a língua de sinais é a lingua natural dos surdos

Os desavisados, até entendo, mas quando leio reportagens falando sobre surdos e surdez nestes termos, meu sangue ferve. Porque? Porque é uma grande mentira. Porque a surdez é a deficiência mais heterogênea que existe. Porque a política de reabilitação auditiva disponível no Brasil é excelente se comparada até com grandes potências mundiais. Então, minha gente, já passou da hora de jogar limpo e expor a coisa como ela é, não acham?

Sendo assim, vamos falar sobre o que vem acontecendo no mundo. Em países desenvolvidos, um grande número (que cada vez cresce mais) das crianças nascidas hoje com surdez e diagnosticadas precocemente são reabilitadas com aparelhos auditivos e implantes. A The Alexander Graham Bell Association for the Deaf and Hard of Hearing deu uma resposta muito verdadeira e inteligente a um artigo publicado no Journal of the American Academy of Pediatrics, “Should All Deaf Children Learn Sign Language? (Todas as crianças surdas deveriam aprender língua de sinais?). Parece que, pela primeira vez, alguém teve peito de desafiar o politicamente correto – e dizer o que muuuitos pensam, mas não têm coragem de dizer.

ASL is unnecessary in many, if not the majority of, cases of a child born today with hearing loss who has the benefit of early identification, early amplification and good intervention,” said Meredith Sugar, Esq., AG Bell President. (A língua americana de sinais não é necessária em muitos, senão na grande maioria, dos casos de crianças nascidas hoje com deficiência auditiva que tiveram o benefício do diagnóstico precoce, amplificação precoce e boa intervenção”, disse a presidente da AGBEll, Meredith Sugar)

Falando em desafiar o politicamente correto, isso me faz lembrar de uma pesquisa feita por uma audiologista num congresso a que fui em Washington ano passado. Ela dizia que países desenvolvidos estão focando em mostrar, em números, o custo para o Estado, ao longo da vida, de um surdo reabilitado e o de um surdo não reabilitado. A turma anti-tecnologia, que costuma usar o argumento de que “AASI’s e IC’s são caríssimos“, precisava ter acesso a isso. É só uma questão de fazer as contas sobre quanto custa de depender do Estado a vida toda e quanto custa não depender – vide aposentadoria por invalidez, benefícios e várias outras coisas.

A única coisa que eu, você ou qualquer pessoa temos a ver com as escolhas linguísticas alheias é uma obrigação moral, sempre que nos for solicitado, de mostrar TODAS as opções, prós e contras no tocante às possibilidades de comunicação de uma pessoa que não ouve ou ouve mal. E quais são? Língua de sinais, língua oral ou ambas. A utilidade de cada uma varia caso a caso, pessoa por pessoa. Costumo dizer que por trás de cada caso de deficiência auditiva existe um ser humano, uma família, uma condição socioeconômica, pais ausentes ou presentes, amigos, escola e professores.

Às vezes uma criança faz um IC e o resultado não é bom, ela se encontra na Libras. Nas vezes em que as crianças fazem IC e têm um resultado fantástico, a Libras não tem utilidade nenhuma nas suas vidas. Às vezes pessoas com resultados muito bons com IC ou AASI simplesmente optam por aprender Libras. Às vezes usuários de Libras que têm muita vontade de saber como é ouvir partem pro IC mesmo sabendo que poderão não ter um resultado bacana e se encantam com o resultado que conseguem.

Não existe 2 + 2 = 4 quando falamos de surdez.

Esse negócio do ‘tem que’ é que eu abomino. Cada um faça o que bem entender, levando em conta as consequências das suas escolhas. Exemplo típico: pais surdos de bebês surdos que dizem que não darão ao seu filho a chance de ouvir pois ele é quem deve decidir quando for adulto devem ter consciência de que o estão privando desta escolha futura, já que a precocidade é fator fundamental de sucesso no IC. Ninguém deixa de ser surdo ou deixa de ser capaz de aprender Libras ao optar pela reabilitação auditiva. Aos terroristas de plantão: se informem melhor. E parem de espalhar por aí que implante coclear explode o cérebro que chega a dar vergonha ler/ouvir tamanha besteira – tão feio assustar pais fragilizados com mentiras como essas…

Em 2012, eu disse o seguinte: ‘Todo o meu respeito por quem exalta as diferenças, e todo o meu desprezo por quem finge que elas não existem’. Em 2016, quero reformular a frase. Todo o meu respeito por quem assume a existência das diferenças e não mete o bedelho nas escolhas alheias.

81 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

13 Comentários

  • olá paula sou surda implantada há 12 anos, acho que você escreve superbem, concordo com muito que escreveu, mas por ter trabalhado com surdos usuários de libras (sinalizados) por muitos anos, acho que vc poderia estudar sobre bilinguismo. O bilinguismo é uma pedagogia adotada por qualquer escola séria para educação de surdos e tem na lingua de sinais brasileira a primeira forma de comunicação e, na lingua portuguesa escrita a segunda forma de comunicação, em substituição à lingua oral visando inserir os surdos na sociedade mais ampla. Conheço muitos surdos sinalizados que foram forçados pelos seus pais a aprender a lingua oral (por meio da leitura labial) e embora hoje terem um discurso de repudio ao oralismo, são surdos líderes porque transitam bem entre os dois mundos(ou seja, ouvir nunca foi demais). então a língua e a linguagem em si são aquisições cognitivas, libertadoras e o único território que limitam os surdos é a incapacidade de escutar sejam eles sinalizados ou oralizados.
    bjs

  • Eu sou dificiente auditiva , nem quando usava aparelhos auditivos nem agora que uso i.c me senti “obrigada” a aprender lobras porque tenho outros metodos para perceber as pessoas . Consigo ler os labios quado nao escuto por isso isso me ajudou muito . tenho 2 cursos e na escola sempre me aceitaram mesmo sabeno que teriam de repetir o que falavam . hoje tenho um emprego e aqui sinto-,e ,uiyo felliz sempre me ajudam quando nao entendo repeten menos quando a pilha acaba e ate mesmo quando acaba consig escutar muito pouco , mas claro que a lingua dos sinais tambem e importante porque onde eu trabalho tem a parte de turismo e e sempre bom haver turismo assesivel .

  • Oi Paula! Concordo com você. Sou deficiente auditiva há pouco tempo, e como tenho 47 anos, e falo perfeitamente, às vezes as pessoas não acreditam que não escuto bem. Dependo totalmente da leitura labial, pois tenho neuropatia auditiva e afeta ambos os ouvidos. Não quis aprender Libras, pois como a maioria das pessoas não sabe, não me adiantaria de nada. Acho que Libras restringe a comunicação (opinião totalmente pessoal). Pretendo testar alguns aparelhos auditivos no próximo ano, apesar dos médicos acharem que não adiantam no meu caso, pois pela audiometria minha audição é normal.

  • Olá!
    Surdez não tenho, mas trabalho há cinco anos com aulas de reforço na língua portuguesa. Um dos grandes obstáculos que pude verificar para boa aprendizagem do aluno surdo, tratando-se da língua portuguesa é que há falta de material direcionado para alfabetização desses alunos.

    Todos materiais que pesquisei falham no quesito “ditado”, quando pergunto ao professor de português, a resposta é sempre a mesma. Olha, por mais que queiramos, temos a formação que indica ditado e leitura do aluno para só então discutir os temas, isso é, interpretar os textos.

    Assim, que ingressei no curso de IA-Inteligência Artificial, encontrei muitas ferramentas e programas para cegos, enquanto que para surdos nada encontrei. Foi então que optei por essa área e aqui estou.

    Grato por essa oportunidade de comentar.

  • Bom dia, paula.

    Admiro suas atitudes.
    Meu filho Carlos Eduardo da Silva Firme .. é deficiente auditivo severo profundo bilateral. Usa AASI orelha esquerda e IC- Implante Coclear orelha direita-. AASI usava em ambas asa orelhas desde 1 ano e 4 meses .

    Tenho toda satisfação em ter contato direto com implante coclear e ver os benefícios que trouxe ao meu filho desde a cirurgia.

    Oportunizo ao Carlos fono e aula de libras com professor surdo toda semana, ele tem acompanhamento de 6 em 6 meses.

    Só temos SUCESSO. Carlos lê, escreve seus próprios textos, e fala como um papagaio.. o sons de algumas letra ainda não são nítidos mas ele só tem 09 anos. ele adora os parelhos e inteligentíssimo ..
    não privo meu filho de nada, trato-o normalmente como deve ser ….. regras e normas iguais sempre não facilito falo como as coisas são sem meio termo….

    As pessoas vivem inventando nomes diferentes para facilitar entendimento… não concordo com isso pois ele terá que aprender duas vezes…
    otimas crônicas,parabéns.
    sou Josileide

  • Concordo plenamente contigo! E junto a isso, sempre defendi mostrar aos pais de crianças com surdez os diferentes caminhos do tratamento e de escolarização na surdez, tomando como exemplo a vida das pessoas surdas, oralizadas ou não, para que esses pais possam fazer suas escolhas.

  • Muito bom! Algumas vezes já aconteceu comigo algumas pessoas querendo me fazer entender que o LIBRAS deveria ser a minha língua só porque sou surdo (CID H90.3) exclusivamente oralizado. Irrita!

  • Parabéns!..Disse tudo e mais um pouco, na minha cidade participava de um Grupo de deficiente auditivo no Facebook,quando souberam que era implantado me excluíram do Grupo.

  • Parabéns! Fico muito feliz de poder ler o que você escreve, principalmente pela CORAGEM de se abrir contra essa ditadura politicamente correta da Libras (e das línguas de sinais em geral).

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