Crônicas da Surdez

Como foi estudar na Columbia University: acessibilidade e mais

O grande sonho da minha vida, não realizado, era estudar fora num país de língua inglesa. Nunca me passou pela cabeça ter cacife – e inteligência – para conseguir ser aluna da Ivy League nos EUA, e além disso eu também não ouvia quase nada em português quando adolescente (já estava na surdez bilateral severa aos 16 anos), imaginem em inglês…

Isso foi algo que guardei para mim mas sempre me machucou muito. A coisa mais doída que a surdez me roubou. Na minha época não se falava em aparelho auditivo e muito menos em acessibilidade como hoje, ou seja, não tinha nem de onde tirar forças para ter alguma coragem de tentar, mesmo com a surdez dominado meu mundo. Se o grupo do Crônicas da Surdez no Facebook existisse em 1998, acho que minha história teria tido outro rumo…

Vi muitos amigos indo fazer intercâmbio, vários conhecidos indo fazer faculdade fora, muita gente que foi estudar e trabalhar e nunca mais voltou. E como eu queria ter ido! Quantas noites me peguei sonhando como seria, o quanto aquilo me enchia de emoção era algo fora do comum. Mas a excitação logo acabava quando eu me dava por conta de que não tinha nem os recursos físicos (audição), nem os financeiros. Aí, era colocar a cabeça no travesseiro e chorar baixinho a noite toda…

O tempo passou, cheguei no fundo do poço da surdez profunda, fiz um implante coclear, voltei a ouvir, o inglês passou a entrar e fazer sentido com facilidade pra mim… As voltas que a vida dá! Graças ao Facebook, tive a oportunidade de passar uma semana estudando na Columbia University, em Nova Iorque.

A cara da felicidade

Na primeira vez que entrei no campus, meu Deus! Queria começar a gritar pra todo mundo ouvir: “Eu conseguiiiiiiiiiiiiii!“. Não sei explicar nem pôr em palavras a explosão de sentimentos dessa semana. Me senti a pessoa mais sortuda do mundo, senti que minha jornada triste e solitária serviu para alguma coisa e me preparou para estar lá com outra perspectiva, senti tudo-ao-mesmo-tempo-agora. Foi de acabar com o coração da pessoa, juro.

Os colegas

Eu era, pra variar, a única surda da turma. Sendo assim, fiz a apresentação apropriada e saí fazendo amizade com todos que consegui. Não foi fácil estar lá, pois precisei vencer minha timidez e vencer também o pânico de ouvir e não entender – e de falar errado, rsrsrsrs! Mas querem saber? Não há sensação mais motivadora do que dar a cara a tapa e se permitir vivenciar certas coisas que, às vezes, por medo, não viveríamos.

O primeiro curso foi de Digital Marketing Strategy e os alunos eram mais sérios e tinham uma pegada mais business. Fiquei amiga do presidente de uma companhia chinesa queridísimo, Sr. Qyn, que conversou alegremente comigo e me fez mil perguntas sobre o implante coclear. Pude compartilhar toda minha experiência de dez anos de mundo digital e angariar a atenção de todos – fiquei surpresa com o quanto o tema “surdez e tecnologia” chama a atenção.

O segundo curso foi de Strategic Storytelling, e nele sim fiz vários amigos. As aulas foram no Lincoln Film Center e a atmosfera era de criatividade total. Fiquei com a cabeça fervilhando de idéias o tempo inteiro! O mais bacana foi que meu grupo escolheu o Projeto Surdos Que Ouvem para análise e apresentação de um plano de mídia na frente de todos, e lá fui eu enfrentar mais um demônio: falar em inglês para uma platéia de CEOs, diretores e gente da pesada. Com as pernas bambas, mas fui.

No Instagram @CronicasDaSurdez há uma pasta de Destaques NY, e lá vocês podem ver todos os stories que fiz durante essa jornada.

Acessibilidade? Sim, temos!

Logo após me inscrever nos cursos, contatei o departamento de acessibilidade da Columbia University e solicitei a presença de um live captioner nas aulas. Traduzindo: uma pessoa que transformasse tudo o que era dito em legendas. A moça da foto acima foi a melhor de todas. Legendas impecáveis e um iPad gigante, que me ajudou e ler com mais facilidade – os outros captioners levaram mini tablets e eu quase vesgueei tentando ler aquelas mini letras!

O professor do segundo curso falava para dentro e a galera sofreu para entender o que ele dizia. E aí, vinham me perguntar se podiam espiar minhas legendas, rsrsrsrs. Dei o feedback para os organizadores: legendas ajudam todo mundo, não apenas quem não ouve. O certo mesmo seria projetá-las direto no telão, porque preciso ficar desviando olhar entre professor-tela o tempo todo, e isso cansa. Reclamações à parte, foi sensacional ter essa acessibilidade. Sem ela, tudo teria sido infinitamente mais difícil.

No primeiro curso, um dos guest speakers falava mais rápido que Galvão Bueno narrando partida de futebol. A captioner se desesperou e pediu que ele falasse mais devagar, e naquele momento caiu minha ficha: que profissão difícil. Além da audição perfeita, você precisa de foco e concentração totais, senão, é impossível trabalhar. Respeito as pessoas que trabalham com legendas ao vivo num GRAU…

Os captioners não ficavam comigo nos intervalos, quando as interações sociais iam pro nível máximo. Aí era eu e os implantes na linha de frente, e graças a Deus foi tudo tranquilo. Lógico que pedi para as pessoas repetirem algumas coisas quando precisei, e não tive problema algum com isso. Um colega da Albânia me disse algo que jamais vou esquecer: “Te conhecer foi impactante. Eu não sabia nada sobre surdez. Quando você disse que era surda, eu não acreditei. Quando vi seus aparelhos pensei ‘uau, olha essa pessoa surda que consegue ouvir!'”.

A lição que fica

Aonde quer que a gente vá, se estivermos abertos, conseguimos passar muita informação para os ouvintes a respeito das peculiaridades da deficiência auditiva. Uma professora me contou que a mãe perdeu seus aparelhos auditivos e não tem dinheiro para comprar novos. Um colega contou que a filha precisa fazer uma cirurgia no ouvido. Outro colega relembrou com os olhos marejados de um amigo dele da época da escola que era surdo. E uma colega disse que ouvia mal de um dos ouvidos…

Foi maravilhoso ter vivido essa experiência! Se você tem vontade e condições de viver algo assim, não hesite. Hoje, os departamentos de acessibilidade das universidades nos dão todos os recursos necessários para estarmos em sala de aula com dignidade e em igualdade de condições com os outros colegas.

Seja o primeiro a amar.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

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