Crônicas da Surdez

Implante coclear na academia

Foto: Shutterstock

A gente para pra pensar na vida nos momentos mais improváveis. Ontem entrei na sauna da academia que frequento, e como ela é toda envidraçada minha visão pega a piscina lá embaixo e as salas de aula (também envidraçadas) de spinning e ginástica.

Preciso tirar o implante coclear para entrar na sauna – vapor, umidade e calor infernal, eu é que não sou louca de entrar de IC lá dentro. Ao tirar, volto para o silêncio.

Observar as coisas acontecendo enquanto estou na minha masmorra silenciosa é tão, mas tão estranho. Fiquei fitando a piscina e vendo o movimento da água e pensando no barulho disso, que conheço e adoro, mas que não estava ali.

O cérebro de quem não ouve mas já ouviu sente uma falta quase física do estímulo sonoro. Observar as pessoas pulando e pedalando enlouquecidamente nas aulas de ginástica sem som chega a não fazer sentido.

De repente me vi recordando de um episódio dentro de uma piscina, em 1998, quando soube com todas as letras sobre minha surdez então severa e progressiva. Estava numa aula de natação quando decidi mergulhar e ficar gritando debaixo d’água para ouvir a minha voz – naquela época ainda conseguia fazer isso – porque não conseguia parar de pensar na chegada do dia em que não ouviria mais nada.

Essa idéia me deixava louca de medo e pavor. 15 anos depois, tenho o privilégio de entrar numa piscina com meu implante coclear e poder falar enquanto estou submersa e…ouvir minha voz muito melhor do que naquela vez!

Lembrei também de um episódio em que meu tio me mandou de presente pelo Correio, lá de Londres, um MP3. Isso deve ter sido em 2001, por aí. Eu ainda não usava pra valer aparelhos auditivos e se já existiam os AASI com conexão bluetooth, desconhecia tal fato.

Fui para a academia feliz da vida com ele e, chegando lá, mesmo colocando os fones de ouvido no último volume o som para mim era de médio para baixo. Subi na esteira e comecei a caminhar, e percebia que as pessoas ao meu redor me olhavam com um semblante de irritação.

Nem me passou pela cabeça que o som dos meus fones estava incomodando todo mundo!! Só fui me tocar disso ano passado, quando tive o desprazer de fazer uma viagem de ônibus ao lado de um adolescente que estava com seus fones a 120dB…

Tecnologia

Atualmente não existe a mínima possibilidade de ir para a academia sem meu Mini Mic ou meu cabo de áudio: é um momento meu, no qual o que me dá mais prazer é ouvir música e entender as letras. Dia desses baixei uma música que ouvia quando tinha uns 13 anos, “How do you do“, do grupo Roxette.

Com certeza as pessoas (incluindo o Luciano) acharam que eu era louca, porque quando aquela música começou meu corpo arrepiou inteiro e fiquei dançando sozinha no meio da BodyTech sem o menor constrangimento. Parecia que eu estava com 13 anos outra vez e que finalmente alguns momentos da minha infância e adolescência fizeram o sentido que antes nunca tiveram.

Eu ouvia essa música nos jantares infantis do Clube Comercial de Santa Maria enquanto esperava algum garotinho vir me tirar pra dançar. E jamais tinha entendido a letra…Poder fazer isso aos 34 anos fez com que minha adolescente interna berrasse de felicidade e emoção!

Gratidão

Mas voltando à minha epifania, olhando para a água daquela piscina linda em movimento sem som para acompanhar e  fazer a trilha sonora senti uma espécie de gratidão incomunicável. Às vezes sinto muita dificuldade de explicar para os que estão ao meu redor alguns sentimentos ligados à essa capacidade de ouvir o mundo após tantos anos outra vez. Depois que voltei a ser/parecer ‘normal’ aos olhos dos que convivem no dia-a-dia comigo o assunto renascimento sonoro acaba sendo chato e entediante para eles.

Hoje cada pedaço da vida tem trilha sonora e cada pequeno acontecimento precisa vir acompanhado de som. Mas ainda gosto muito do silêncio em três momentos: quando estou estressada, quando preciso me concentrar num trabalho/tarefa ou quando vou dormir.

Meu cérebro fica tão ligado e excitado quando é estimulado pelo som que não me deixa dormir de jeito algum. Por isso, quando alguém me diz ‘nossa, como ventou essa noite‘ ou ‘que barulheira de chuva e raios a da noite passada, hein?’ só consigo pensar: “Baby, isso não existe no meu mundo!” 🙂

47 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

1 Comentário

  • Falando em música, gostaria de compartilhar minha experiência com fones de ouvido, (sempre invejei que os usava), há pouco comprei um fone daqueles que ficam sobre a orelha, ele tem cartão de memória que pode gravar até 1000 músicas ou conecta via bluetooth com celular. Eu coloco sobre o implante e ouço músicas normalmente com o fone. O bom é que você não precisa ficar com o celular por aí e fica livre de cabos usando só o cartão de memória que vc grava com suas músicas, para mim é tudo de bom, excelente mesmo.

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