O grande sonho da minha vida, não realizado, era estudar fora do Brasil, num país de língua inglesa. Nunca me passou pela cabeça ter cacife financeiro ou capacidade intelectual para conseguir ser aluna da Ivy League nos EUA. Além disso, eu também não ouvia quase nada em português quando adolescente (já estava na surdez bilateral severa aos 16 anos), e em inglês menos ainda… Fui uma adolescente que se sentiu muito frustrada por não poder fazer intercâmbio. Depois de adulta, segui acalentando esse sonho, de forma silenciosa.
Um sonho adormecido: estudar na Columbia University
Isso foi algo que guardei para mim mas sempre me machucou muito, a coisa mais doída que a surdez me roubou. Na minha época não se falava em aparelho auditivo e muito menos em acessibilidade como hoje, ou seja, não tinha nem de onde tirar forças para ter alguma coragem de tentar, mesmo com a surdez dominado meu mundo. Se o Clube dos Surdos Que Ouvem existisse em 1998, acho que minha história teria tido outro rumo… Mesmo que minha família não tivesse condições financeiras para me mandar estudar fora, eu tenho certeza de que teria encontrado uma forma de fazer isso acontecer.
Vi muitos amigos indo fazer intercâmbio, vários conhecidos indo fazer faculdade fora, muita gente que foi estudar e trabalhar no exterior e nunca mais voltou. E como eu queria ter ido também, explorado o mundo e me desafiado bem longe da casa caótica onde eu vivia.
Quantas noites me peguei sonhando como seria! O quanto aquilo me enchia de emoção era algo fora do comum: eu imaginava em detalhes como seria caminhar pelo campus, conversar em inglês, tomar um café na biblioteca da universidade num dia de chuva, infinitas imagens mentais da experiência. Mas a excitação logo acabava quando eu me dava por conta de que não tinha nem os recursos físicos (audição), nem os financeiros. Aí, era colocar a cabeça no travesseiro e chorar baixinho a noite toda…
O tempo passou, cheguei no fundo do poço da surdez profunda, fiz um implante coclear, voltei a ouvir, o inglês passou a entrar e fazer sentido com facilidade pra mim… As voltas que a vida dá! Graças ao Facebook, tive a oportunidade de passar uma semana estudando na Columbia University, em Nova Iorque, quando venci o Facebook Community Leadership Program pela America Latina em 2019.
A cara da felicidade: aluna da Columbia University
Na primeira vez que entrei no campus, meu Deus! Queria começar a gritar pra todo mundo ouvir: “Eu conseguiiiiiiiiiiiiii!“.
Não sei explicar nem pôr em palavras a explosão de sentimentos dessa semana. Me senti a pessoa mais sortuda do mundo, senti que minha jornada triste e solitária serviu para alguma coisa e me preparou para estar lá com outra perspectiva, senti tudo-ao-mesmo-tempo-agora. Foi de acabar com o coração da pessoa, juro. Eu me emocionava o tempo inteiro e não conseguia acreditar no que estava vivendo. Dei muitas voltas a pé pelo campus para tentar gravar cada detalhe daqueles dias na memória e nunca mais esquecer.
Os colegas
A única surda da turma na Columbia University
Eu era, pra variar, a única surda da turma. Sendo assim, fiz a apresentação apropriada e saí fazendo amizade com todos que consegui.
Não foi fácil estar lá, pois precisei vencer minha timidez e vencer também o pânico de ouvir e não entender – e de falar errado! Mas não há sensação mais motivadora do que dar a cara a tapa e se permitir vivenciar certas coisas que, às vezes, por medo, não viveríamos.
O primeiro curso foi de Digital Marketing Strategy e os alunos eram mais sérios e tinham uma pegada mais business. Fiquei amiga do presidente de uma companhia chinesa (Stanley) queridísimo, Sr. Qyn, que conversou alegremente comigo e me fez mil perguntas sobre o implante coclear. Ele queria compreender a tecnologia e o que ela era capaz de fazer.
Pude compartilhar toda minha experiência de dez anos de mundo digital e angariar a atenção de todos. Confesso que fiquei surpresa com o quanto o tema “surdez e tecnologia” chama a atenção das pessoas lá fora.
O segundo curso foi de Strategic Storytelling, e nele sim fiz vários amigos. As aulas foram no Lincoln Film Center e a atmosfera era de criatividade total. Fiquei animadíssima.
A cabeça fervilhava de ideias o tempo inteiro! O mais bacana foi que meu grupo escolheu o Projeto Surdos Que Ouvem para análise e apresentação de um plano de mídia na frente de todos, e lá fui eu enfrentar mais um demônio: falar em inglês para uma plateia de CEOs, diretores e gente da pesada no mundo da criação. Com as pernas bambas, mas fui. 🙂
No meu Instagram @CronicasDaSurdez há uma pasta de Destaques NY, e lá vocês podem ver todos os stories que fiz durante essa jornada.
Acessibilidade para surdos? Sim, temos!
Logo após me inscrever nos cursos, contatei o departamento de acessibilidade da Columbia University e solicitei a presença de um live captioner nas aulas.
Traduzindo: uma pessoa que transformasse tudo o que era dito em legendas. A moça da foto acima foi a melhor de todas. Legendas impecáveis e um iPad gigante, que me ajudou e ler com mais facilidade – os outros captioners levaram mini tablets e foi muito difícil ler aquelas mini letras!
O professor do segundo curso falava para dentro e a galera sofreu para entender o que ele dizia. E aí, vinham me perguntar se podiam espiar minhas legendas para conseguir acompanhar as aulas, rsrsrsrs. Só Deus sabe como a captioner entendia o que ele falava.
Dei o feedback para os organizadores: legendas ajudam todo mundo, não apenas quem não ouve. O certo mesmo seria projetá-las direto no telão, porque preciso ficar desviando olhar entre professor-tela o tempo todo, e isso cansa. Reclamações à parte, foi sensacional ter essa acessibilidade. Sem ela, tudo teria sido infinitamente mais difícil.
No primeiro curso, um dos guest speakers falava mais rápido que Galvão Bueno narrando partida de futebol. A captioner se desesperou e pediu que ele falasse mais devagar, e naquele momento caiu minha ficha: que profissão difícil. Além da audição perfeita, você precisa de foco e concentração totais, senão, é impossível trabalhar. Respeito as pessoas que trabalham com legendas ao vivo num GRAU…
Os captioners não ficavam comigo nos intervalos, quando as interações sociais iam pro nível máximo. Aí era eu e os implantes na linha de frente, e graças a Deus foi tudo tranquilo.
Lógico que pedi para as pessoas repetirem algumas coisas quando precisei, e não tive problema algum com isso. Um colega da Albânia me disse algo que jamais vou esquecer: “Te conhecer foi impactante. Eu não sabia nada sobre surdez. Quando você disse que era surda, eu não acreditei. Quando vi seus aparelhos pensei ‘uau, olha essa pessoa surda que consegue ouvir!'”.
A lição que fica
Aonde quer que a gente vá, se estivermos abertos, conseguimos passar muita informação para os ouvintes a respeito das peculiaridades da deficiência auditiva.
Uma professora me contou que a mãe perdeu seus aparelhos auditivos e não tem dinheiro para comprar novos. Um colega contou que a filha precisa fazer uma cirurgia no ouvido. Outro colega relembrou com os olhos marejados de um amigo dele da época da escola que era surdo. E uma colega disse que ouvia mal de um dos ouvidos…
Foi maravilhoso ter vivido essa experiência! Se você tem vontade e condições de viver algo assim, não hesite. Hoje, os departamentos de acessibilidade das universidades nos dão todos os recursos necessários para estarmos em sala de aula com dignidade e em igualdade de condições com os outros colegas.
Gratidão eterna ao Universo por me permitir realizar esse sonho da melhor forma possível: como surda que ouve com implante coclear em tempos de acessibilidade e tecnologia.
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